Cassilândia, Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017

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31/05/2008 06:13

Recado do Cheida: Pimenta nos olhos dos outros

Luiz Eduardo Cheida

Para se colocar um remédio na praça, primeiro dá para um bicho engolir. Morreu? Reduz a dose e tenta de novo! Sobreviveu? Bota no balcão da farmácia que o negócio é faturar!

E, na poeira destas experiências com animais, diria Laurinho, meu prezado de Alto Alegre:

- Muito macaco, rato e coelho foi esperdiçado.

Para ser quase preciso, pois não há quem saiba o número de cobaias submetidos a experimentos científicos no mundo, estima-se que a cada ano, só os EUA usem 35 milhões de animais; o Japão, 8 milhões e a Inglaterra, 4 milhões. Não se contam aí a França, Itália, Suíça, Bélgica, Canadá e seus impérios farmacológicos e de cosméticos, e 160 países mais, que também fazem experimentos, na imensa maioria, inúteis.

A requisição destes milhões de seres, durante os últimos cem anos, aos poucos fez vicejar e agigantou uma verdadeira indústria de gaiolas, mordaças, cordas, algemas, seringas, agulhas, soros, medicamentos, esteiras, fios e cabos para choques elétricos, capacetes eletrificados, laboratórios, profissionais, rações, vacinas animais e um império comercial que vai da procriação à entrega do animal.

As cobaias sentem o que nós, humanos, sentimos. Caso não sentissem, como justificariam experimentos com alguma utilidade a humanos?

Por isso, as experiências induzem nelas dor, angústia, ansiedade, desespero, incontáveis perturbações psicológicas, zumbidos, desorientação, sono, insônia, sede, fome, vômitos, anemia, febre, hipertensão arterial, arritmia cardíaca, diarréias, paralisias, convulsões, sangramento digestivo e morte.

São experimentos como os que pingam tinta de caneta, corante, cosméticos, batom, cera para assoalho, alvejantes, xampus e produtos de limpeza nos olhos de coelhos. Ou as que os obrigam a ingerir papel, sem parar. Ou choques elétricos nas patas de cachorrinhos que não podem fugir. Ou doses letais de radiação química e gases neurotóxicos em macacos. Ou a ingesta, por cães, de cápsulas de nitroglicerina. Ou choques em peixes. Ou a abertura da caixa craniana de macacos vivos. Ou dores em pôneis...

Por tudo isso e muito mais, naquela noite, as cobaias marcaram reunião de emergência. A gaiola de uma arara recém-chegada, envergonhada pelas quatro outras cores adquiridas já nas agulhadas do primeiro experimento, recebeu a todos. Estufado, o local não cabia mais um hamster.

- Deixa disso, arara! Olha para mim, um legítimo rato pelado, carregando esse implante de cabelo...

- E eu não estou mais bonita que você – tentou ajudar a lebre – piscando um olho azul e outro vermelho...

A anfitriã relaxou, seu intestino funcionou, e a reunião pôde começar.

O macaco, circunspecto, explicou o ponto de pauta:

- É daqui para o cemitério! Não há como escapar.

Um lamento uníssono percorreu o recinto. Ele continuou:

- Todas as rotas de fuga foram testadas. Quem tentou, falhou. Não podemos persistir. Já perdemos companheiros demais.

- Não há mais nenhuma cobaia?

O sarcasmo foi recebido com total indignação.

- O que fazemos? – suplicou a porquinha sem o útero, com três mamas ainda intactas, e sem os dentes de cima.

- Se não há como sair, vamos reduzir o número dos que podem entrar.

- Sensato – rosnou um cão fluorescente.

E, em meio a um clima de invejável solidariedade, para com cobaias que jamais sonhavam entrar naquele local, foi que o grupo resolveu não mais colaborar.

Ao raiar o sol, no primeiro choque matinal, o cão começou a miar. Confuso, o experimentador humano deixou-o e foi colocar máscaras de gases tóxicos nas narinas de coelhinhos recém-nascidos. Mas, os ratos haviam roído o tubo que acessava o compressor. Por isso, os coelhinhos sorriam, ao invés de, como era esperado, guincharem, babarem e debaterem-se. Não crendo no que via, ele tentou checar uma última experiência: provocar parada cardíaca com 2 mililitros de adrenalina em macaco Rhesus. Mas, a água destilada que, durante a noite, sorrateiramente, substituiu a adrenalina do frasco, permitiu que o futuro moribundo abrisse os braços e, num terno abraço, como um igual, acalentasse o pesquisador.

Foi muito!

Estarrecido, com os olhos esbugalhados; as mãos tateando o ar, em puro desespero, o experimentador saiu, trôpego, balbuciando frases desconexas e, na ânsia de se ver livre daquele verdadeiro manicômio em que tinha se transformado seu pacato e ordeiro laboratório, esqueceu a porta aberta e aquelas vidas condenadas puderam, para sempre, fazer aquilo para o qual haviam nascido: viver.

Um forte abraço e até sexta que vem.








Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia da Assembléia Legislativa do Paraná. Premiado pela ONU por seus projetos ambientais, foi prefeito de Londrina, secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.

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