Cassilândia, Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

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23/09/2008 09:22

Profissão professor: educador ou bode expiatório?

Rogério Tenório de Moura

Profissão professor: educador ou bode expiatório?

*Rogério Tenório de Moura

Se já não bastasse a famigerada revista Veja ter eleito os professores como os grandes vilões da Educação, em especial os que defendem a ideologia esquerdista, notoriamente contrária aos planos expansionistas da Editora Abril, virou moda entre os palestrantes, hodiernamente, tachar aos docentes a culpa por todas as mazelas da agonizante escola brasileira.
Ao que parece tais pseudo-educadores, uma vez que eles se auto-intitulam educadores, não sabem o que é pisar em uma sala de aula da Educação Básica há algumas décadas, afinal eles não conhecem as raízes das mais elementares aflições que atingem os professores atualmente. Partem das mais simplórias argumentações do tipo: salário baixo não é desculpa para não fazer um bom trabalho, até o deboche atroz de imbuir a pecha de descompromissados a todos os docentes da rede estadual de ensino, durante um palestra proferida na semana passada em nossa cidade, prova inconteste de preconceito e de pendor cabotino desavergonhado dos “doutores da Educação”.
Saber que parcela significativa dos professores da Educação Superior nos acham uma espécie acéfala já não é novidade nem para mim nem para ninguém que tenha cursado uma licenciatura há muito tempo, mas chegar ao ponto de em um encontro voltado justamente para nós, professores da Educação Básica, sermos chamados por uma dessas “donas do saber” de descompromissados e chorões é o “fim da picada”.
Pra quem não está entendendo do que estou falando, esclareço: ocorreu na semana passada um conferência educacional para se tratar metas e estratégias para se galgar nos próximos dez anos em nosso município, no entanto, já na palestra de abertura fomos brindados com célebre pérolas por parte da preletora: “Não sei o porquê de professor reclamar que ganha mal, é a única categoria profissional que tem férias duas vezes por ano, tem finais de semana de dois dias e ainda só trabalha duzentos dias por ano! Professor não tem que ser pago para fazer atividades extra-sala, todo o trabalho pedagógico fora de sala de aula corresponde ao compromisso que se assume dentro dela”.
Sem falar em outro cidadão que, no início do ano, brindou-nos com sua sapiência oriunda de um doutorado em Educação (e graduação em engenharia) bradando categoricamente que a reprovação é inaceitável, é a negação do trabalho do professor, é o mesmo que o docente assinar seu atestado de incompetente. E mais, afirmava ainda veementemente que “as famílias não tem culpa alguma pelo fracasso dos filhos, que os professores têm a obrigação de resolver os problemas da Educação dentro da sala de aula porque culpar os pais ou o governo é querer tirar o corpo fora!”
E nós, professores, somos forçados pela égide da formação continuada a nos sentarmos e ficarmos horas a fio escutando sofistas agredirem nossa honra, nossa auto-estima e ainda fazermos cara de quem está achando toda essa balela maravilhosa, sob pena de sermos tachados por representantes da Secretaria de Educação de arcaicos e reticentes.
No entanto, o cúmulo de toda esta presepada é o fato de facciosamente se esquecerem que professores são profissionais, ou seja, apenas a ponta do iceberg; que por trás do aluno indisciplinado há uma família desestruturada ou, no mínimo, desatenta; que em salas de aula abarrotadas de alunos não se desenvolve uma zona de desenvolvimento proximal sólida e estável; que a falta de material didático atualizado (quando há algum) gera desmotivação no corpo discente; que salários baixos forçam os professores a se sobrecarregarem com jornadas duplas, quando não triplas e, assim, abrir mão do convívio familiar em nome do sustento familiar, o que naturalmente gera stress e desmotivação.
É, como diz o velho ditado, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco! Colocar a culpa no governo para quê? Os investimentos feitos no tempo, na hora e local certos em Educação são altos, demandam vontade política, esforço técnico capacitado e geram poucos dividendos eleitorais. Nas famílias? As que precisam ser contatadas são praticamente invisíveis no ambiente escolar, fogem de tudo o que se refere à vida escolar do filho, desde bilhetes, passando por telefonemas, chegando até a reunião de pais e mestres. Nos chefes em geral? Nem pensar, como diz o ditado “quem pode manda e quem não pode e tem juízo obedece!” Então está resolvido o problema: “a culpa é dos professores, lógico! Quem é que vai sair em defesa dos professores? Todo mundo odeia os professores, são uns chatos que só sabem ‘pegar no pé’ de alunos, pais, chefes, governo, de todo mundo. São uns esquerdistas chorões, botemos a culpa nos professores, afinal eles precisam do salário para viver, vão ter que aceitar o peso do mundo sobre seus ombros e gastar tanto tempo tentando consertar a Educação sozinhos que vão nos deixar em paz” (ao menos é essa a lógica mais clara que consigo perceber no discurso dos burocratas de plantão).
E acreditem se quiser, ainda há quem queira ser professor! Então aproveitem enquanto ainda existem pessoas competentes em sala de aula, pois estamos sendo tão estigmatizados que em breve ninguém com um mínimo de amor próprio estará disposto a seguir esta sina (digo ofício). Quem sabe quando só sobrarem analfabetos funcionais para ensinar aos puramente analfabetos tomem consciência do massacre que cometeram contra a Educação nesse país e resolvam levá-la a sério, em vez de simples escolher um bode expiatório. Sinceramente, espero que quando isso acontecer não seja tarde demais.
*Rogério Tenório de Moura é licenciado em Letras pela UEMS, especialista em Didática Geral e em Psicopedagogia pelas FIC; presidente em exercício do SISEC (Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Cassilândia).

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