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02/11/2019 11:30

Planalto entrega 660 caminhões de areia ao Taquari por dia, diz estudo

Campo Grande News

A transformação pela qual passou o Rio Taquari nas últimas décadas choca por sua profundidade em uma paisagem que, nos anos 1970, era sinônimo de pesca e fartura agropecuária. A calha que permitia a navegação em alguns pontos deu lugar a bancos de areia, sendo possível atravessar o rio com alguns passos e água abaixo dos joelhos. Em outros, a lâmina de água literalmente desapareceu, deixando um caminho que se confunde com estrada. Em parte, resultado do despejo diário de areia que chega a quase 10 mil toneladas por dia –ou mais de 660 caminhões-caçamba.

Os números foram apresentados pelo professor doutor Fábio Veríssimo Gonçalves, vice-coordenador da Pós-graduação em Tecnologias Ambientais e que leciona no curso de Engenharia Ambiental da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), que também indicou a origem e a necessidade de cautela ao lidar com o tema.

No primeiro caso, a extensa região de planalto do Taquari, que chega ao vizinho Mato Grosso e envolve municípios como Camapuã, Paraíso das Águas, Alcinópolis e Chapadão do Sul, encaminha ao rio a areia da parte alta, onde, desde o fim dos anos 1960, a atividade agropecuária ajudou a desbravar um canto intocado do país. E é aí que está o segundo ponto: embora se admita que a ação humana pode ter acelerado o processo de degradação, reconhece-se também ser um fenômeno natural que já ocorreu no passado.

Transformação – Gonçalves explica que a grande área de planalto do Taquari tem em altitudes que vão de 400 a 1.000 metros. De lá, os afluentes buscam o curso d’água que está de 200 metros de altitude ao nível do mar, carregando em suas águas sedimentos.

“É um grande declive empurrando sedimentos para dentro. Mas quando se chega na planície, é como uma mesa. Em declividades, a força do rio escava seu leito. Na baixa declividade, caso do Taquari, fica frágil onde escavou. Por isso o rio ‘caminha’ tanto neste local, hora para cima, hora para baixo”, comentou.

Carlos Padovani, pesquisador da Embrapa Pantanal, reforça a explicação. “Rios de planície são móveis, formam meandros, novos canais. Foi o que aconteceu com o Taquari e que já foi descrito e reescrito”, destacou ele, responsável por vários dos trabalhos que detalham as mudanças no rio que, considera, está em sua fase final de migração para o Paiaguás: no trecho conhecido como arrombado do Caronal, o leito antigo do Taquari se “desconectou” e tomou um novo caminho em direção ao Rio Paraguai.

“Com tão poucas vazões de água para a Nhecolândia (mais ao sul), favoreceu-se a seca. Talvez com a chuva do próximo verão volte a se conectar, como isso também pode não acontecer”, prosseguiu. O Caronal é um dos vários arrombados –aberturas por onde o rio adentra, que podem surgir naturalmente ou, como foi comum há 70 anos, com a ocupação da região, por ação de pecuaristas. “O rio rompe ali e esse pedaço se transforma em um novo mar, o Paiaguás do Xarayés”, destacou Fábio Veríssimo Gonçalves.

Repetição – Padovani afirma que estudos apontam que os sedimentos foram depositados em região de planície há milhares de ano. A formação geológica do rio fez com que ele corresse acima da planície. “Ele é um rio instável pelo fato de estar em posição mais alta”. Isso facilita sua fuga das margens.

Gonçalves reitera que contagens sobre sedimentos referentes a 2017 apontavam que o Rio Coxim, que desce da região de Camapuã, transportava cerca de 6 mil toneladas de sedimentos por dia até desembocar no Taquari, que por sua vez já recebia 3,8 mil toneladas no mesmo intervalo vindos dos afluentes ao norte. “São dez mil toneladas ao dia na melhor das hipóteses, isso pode ser maior. Com cada caminhão transportando 15 toneladas de areia, seriam 666 caminhões por dia”, salientou.

Carlos Padovani salienta que o processo geológico tem a ver com a formação do Pantanal, mais baixo que outras regiões –um desnível preenchido por milênios que contou com as chuvas no planalto, que arrancaram dali solos arenosos e suscetíveis à erosão. Há camadas de sedimentos localizadas a até 400 metros da superfície.

O especialista da Embrapa Pantanal, porém, lembra que o planalto acabou ocupado pelo homem décadas atrás. E também adverte que, naquele momento, “não havia leis ambientais e tinham pouco trabalho quanto a extensão rural para conservação do solo. Por isso, nesse sentido, não houve um ‘desastre’ no Pantanal, mas sim no planalto”, resultante de uma ocupação desordenada para implantação de lavouras e pastagens que, com a retirada da proteção vegetal, pode ter acelerado o processo de assoreamento e retirado a capacidade de o solo se “segurar”.

“Como esse processo acontece naturalmente, ele já ocorria antes de o homem chegar lá, antes mesmo de os índios chegarem. Ele independe da presença ou não do homem. O que acreditamos é que é um processo que deve ter sido acelerado”, pontuou Padovani. Gonçalves concorda. “Uma hora ou outra isso ia acontecer. Poderia se dizer que, em vez de em 50 anos, aconteceria em 150, mas ocorreria de um jeito ou de outro”, afirmou.

“Não adianta pensar que, se fosse tudo mata, não aconteceria. Até porque, no meio disso tudo, há também o fator humano”, considerou o professor. “Com o passar dos anos e o aumento das pesquisas e do conhecimento, o produtor foi percebendo que perder terra era ruim para ele. O bom produtor se modernizou e começou a cuidar da terra, a usar técnicas como o plantio direto”, prosseguiu.

Espraiamento – O acúmulo de areia teve dois resultados. De um lado, o rio mingou, se desconectou e sumiu do leito original, deixando um rastro de terra. Do outro, espalhou-se pelos arrombados –formações naturais ou construídas que direcionam as águas do Taquari. “Existem arrombados feitos pelo homem há mais de 60 anos, que queriam acesso fácil às águas para os animais e foram feitos quando não havia leis ambientais. E, nessa época, havia menos produção de sedimento no planalto”, destacou Gonçalves.

O arrombado do Caronal –um dos pontos de partida para se chegar ao Payaguás do Xarayés– começou a ser formado em um momento no qual o Taquari ainda tinha força para escavar a areia e tinha poucos sedimentos. A partir da década de 1970, reiterou o professor da UFMS, o processo foi se acelerando. “À medida que vai acumulando sedimento, vai se elevando o leito do rio, que extravasa para os lados e aparecem os arrombados naturais”, explicou Fábio Veríssimo Gonçalves.

“Enquanto o rio propriamente dito tem sedimentos a todo o momento”, prosseguiu ele, o Caronal não tem o problema. Ao contrário: a vegetação serve como uma espécie de filtro, deixando as águas cristalinas e desencadeando mudanças na flora e fauna. Tanto ele como Padovani reiteram, porém, que a mudança no leito do Taquari já ocorreu no passado: córregos, canais e riachos como o Santa Cecília e Santa Natália são, na verdade, possíveis antigos leitos ou braços do Taquari.

“O processo de o Taquari migrar, trocar de canal, abrir novos caminhos, não é coisa nova. Ele sempre fez isso e continuará fazendo. Agora ele segue para o (Pantanal do) Paiaguás, está em uma nova fase. Tem outros arrombados acima do Caronal, menores, que estão suprimindo”, pontuou Carlos Padovani, que em 1995 já realizara trabalhos apontando as mudanças que, hoje, acontecem no Payaguás do Xarayés –que, naquele momento, atingiam a região do arrombado Zé da Costa, onde o rio se desconectou: em vez de seguir o curso natural, fluiu em direção ao Rio Negrinho. Naquela época, 30% da água ainda seguia pelo leito conhecido, e 70% para o novo caminho, no Paraguai-Mirim.

“As margens do Taquari são muito heterogêneas. O rio já migrou para todos os lados: Paiaguás, Nhecolândia. Ele acaba cruzando vários outros canais por onde já correu, ora altos, ora baixos”, ponderou Padovani. “O rio extravasou e não dá para concluir que ficará estável ali. O rio é dinâmico”. E, com áreas alagadas por décadas, acabam se processando as mudanças no meio ambiente, nesse “processo de sucessão”.

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