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14/06/2005 12:37

Pesquisa afirma que existe excesso de cesarianas

Agência Notisa

Apesar das inúmeras campanhas que defendem hoje a escolha pelo parto normal, pode-se perceber no mundo todo, durante as últimas décadas, uma forte incidência de cesarianas, como afirma artigo publicado pela Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia de novembro/dezembro de 2004. No Brasil, no ano de 1997, foi registrado, dentre todos os partos realizados, o recorde de 36,4% de cesáreas – lembrando que o índice tolerado pela Organização Mundial de Saúde, a OMS, é de no máximo 15%. Com o objetivo de entender a escolha e descobrir o que é levado em consideração pelas gestantes na hora de optar por uma via de parto, o pesquisador Ricardo Porto Tedesco e sua equipe realizaram um estudo qualitativo nos pronto-socorros que são atendidos pela Faculdade de Medicina de Jundiaí.

A pesquisa entrevistou 40 mulheres na primeira gestação (primigestas) com idade entre 16 e 30 anos, as quais estavam recebendo assistência pré-natal. O estudo – que contou com um questionário sobre as características demográficas, outro específico com dados da gestação e ainda uma terceira parte na qual eram transcritas falas das participantes – mostrou, entretanto, que 90% das mulheres preferiam o parto normal. “É mais saudável para mim e para o bebê” foi uma das frases que mais se ouviu das pacientes que defendiam essa via de parto.

Olhando para os resultados da pesquisa apenas por esse aspecto, ainda não fica claro o que tem motivado a realização de tantas cesarianas no Brasil e no mundo todo. Segundo os pesquisadores, “essas altas taxas existem por indicações como: preferência da mulher, escolha do profissional e como método de esterilização definitiva”. Eles explicam que o fato de a mulher hoje ter uma vida profissional ativa contribui para a escolha da cesárea, já que é possível determinar o dia e a hora em que o bebê nascerá. Além do mais, a cirurgia já é uma oportunidade para a paciente fazer a laqueadura (ligação das trompas). Outro motivo apresentado e muito preocupante é a questão da escolha ser do profissional e não da mãe. Como afirma o artigo, o que ocorre muitas vezes é que “a gestante não participa dessa discussão (quanto à escolha da via de parto), sendo, quando muito, informada sobre a decisão médica final”. Os autores ainda acrescentam que “em quase 60% dos casos a razão ‘médica’ apresentada não justificava a conduta adotada ou era no mínimo duvidosa”.

Esse assunto é de grande importância quando observamos dados como este: segundo a pesquisa, “28,5% das mortes maternas não ocorreriam se as taxas de cesáreas fossem reduzidas”. Para os autores é possível dividir em quatro grupos as cesarianas realizadas hoje, são eles: plenamente justificadas, de justificação duvidosa, mal justificadas e absolutamente não justificadas. O primeiro é caracterizado por aquelas cirurgias que pretendem preservar a saúde e proteger a vida da mãe e/ou do feto, e corresponde a apenas 13% do total de cesáreas realizadas. Em contrapartida, em 29% dos casos a escolha por essa via foi abertamente não médica, ou seja, por comodidade e conveniência da mãe e/ou do profissional.

Para os pesquisadores, a informação ainda é o melhor caminho para reverter esse quadro, Segundo Ricardo e sua equipe, “esses resultados nos mostram um enorme contraste entre a preferência das mulheres e os altos índices de cesárea no Brasil, a ponto de acreditarmos que a cesárea pode ser considerada uma epidemia desnecessária”. É preciso então, primeiramente, que a maior interessada, a futura mãe, tenha conhecimento suficiente para fazer sua escolha, consciente dos riscos e das vantagens que cada via de parto oferecem. Em segundo lugar, como lembram os pesquisadores, “do ponto de vista ético, cabe ao médico questionar cada indicação para a realização de uma cesárea”.


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