Cassilândia, Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

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05/10/2007 08:20

O recado do Cheida: Por sobre o verde turvo do amplo rio

Luiz Eduardo Cheida*

- Nossa, meu bem, como você é gorda!

- E como você é feia! Posso emagrecer, mas e você? Vai nascer de novo?



Era agosto e esse rápido e ríspido diálogo aéreo, ocorrido sob os céus da Amazônia, entre uma pata que migrava do hemisfério norte e uma andorinha, que chegava do hemisfério sul, me chamou a atenção. Não pelo diálogo, já que depois de Esopo abrir o bico dos bichos em suas fábulas, esta mania nunca mais teve fim, mas pela acidez do colóquio entre animais que sempre fizeram questão de manter a paz e a concórdia em terra, no mar e no ar. De modo que tal animosidade me colocou a pensar.



O que estaria havendo entre as aves migratórias? Por que o nervosismo?



Estas aves migram, fugindo do frio rigoroso. Algumas espécies voam até 16 mil quilômetros sem parar. Para tanta energia, engordam até dez vezes o peso original.



- Nossa, meu bem, como você é gorda! – escutei, novamente, a voz de taquara rachada daquele sucinto diálogo celestial.



Migram porque buscam temperaturas mais amenas e mais alimento.

Nossa Amazônia, por estar próxima da linha do Equador, é ideal para passarem seu inverno, comer e reproduzir-se. Há dezenas de outras rotas que levam e trazem centenas de espécies, com milhões de indivíduos, de um lado para outro, em nosso país.

Tanto esforço é só para buscarem um clima favorável.



- Uai, sô! – telefona Joãozim, meu amigo mineiro – num é esse clima que tá de mudança?

- É.

- Onde era seco pode ficar molhado e onde era molhado pode ficar seco?

- Pode.

- E, se estas coisa mudá, as estradas das aves também não muda?

- Muda.

- Vaivê que é por isso que elas tá tão nervosa.



Não havia pensado nisso. O aquecimento global pode virar de ponta cabeça as seculares rotas migratórias. Quem vinha, agora vai. Quem ia, agora vem.



As aves migratórias são reservatórios naturais de vírus de importantes enfermidades. Tem o vírus da influenza, Newcastle, Febre do Nilo Ocidental e milhares de outras. Alterações de rota ensejam riscos de transportes destes microrganismos para regiões não infectadas, disseminando doenças. As rotas têm imensa importância epidemiológica!

O Brasil ainda está imune a algumas delas. Mesmo assim, pensei:



- A gripe aviária, causada pelo vírus pop star H5N1, já isolado em 58 países diferentes e que, desde ano passado matou 150 milhões de aves (e 134 humanos) deixa-as febris, em seguida irritadas, depois, deprimidas e, por último, mortas.



- Posso emagrecer, mas e você? Vai nascer de novo? – ouvi outra vez.



Resolvi juntar as duas coisas. Mudanças climáticas, modificando rotas seculares e microrganismos alterando o secular bom-humor das penosas. Uma combinação explosiva.



É preciso agir rápido. Em duas frentes. Uma, capacitando localmente profissionais (veterinários, biólogos, médicos, enfermeiros). Outra, priorizando a questão ambiental (recompondo ecossistemas, impedindo a destruição de habitats, encetando ações que reestabilizem o clima).

Ou isso ou os agônicos versos de Fernando Pessoa:



Por sobre o verde turvo do amplo rio

Os circunflexos brancos das gaivotas...

Por sobre a alma o adejar inútil

Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.



Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.



Um forte abraço e até sexta que vem.




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*Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia e Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Paraná. Foi prefeito de Londrina, Secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.

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