Cassilândia, Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

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25/05/2007 15:46

O recado do Cheida - O sequestro

Luiz Eduardo Cheida *

A notícia do seqüestro correu.

De boca em boca, na cidadezinha não se falava em outra coisa. Na velha delegacia, de janelas e portas sempre abertas, como uma verdadeira correição de formigas, o entra e sai de gente, selava o agigantamento da preocupação popular.

Nunca, em tempo algum, de modo algum, algum ou alguém por ali seqüestrara ou fora seqüestrado.

Por isso, desde as primeiras horas da manhã, a situação era a mais anormal possível na pequena, minúscula, ínfima, quase invisível Nossa Senhora do Pau de Sebo.

Era mãe enfiando filho embaixo da cama, marido pinguço escondendo-se por detrás do balcão do bar, cachorro ganindo com o traseiro rebaixado e o rabo enfiado no meio das pernas, andorinha se espremendo prá entrar por debaixo das telhas das casas, gato sumido, cavalo fingindo dormir em pé, aulas suspensas, missa adiada, comércio fechado, fuxico, mexerico, cochicho e toda a arapongagem possível à solta no município.

Nestas horas de calamidade instalada, pouco importa saber de onde veio e quem é que trouxe a notícia. Importa tão somente lembrar que seqüestro é acontecimento de cidade grande.

- Só com mais de mil habitantes! – confirma o delegado, trêmulo.

Não é o caso da pequena NSPS.

Ali, berço da paz e da concórdia, onde o tempo escorre ao invés de passar, onde o calor do sol das doze põe a cidade em estado de coma, só desperta pelo galo das quinze, não é lugar de seqüestro...

E se isso aconteceu, mesmo sob a proteção de Nossa Senhora do Pau de Sebo, padroeira da cidade, é porque a coisa é mais grave do que se imagina. Sob esta última constatação, o padre fechou a casa paroquial, o prefeito destravou a garrucha, o coveiro selou os portões do cemitério, o serviço de alto-falante da praça silenciou, reuniram-se os nobres pares da colenda casa municipal de leis e, sob cânticos sacros do coral das damas enviuvadas, a cidade preparou-se para o pior.

O tempo, que por ali já vivia dependurado nas janelas insistindo em não andar, agora é que parecia ter parado de vez. Mas, empurrado pela ansiedade geral, acabou passando.

À noitinha, depois de muito arrepio e contra-arrepio na espinha, a cidade embebedada em baldes de chá de camomila, cheirando a incenso e água-benta, a poeira levantada na ponta da rua trouxe no lombo de três burros Geraldino Souza Neves e os dois professores afamados que com ele saíram nas primeiras horas da madrugada.



Ao vê-lo, a mulher de Geraldino, e mãe de seus doze filhos criados, largou o terço e as comadres e, em prantos, correu para ele:

- Marido, você está vivo!

Geraldino empalideceu e estacou. Também a mula, sem empalidecer.

- Tá doida outra vez? É claro que estou vivo! – trovejou com um vozeirão tamanho que tirou a cidade do transe.

Um a um, e não eram tantos, a cidade se juntou em volta dos únicos três que não sabiam do acontecido.

- Pensamos que estes dois ali – disse o delegado, apontando para os professores afamados – tinham seqüestrado o senhor.

- Eu mesmo escutei os dois cochichando de seqüestro, quando saíam da pensão – falou o pau-d´água mais conhecido de NSPS.

A explicação veio mais rápida que coice de mula:

- Seu delegado, saímos de madrugada para estudar a propriedade do seu Geraldino. Ele quer plantar árvores para seqüestrar carbono. É seqüestro de carbono, doutor!

Embora a maioria do povo de NSPS tivesse ficado na mesma, o largo sorriso que brotou da boca de Geraldino, foi o suficiente para amolecer a cintura de todos e fazer todo mundo voltar para casa.



Fora o fato de que toda essa estória é absolutamente verdadeira, tudo o mais é mentira.



Fazer o povo entender o que se passa é o primeiro passo para contar com ele. Seja nos seqüestros de gente, seja nos seqüestros de gases.



Dia 5 de junho é Dia Mundial do Meio Ambiente. Plante uma árvore e cuide dela. E nunca deixe que a seqüestrem de você.

Um forte abraço e até sexta que vem.

Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia da Assembléia Legislativa do Paraná. Foi prefeito de Londrina, secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos

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