Cassilândia, Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017

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11/04/2008 09:18

O recado do Cheida: O primo

Luiz Eduardo Cheida

Desde há muito, a velha e saudável prática de criação de galinhas se transformou em criação industrial de galinhas. Esta indústria abate, só nos Estados Unidos, 5,3 bilhões de aves por ano. Uma galinha, que viveria em média 7 anos, vive 7 semanas dentro de uma verdadeira linha de montagem. É difícil crer em sua vida miserável e de maus-tratos, que vai do nascimento à morte no abatedouro. Claro que, às vezes, os criadores tentam evitar parte do seu sofrimento pois nestas condições os animais perdem peso. Além disso, carcaça machucada tem preço menor.

Para transformar galinhas de terreiro em itens manufaturados, foi preciso confiná-las em compridos e comprimidos galinheiros fechados, sem janelas, ração controlada e luz ajustada. Luz bem clara, 24 horas por dia, na primeira e segunda semanas, para estimular o frango a ganhar peso rapidamente. Então, as luzes são diminuídas, passando a ser ligadas e desligadas a cada duas horas para que, após breve período de sono, ele sinta vontade de comer. Por fim, na sexta semana, quando tiver crescido tanto que fique comprimido, no pequenino espaço de 450 centímetros quadrados (menor que uma folha de papel ofício) as luzes ficam bem fraquinhas, com a finalidade de diminuir a agressividade causada pela superlotação. Afinal, além de apertadas, as aves nunca vêem a luz do sol e passam a curta existência respirando o pesado ar do amoníaco de seus próprios excrementos.

Por isso, quando a Europa resolveu que cada galinha poedeira seria aquinhoada com 2 metros quadrados de espaço, a festa tomou conta do galinheiro. Mas, a euforia pela conquista do espaço durou pouco. Logo, os planejadores refizeram suas contas:

- Ficamos com menos galinhas por metro quadrado.

- Então, quem quiser mais galinha, vai ter que comprar mais terreno.

- Ou aumentamos o preço da carne e do ovo ou colocamos mais galinhas no espaço que temos!

A solução, mais curta e rápida que coice de porco, foi empilhar as gaiolas.

Assim, a exemplo do que já fazemos conosco mesmos, os planejadores humanos resolveram montar prédios de aves.

E o aborrecido galinheiro passou a ser uma só expectativa.

- ¿Un edificio para nosotros? –admirava-se um frangote argentino.

Havia galinhas eufóricas:

- Trinta e nove andares de gaiolas? Nunca subi tão alto!

Outras, arrogantes:

- Não me preocupo, sempre ocupei os poleiros mais inacessíveis!

Da França, chegaram mensagens:

- Parabéns, irmãos! Jamé um frango chegou mais alto que le Torre Eiffel.

E assim corriam os dias, enquanto os empilhadores de gaiolas trabalhavam numa sofreguidão alucinante. Finalmente a tarefa terminou. Uma belezura! Um arranha-céus feito no arame trançado e no recheio de galináceos.

Uma noite, porém, após intenso alvoroço e sob nuvens de penas, as galinhas sumiram. Sobraram alguns frangos aleijões para contar a história. Dizem que as coisas ocorreram assim:

Mariquito, o frangote portenho de conversa macia, jogou na concha da orelha das outras galinhas que um primo seu, instalado no alto da trigésima nona gaiola, inconformado com o destino de todo frango de abate, abatido, resolveu abater-se, pulando de lá de cima.

- Mas, de tão alto, Mariquito? – pergunta uma franguinha faceira.

- Era un hombre valiente – Mariquito estufa o pescoço.

- E o que aconteceu?

- Se morió! – responde ele, cabisbaixo.

- Morreu? – cacarejam todos.

- Como pode ter morrido na queda se frango têm asa?

- La gayola estaba mucho alta – diz Mariquito em voz de suspense.

- Então, morreu de quê? – perguntam.

- Mucho alta... – ele balbucia em transe.

- De quê? – suplica a sensível franguinha.

- Alta...

- Por Deus, de que morreu seu primo?

- Alta... tão alta que o primo morreu de fome no caminho!

Contam que o bando quis linchá-lo ali mesmo. Ele escapou e o povo foi atrás, tombando gaiola, trombando entre si.

Ainda a caminho da Argentina, Mariquito envia uno abrazo. E se defende, com a ponta da asa sobre o peito:
- Primo, eu?

Um forte abraço e até sexta que vem.


Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia da Assembléia Legislativa do Paraná. Premiado pela ONU por seus projetos ambientais, foi prefeito de Londrina, secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.

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