Cassilândia, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

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19/05/2007 08:47

O recado do Cheida - O canto do galo

*Luis Eduardo Cheida

A CTNBio aprovou esta semana o plantio e a comercialização do milho transgênio Liberty LinK, da Bayer. Assim como já aprovara o algodão e o soja transgênicos.

Na penumbra. E, sem mais trocadilhos, uma pena.

O Brasil, com o auxílio daqueles que, por ignorância ou conivência, o permitem vai, pouco a pouco, assimilando o lixo do mercado internacional.

E, nesta surda e suja guerra comercial travestida de profundos e sacros colóquios científicos, ficando sem as suas sementes, patrimônio nacional obtido em centenas de anos de suor e seleção.

O próximo passo é a aprovação do milho BT, resistente a insetos. O mesmo que expulsou a borboleta monarca do seu local de moradia, infringindo perdas ainda não calculadas às teias alimentares de seus seculares habitats.

Outras dez variedade de arroz, algodão e milho, aguardam sua vez para aprovação. Para todas, as mesmas justificativas: a redução de agrotóxicos e a conseqüente redução da poluição.

Que estranho – ouso pensar: justamente uma multinacional do agrotóxico empunhando a bandeira da redução de seu principal produto. A maior multinacional de agrotóxico quer reduzir o agrotóxico!

- Como o mundo está mudado, meu deuso do céu! – suspiro, olhando pra riba.

Alguém me condena:

- ´Xá de sê maldoso... Não vê que os home querem o nosso bem?

- Verdade. Até, por coincidência, a semente do milho da Bayer não morre com o glufosinato de amônia, o agrotóxico que também é só da Bayer. – lembro assim, de relance.

- O milho certo para o veneno certo – alguém expira, inspirado.

- E as herva daninha? – meu primo pára pra perguntar.

- Quéquitem elas?

- Ouvi falar que o veneno vai selecionando as mais resistentes e, depois de cinco a seis safras, a dose do remédio tem que aumentar.

- E a Bayer vai vender mais semente e mais veneno, é?

- É.

- Bem, mas aí já é culpa das herva, né cumpadi?

Falando tanto em milho, não posso deixar de lado o poema do patrício baiano, Junqueira Freire, morto na flor de seus 23 aninhos que, nos idos de 1850, já matava a charada:

(...)

Quando eu passar pelo cercado ao longe

abaixarás humilde o bico e a vista:

que eu sou o rei das mais gentis galinhas,

que eu sei erguer a minha régia crista


Há de seguir-te em toda a parte o espectro

de minha nobre e célebre conquista:

será manhã, - não cantarás teu hino,

nem jamais erguerás a régia crista.

Hás de sentir que eu fui valente antagonista:

- eu cantarei meu hino de triunfo,

tu correrás de minha nobre vista:

- tu, infamado, marcharás humilde,

eu erguerei a minha régia crista!

Corroer aos poucos o patrimônio biológico de um país, sob o pretexto de ajudá-lo, tendo vendidos e comprados compatriotas irmanados nesta causa, é o mesmo que trair a história da nação. Depois disso, só restará ao vencido abaixar humilde o bico e a vista, deixando que o comprador ande em solo pátrio erguendo a sua régia crista.

O poema se chama O canto do galo.

Três coisas delgadas sustentam o mundo, segundo os irlandeses: o delgado fio de leite que vai da vaca ao balde; a lâmina delgada do cereal verde que vem do chão; a fina linha de coser nas mãos da mulher experiente.

A Bayer parece saber disso melhor que ninguém.

Alguns de nossos patrícios também.

Um forte abraço e até sexta que vem.


*Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia da Assembléia Legislativa do Paraná. Foi prefeito de Londrina, secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.

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