Cassilândia, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

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17/08/2007 18:08

O recado do Cheida: muxoxo letal

Luiz Eduardo Cheida*

Um espectro ronda nossos céus: debochando do perigo, alguns pais negam aos filhos a vacinação contra a paralisia infantil. Este Recado é para eles.


No fim do século XIX, quando as cidades começaram a instalar sistemas sanitários, com água e esgoto, as epidemias de diarréia quase sumiram. A febre tifóide, a cólera, a amebíase e outros possantes males foram contidos.



Os microrganismos eliminados nas fezes, por não chegarem mais à água e aos alimentos, não punham as pessoas doentes.



Contudo, essas medidas fizeram com que também um agente infeccioso deixasse de entrar em contato com as pessoas: o vírus da poliomielite.

Este vírus, existente na natureza, sempre infectou crianças por ingestão. Mais de 90% das infecções, porém, passava despercebida. Os casos de paralisia permaneciam constantes. Raramente surgiam epidemias.



Entretanto, a melhora do sistema sanitário fez crescer nas cidades crianças que, por terem o mínimo contato com água e produtos contaminados, não desenvolviam imunidade ao vírus. Então, um enorme contingente delas, suscetíveis ao vírus, começou a formar-se. Agora, se o vírus atingisse uma criança, esta poderia transmití-lo a todas as crianças sensíveis.

Um barril de pólvora!

A conseqüência foi o surgimento de grandes epidemias de poliomielite.



Coincidindo com a implantação do sistema de saneamento, a primeira grande epidemia aconteceu em Estocolmo, em 1887. Sete anos depois, em Vermont, Estados Unidos. Lá, em 1916, mais de 30 mil crianças também sucumbiram; após a Segunda Guerra, 20 mil delas a cada ano; em 1952, 60 mil e em 1953, 40 mil.



Quando tudo parecia perdido, surgiu a vacina Salk, pondo um fim a estes surtos macabros. Em seguida, a vacina Sabin aperfeiçoou a imunização. Hoje, o planeta sonha erradicar completamente o vírus da poliomielite.



Ao construir sistemas sanitários, jogar cloro na água e outras técnicas, avariamos os mecanismos de seleção natural. Impomos nossa vontade sobre o mundo natural. Como tudo tem um preço, além de selecionar bactérias, cada vez mais agressivas, seleciona-se humanos que sobrevivem mesmo sem resistência a agentes infecciosos.

Por incrível que pareça, sem medidas sanitárias, adoecemos; com medidas sanitárias, apenas, adoecemos mais. A ciência chega em socorro, trazendo a vacina. E a vacinação estabelece um equilíbrio.



A cobertura vacinal contra a poliomielite se dá em junho e agosto.

Mas olha o que tem acontecido nos últimos sete anos, no estado do Paraná, onde o último caso da doença ocorreu em 1987.



ANO
JUNHO
AGOSTO

2001
99%
101,4%

2002
99,7%
100%

2003
97,8%
96,7%

2004
96,9%
94,9%

2005
95,5%
96,5%

2006
92,8%
91,9%

2007
91,8%
em andamento







Como ninguém é levado à força para vacinar o filho, e as campanhas continuam bradando que é preciso vacinar, suponho que alguns pais estejam negligenciando esse direito a seus filhos.



Só que o problema deixa de ser familiar quando, como já ocorreu, uma criança não-vacinada contaminar crianças sensíveis como ela.

O último caso brasileiro de paralisia infantil ocorreu na Paraíba, em 1989.

Já temos problemas demais para virar as costas a uma coisa tão séria.



Albert Sabin renunciou a seus direitos de patente sobre a vacina. Até como gratidão merece bem mais que um muxoxo dos levianos que não querem vacinar. O muxoxo, às vezes, é inofensivo. Outras vezes, pode ser letal.

Um forte abraço e até sexta que vem.




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*Luiz Eduardo Cheida é médico, deputado estadual e presidente da Comissão de Ecologia e Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Paraná. Foi prefeito de Londrina, Secretário de Estado do Meio Ambiente, membro titular do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e do Conselho Nacional de Recursos Hídricos.

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