Cassilândia, Quarta-feira, 01 de Março de 2017

Últimas Notícias

27/01/2007 07:45

O recado do Cheida - A geladeira da onça

*Luis Eduardo Cheida

Esta semana, na estrada que corta o Parque Estadual Mata do Godoy, no norte do Paraná, um carro veloz atropelou e deu fim a uma linda suçuarana, que se atrapalhou por entre as fortes luzes dos faróis, o gutural ronco do motor, o indecifrável chiado dos pneus, e o vigor fatal das ferragens.

Desde há muito não se supunha onça-parda por estas bandas. Mas, pelo menos esta, ainda existia.

Não existe mais.

O motorista seguiu caminho, lamentando o prejuízo com a lataria avariada.

E qual é o prejuízo quando nossas raras matas perde mais um puma?

Este grande carnívoro brasileiro, chamado aqui de suçuarana; logo ali, de onça-parda; mais aquém, de puma; mais além, de leão-baio; acolá, de leãozinho-da-cara-suja; ali adiante de onça-vermelha e, lá longe, de bodeira, além de outros, come porco-do-mato, veado, quati, paca e capivara.

Estes animais alimentam-se de sementes e plantas ainda pequenas (plântulas).

Quem controla a população destes comedores de sementes e plântulas são os carnívoros, como a suçuarana. De modo que, em florestas onde ela existe, os herbívoros não explodem em número. E as plantas tem chances de crescer.

Entretanto, quando a suçuarana morre, por ausência do predador, a população destes animais cresce tanto, e tão sem controle, que o resultado é a devastação.

Quando o grande carnívoro declina, declinam com ele incontáveis vegetais.

Carnívoros são essenciais para que florestas sejam ricas em diversidade.

Floresta sem grandes carnívoros é floresta pobre. Definha e acaba.

Por isso, cada onça morta é um duro golpe em qualquer floresta.

Compadecer-se por cada ser vivo morto, de maneira tão idiota, faz parte da alma gentil dos humanos que ainda sentem. Isso é bom e não pode acabar. Entender que, para o equilíbrio de todos, a diversidade do seres vivos precisa continuar, é dar um passo à frente, indo além da emoção.

Há menos de 50 anos, seu Manoel de Oliveira sacolejava no lombo da mula, por entre as perobas centenárias desta mesma Mata dos Godoy.

Descida íngreme, e a mulinha resfolegava. Tão íngreme que, a passo miúdo, a espertinha punha os cascos de trás, em cima dos cascos da frente. Com precisão geométrica.

Lá, bem dentro da mata, no cotovelo da banguela, próximo a um riacho preguiçoso, o ar gelado começava a se enfiar pelo furo da botina do viajante e subia até a garganta. O corpo respondia de volta, num contragolpe de arrepio, que começava no pomo de Adão e só parava no dedo do furo por onde entrava o vapor.

Era ali, a geladeira da onça.

Local de onça beber água. De todas as cores: pardas, pintadas, melânicas.

Voltar, impossível. Continuar, a única alternativa.

No povoado, corriam histórias sobre a geladeira. Até as mulas tinham ciência das onças cuja profissão era pregar susto nos passantes.

As mulas deviam mesmo saber porque, naquele dia, a mulinha do seu Manoel, ao botar as patas no riacho e levar uma ferroada de marimbondo-cavalo nos fundilhos, imaginando a onça de seus pesadelos fincada nas ancas, desrespeitou a geometria dos passos e, sem treino, sem aviso, e sem consentimento, de um pulo só, varou as águas, levando no peito dois ipês e uma desprevenida aroeira na outra margem.

Sumiu.

Seu Manoel de Oliveira chegou ao destino, a pé, uma noite e dois dias depois.

Zangado, nem cumprimentou a mulinha medrosa, que pastava de rédeas soltas no piquete da fazenda.

E foi direto consertar o furo da botina.

Era assim, naqueles tempos, a pirraça dos pioneiros do norte do Paraná.


Hoje, a geladeira da onça é só uma curva asfaltada, um riacho que ninguém vê, e uma placa: cuidado com os animais.

É preciso muito cuidado, mesmo. Hoje em dia, tem muito animal no volante.

Pena que os bichos não saibam ler.



Enquanto eles não aprendem, vá devagar, um forte abraço e até sexta que vem.



--------------------------------------------------------------------------------
Luiz Eduardo Cheida é médico e deputado estadual eleito no Paraná. Foi Prefeito de Londrina (1992 – 1996), Secretário de Meio Ambiente do Paraná e Membro titular do CONAMA (2003 – 2006).

Envie seu Comentário
Os comentários feitos no Cassilândia News são moderados. Antes de escrever, observe as regras e seja criterioso ao expressar sua opinião. Não serão publicados comentários nas seguintes situações:

1. Sem o remetente identificado com nome, sobrenome e e-mail válido. Codinomes não serão aceitos.
2. Que não tenham relação clara com o conteúdo noticiado.
3. Que tenham teor calunioso, difamatório, injurioso, racista, de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade.
4. Que tenham conteúdo que possa ser interpretado como de caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas.
5. Que contenham linguagem grosseira, obscena e/ou pornográfica.
6. Que transpareçam cunho comercial ou ainda que sejam pertencentes a correntes de qualquer espécie.
7. Que tenham característica de prática de spam.

O Cassilândia News não se responsabiliza pelos comentários dos internautas e se reserva o direito de, a qualquer tempo, e a seu exclusivo critério, retirar qualquer comentário que possa ser considerado contrário às regras definidas acima.
Restamcaracteres.
 
Últimas notícias
Scroller Top
Quarta, 01 de Março de 2017
Terça, 28 de Fevereiro de 2017
Segunda, 27 de Fevereiro de 2017
Domingo, 26 de Fevereiro de 2017
10:00
Receita do dia
Scroller Bottom

  • Idalus Internet Solutions
  • TOP DataCenter e Internet
  • Disponível na AppStore
  • Disponível no Google Play
Rua Sebastião Leal, 845, CEP: 79.540-000, Cassilândia (MS)