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08/09/2014 08:00

O presente, o futuro e a velhice, sob o ponto de vista de quatro homossexuais

Elverson Cardoso, Campo Grande News

 

O ditado popular prega que é melhor andar só do que mal acompanhado. Andar só tem lá suas vantagens, mas o ser humano, diz outra citação do gênero, não nasceu para andar só. Alguns discordam dessa constatação, que vai na contramão de qualquer senso libertário. Outros concordam que a vida não tem graça sozinho, ainda mais quando se está sozinho e na terceira idade.

Hoje, o Lado B fala de planos, discute o presente, o futuro e a velhice, sob o ponto de vista de quatro homossexuais: dois jovens, um “coroa” e um idoso. O auxiliar administrativo Fernando de Oliveira Souza é um desses que pensa que a vida é para ser vivida, mas a dois.

Ele tem apenas 19 anos, está no auge da juventude e, ao contrário da maioria, preferiu trocar a curtição por um uma união estável com um homem 28 anos mais velho que ele, o contador Carlos Alberto Pereira de Souza, 47.

Ao lado de Carlos, que manteve um casamento heterossexual durante 17 anos, Fernando se mostra tímido, mas faz planos que agradam a ele e ao companheiro. “Me vejo com meu parceiro, tranquilo e com filhos quem sabe”, diz, sobre os anos que ainda não chegaram. “Sou muito feliz. Espero estar ao lado dele a vida toda”, completa o contador.

O presente está ótimo, a mil maravilhas, dizem, mas, para planejar o futuro, eles tiveram de fazer escolhas. Fernando deixou de lado a “ferveção”. Nunca foi de “ficar” mesmo. Carlos preferiu investir em um romance, do que em momentos. Os dois se encontraram, “deram sorte”, como dizem. Em tempos de “pegação desenfreada”, o casal é quase uma exceção à regra.

A vida do homossexual, na visão de Carlos e Fernando, tem momentos específicos que, claro, não se aplicam a todos. Mas, na maioria das situações, os jovens, explica o auxiliar administrativo, são mais dados aos prazeres momentâneos e se esquecem que vão envelhecer.

O Visual Merchandising Jean Nunes Costa, de 25 anos, concorda e acrescenta: “No mundo homossexual eu vejo que se você não conseguir construir um relacionamento vai viver, no futuro, solitário”.

Jean afirma que o gay, na juventude, prefere curtir do que viver um relacionamento sério. (Foto: Marcelo Victor)
Jean afirma que o gay, na juventude, prefere curtir do que viver um relacionamento sério. (Foto: Marcelo Victor)
Jean ressalva que isso não é uma exclusividade de gays, porque os héteros também estão sujeitos, mas tem certeza que a frustração é mais comum entre os homossexuais. A maioria foge de relacionamentos sérios. O ideal, ensina, é construir, desde já, uma base para o futuro.

O problema é que muitos só se dão conta das escolhas erradas quando sentem o peso da idade e a indiferença no olhar dos outros. Isso explica, de alguma forma, tantos “coroas” solitários. “Alguns vivem à caça e, muitas vezes, pagam para ter sexo”, comenta Carlos, o contador.

Ele mesmo, antes do relacionamento do Fernando, sentiu na pele a rejeição. “Muitos acham que você não dá mais conta do recado”, comenta.

Isso é triste, afirma, mas é a realidade. E ela só vai mudar, prossegue, se os gays de hoje entenderem que é preciso cultivar relações para, no futuro, não viver de solidão. Solidão é a realidade de um gay de 63 anos, que prefere não se identificar. O homem não se envolve com ninguém há dois anos.


A procura de um relacionamento, recorreu à internet e passou a entrar em salas de bate-papos, mas já percebeu que a procura não será tão fácil. Quando informa a idade, a pergunta que vem do outro lado parece automática: “Você paga?”.

Ele garante que isso não lhe ofende, porque de tanto ser questionado já considera a atitude normal. “Eu não pago. Prefiro ficar sozinho”. O idoso, que nunca saiu do armário, garante que escolheu ter uma vida reclusa, solitária, mas conta que sente falta de um companheiro.

Pensa que um dia pode ficar doente e, sozinho, não terá amparo. O problema é encontrar alguém disposto a dividir momentos assim. Gay velho não quer gay velho. Existe preconceito entre eles mesmos, constata.

E os novos, quando aparecem, só querem tirar proveito. Alguns se sujeitam, pagam para ter companhia, e isso, se focar nas dificuldades, é justificável, mas bastante deprimente. “A cabeça do gay funciona assim. Ele sabe que quando chegar em determinada idade vai se tornar solitário se não tiver cultivado um parceiro”.

 

Matéria de autoria do jornalista Elverson Cardozo, do Campo Grande News, caderno B

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