Cassilândia, Sexta-feira, 02 de Dezembro de 2016

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10/05/2016 09:30

O Caminho do Pódio - Vanderlei Cordeiro, bronze exigiu mais esforço que o ouro

Agência Brasil

 

Mais do que medalhista, Vanderlei Cordeiro de Lima entrou para a história dos Jogos Olímpicos graças a um infortúnio durante a maratona de Atenas, em 2004. Vanderlei liderava a prova quando foi agarrado pelo irlandês Cornelius Horan, que invadiu a pista a apenas 7 km da linha de chegada.

O episódio lhe custou a vitória. E o bronze exigiu mais esforço do o ouro. Enquanto os competidores à sua frente cruzavam a linha de chegada no Estádio Panathinaiko extenuados, Vanderlei corria seus últimos metros de braços e sorriso abertos, fazendo um “aviãozinho” em comemoração.

O ouro não veio, mas o bronze brilha no peito de Vanderlei junto com uma medalha ainda mais valiosa, a medalha Pierre de Coubertin, a maior honraria olímpica concedida a um atleta. A homenagem é prestada a atletas que representam o verdadeiro espírito olímpico.

A carreira do ex-maratonista de 46 anos é repleta de conquistas. Antes de Atenas, Vanderlei já tinha vencido maratonas em Tóquio e em São Paulo e já tinha conquistado o ouro nos jogos Pan-americanos de Winnipeg, em 1999, e Santo Domingo, em 2003.

“Às vezes eu falo, acho que precisou um fato tão relevante como aquele para ter esse reconhecimento dentro do meu país”, diz o atleta. Para ele, o Brasil precisa ver o esporte de uma outra maneira e os Jogos Rio 2016 podem ajudar. “Esse evento está aí para fazer com que possamos ter uma visão diferente do que é esporte, que vai além do futebol. […] O brasileiro só vê o esporte no resultado, muitas vezes não conhece a vivência no esporte”, disse Vanderlei à Agência Brasil.

O Caminho do Pódio é uma série de entrevistas com nove medalhistas olímpicos brasileiros publicada pela Agência Brasil.

Agência Brasil: Qual é a sensação de subir em um pódio olímpico?
Vanderlei Cordeiro: É uma sensação indescritível. É a realização de um sonho. Poder participar dos Jogos Olímpicos é uma grande conquista. E você se tornar medalhista olímpico é uma chance que poucos atletas têm. Eu tive a oportunidade de participar de três jogos olímpicos [Atlanta, em 1996, Sidney, em 2000 e Atenas, em 2004] e fazer um planejamento para realizar um sonho e conquistar uma medalha. Não foi fruto de um acaso, foi fruto de planejamento, com muita dedicação, disciplina e comprometimento, acima de tudo.

Agência Brasil: O significa ser medalhista olímpico no Brasil, um país onde os atletas, principalmente no começo, ainda têm muita dificuldade para viver só treinando e competindo?
Vanderlei: Tive a oportunidade de ter convivido com boas pessoas que, no decorrer da minha carreira, acabaram colaborando muito para que eu pudesse fazer um planejamento da minha carreira e chegar nessa realização. Essa não é uma conquista só do Vanderlei. É um trabalho que envolveu bastante gente, que influenciou a minha vida diretamente. Sou muito grato a isso, por todas as pessoas que colaboraram para que eu pudesse chegar onde eu cheguei. No início, a colaboração da família, do professor de educação física, que foi o grande descobridor do meu talento, e depois meus treinadores, que acabaram fazendo com que eu tivesse oportunidade de desenvolver minha carreira. E sem o apoio de outras pessoas e entidades eu não teria chegado onde cheguei. Se não fossem essas pessoas, e a iniciativa privada, jamais teria a chance de chegar onde cheguei.

Agência Brasil: Como você avalia a difusão da prática esportiva no Brasil? Como o país poderia estimular mais o esporte e a revelação de novos talentos em diferentes modalidades?
Vanderlei: Nós temos grande potencial. Mas a gente sabe que nem todos têm acesso. Há um trabalho de longo prazo ainda a ser feito quanto a isso. É claro que temos muito talento, mas se comparar as regiões Norte e Nordeste com a Sul e Sudeste ainda há uma deficiência. Há muito que fazer no esporte brasileiro, potencial para isso nós temos. Precisamos ter um planejamento. Ele deve, em conjunto com as instituições, ser feito a longo prazo e com continuidade. A base do esporte está na escola, isso é fato. A maioria dos atletas são assim e eu não fui diferente. Eu saí da escola. Acho que temos que dar um pouco mais de atenção a essa base e não só visando o esportivo. Os valores do esporte para o cidadão têm uma importância muito grande.

Agência Brasil: Qual é o maior desafio para um maratonista completar uma prova e chegar entre os primeiros?
Vanderlei: O planejamento de uma maratona começa no treinamento. Cada prova tem um clima, um percurso diferente. Você se prepara para aquelas condições e de acordo com os adversários. E aí você começa a montar uma estratégia. Essa estratégia começa bem antes da maratona. E nem tudo aquilo que você planejou antes dá para desenvolver ou pôr em prática. Varia muito, condição climática, percurso. E conforme você percebendo, você molda ou muda a estratégia na corrida. O mais importante é o atleta estar bem treinado para aquilo que ele se preparou e buscar o resultado, independentemente de quem esteja na prova. Essa sempre foi a forma que eu entrei nas maratonas, procurando sempre fazer o melhor dentro do planejamento.

Agência Brasil: É inevitável falar sobre os jogos de Atenas. Você acha que sua carreira ficou marcada por conta daquele episódio do irlandês e a forma como você superou aquilo?

Vanderlei: Nós fizemos um planejamento para Atenas. Eu já conhecia o percurso, tinha corrido lá em 1997, sabia como que era. Estudamos também os adversários que poderiam se sobressair naquele maratona. É claro, com todo esse planejamento que fizemos, jamais poderíamos imaginar que pudesse ocorrer um fato tão inusitado quanto aquele. E teve uma interferência muito grande no resultado final. Não voltei mais no ritmo que estava, até pelo impacto que o episódio acabou trazendo, mas o mais importante foi não perder o foco e buscar a superação de todas as formas. Acho que a garra foi determinante para que eu pudesse continuar, mesmo sabendo de todos os problemas que eu estava vivendo ali. Era acreditar até o final ainda na busca de pelo menos entrar no quadro de medalhas. Foi assim que eu conduzi a prova.

Agência Brasil: O que passou pela sua cabeça quando seu ritmo na prova foi interrompido?
Vanderlei: É uma sensação de impotência, sem chance de defesa nenhuma. Eu lembro que só pensei “poxa, o cara atrapalhou tudo”. Mas em momento algum passou pela minha cabeça desistir ou revidar a atitude daquela pessoa. Eu só queria sair daquela situação e voltar para a prova. Acho que o foco que eu tinha na prova foi determinante para que eu pudesse ter aquela reação e continuar na prova. Em momento algum pensei em reagir à altura da agressão.

Agência Brasil: Depois do ocorrido, o irlandês chegou a te pedir desculpas via imprensa. Você chegou a conversar com ele depois?
Vanderlei: Isso aconteceu logo depois da maratona. Sempre se cogitou a possibilidade de ter esse encontro, mas, da minha parte, não há decepção ou lamentação quanto aquilo. Mas eu não vejo o motivo desse encontro, acho que seria mais uma oportunidade para enaltecer a atitude dele, uma atitude com a qual eu nunca concordei. Não tenho raiva dele, é que realmente não condiz com meu comportamento. Seria enaltecer a atitude dele. Talvez ele tenha feito isso para se autopromover. Então não vejo essa possibilidade, mas não tenho mágoa dele.

Agência Brasil: Você entrou no estádio fazendo aviãozinho, comemorando o bronze. Você conseguiu recuperar o foco, afinal?
Vanderlei: Quando eu cheguei no estádio, quando sabia que já tinha garantido minha medalha, eu já tinha até esquecido o fato de o cara ter me atrapalhado. Eu estava curtindo aquele momento, aquela grande conquista. E, para mim, aquilo tinha sido minha maior conquista. Aquilo foi mais relevante do que se lamentar ou reclamar por não ter conseguido a medalha de ouro. Era um momento de felicidade e entrar naquele estádio sendo ovacionado, aplaudido sem parar te comove de uma certa forma que enaltece o seu feito.

Agência Brasil: Aquele episódio e sua reação lhe renderam homenagens. A medalha Pierre de Coubertin foi uma delas. Aquele bronze, no final de tudo isso, te trouxe muito mais reconhecimento como atleta e como pessoa, do que o ouro?
Vanderlei: O reconhecimento veio de outra forma. Veio pela postura, pela conduta. Por estar representando o verdadeiro espírito olímpico houve esse reconhecimento. Na verdade, todo mundo esperava o contrário. Não existe uma pessoa que não me cobre uma situação diferente, de agredir aquela pessoa ou revidar. O que enalteceu mais ainda foi essa atitude minha, pacífica, tranquila. Às vezes eu falo, acho que precisou um fato tão relevante como aquele para ter esse reconhecimento dentro do meu país. Acho que a vitória veio dessa forma, não pela conquista de uma medalha dourada.

Agência Brasil: Você acha que falta reconhecimento, você não tinha reconhecimento suficiente no país?
Vanderlei: Acho que somos um submundo do esporte, né? Quando se fala em esporte no Brasil todo mundo aclama o futebol. Claro que já se passaram algumas décadas e outras modalidades estão ganhando seu espaço, mas poderia ser melhor ainda. Mas acho que são etapas, a cada etapa estamos evoluindo. São os resultados que atraem as atenções, sem dúvida. Aos poucos, a gente vai conseguir chegar lá.

Agência Brasil: Você acha que a Olimpíada do Rio pode ajudar nessa mudança de cultura que prioriza o futebol?
Vanderlei: A mudança cultural não vem em um impacto imediato. Essa cultura esportiva tem que ser cultivada, fazer com que ela prevaleça. Esse evento aqui no Brasil vai contribuir muito para isso, é uma maneira diferente dos brasileiros verem o esporte. A gente já teve uma grande evolução no conhecimento da população sobre esporte através dos jogos Pan Americanos, em 2007. E esse evento está aí para fazer com que possamos ter uma visão diferente do que é esporte, que vai além do futebol. É uma oportunidade única para que os brasileiros aprofundem mais sobre o que é o esporte. O brasileiro só vê o esporte no resultado, muitas vezes não conhece a vivência no esporte. Então, é uma forma de mostrar para a população.

Agência Brasil: O que você espera encontrar nos jogos do Rio em termos de organização e de torcida do povo brasileiro?
Vanderlei: Em termos de organização não vai ter nenhuma dificuldade, o Rio já demonstrou isso realizando os jogos Pan Americanos. Mas é claro que os Jogos Olímpicos são completamente diferentes. Quanto a isso eu não coloco em dúvida a competência do Brasil para fazer uma grande Olimpíada. E o comportamento do brasileiro não será diferente. O brasileiro é muito caloroso, torcedor, fanático. E esse apoio da torcida é fundamental. Eu espero que possamos tirar de letra mesmo, porque nossos atletas vão precisar desse apoio. Todos os olhos estarão voltados a essa expectativa. A torcida é nossa, a casa é nossa, os atletas são nossos. Então, vamos acreditar.

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