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11/10/2013 08:47

O avesso do sucesso

Ruy Martins Altenfelder Silva (*)

Entre 1991 e 2010, um salto de 47,8% elevou o Brasil da categoria “muito baixa” para “alta” no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Além disso, o Relatório de Desenvolvimento Global 2013 classifica o País como um dos responsáveis pela “ascensão do Sul” na nova geopolítica mundial, em razão dos programas de inclusão social, com transferência de renda e investimentos em saúde e educação. Esse tripé – que é a base do cálculo do IDHM – resultaria no aumento das capacidades e oportunidades das pessoas, com reflexos na qualidade e condições de vida de apreciável parcela da população.

Na perspectiva nacional, o cenário do desenvolvimento humano é promissor, com pontuação que passou de 0,492 para 0,727, numa escala que vai de zero a um. Mas o choque da realidade vem com um mergulho no microcosmo dos municípios, que revela a persistência de fortes desigualdades regionais. Segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013, a renda per capita oscila entre R$ 1,7 mil e R$ 210. No quesito adultos com ensino fundamental completo, a variação cai de 80% para 13%. A longevidade ou expectativa de vida de uma criança ao nascer, que no Sul bate em 78 anos, desaba para 66 anos no Nordeste. Aliás, os 50 municípios pior classificados estão todos no Norte-Nordeste, com o último lugar ocupado por Melgaço, no Pará. Em contraposição, os 10 melhores, com São Caetano do Sul à frente, se dividem entre os estados de São Paulo (com 7), Santa Catarina (2) e Espírito Santo (1).

Dos três indicadores que compõem o IDHM, a longevidade foi a que mais contribuiu para o salto no ranking (crescimento de 23%), seguida por renda (14%). Sem surpresa para quem acompanha a questão jovem no Brasil a educação ficou na categoria “média”, com crescimento de 128%, devido principalmente à frequência escolar e não à qualidade do ensino. Tanto que, entre os 5.565 municípios, somente cinco atingiram o patamar muito alto de desenvolvimento.

Tais números ganham contornos mais preocupantes quando alinhados a outros indicadores. Em 2010, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV) detectou que cerca de 1,5 milhão de jovens, entre 19 e 24 anos – a maioria concentrada nas faixas mais pobres – nem trabalham, nem estudam e nem procuram emprego. Trata-se da face mais perversa de um problema detectado pelo Dieese no final de 2011: metade dos jovens de 18 a 20 anos estava sem emprego, provavelmente por falta de capacitação para aproveitar o momento aquecido do mercado de trabalho.

Se o Brasil realmente pretende ascender a patamares compatíveis com outros países que integram a faixa de alto desenvolvimento humano, não pode continuar descurando de políticas públicas que assegurem às novas gerações bem mais oportunidades de ingressar no mercado de trabalho. Entre outras razões, porque os jovens e suas famílias precisam ser motivados por perspectivas concretas de progresso pessoal, de renda e de condições de vida mais dignas. E também porque, no futuro, a sociedade como um todo terá de estar apta a dar sustentabilidade ao desenvolvimento de um País que já ultrapassou os 200 milhões de habitantes e continuará a crescer.

Caso contrário, a maioria deles poderá ser cooptada pelo crime organizado – tendência crescente nas estatísticas policiais – ou recair em ocupações informais, duas opções que aumentarão a vulnerabilidade dos milhões de brasileiros condenados à exclusão no estratégico momento em que chegam à fase produtiva da vida. O círculo vicioso somente será quebrado com a oferta de um projeto de vida a esses jovens, que passa não só pela inclusão escolar e assistência à família, mas também pela formação para o trabalho e a cidadania, dotando-os da autonomia indispensável para o resgate da autoestima e para a realização pessoal.

Aí está posto o grande desafio de reduzir a desigualdade na educação e na formação profissional, talvez as maiores e mais perniciosas disparidades sociais. Para vencê-la, ações sérias e responsáveis, destinadas a oferecer um futuro melhor aos jovens, devem ser estimuladas e multiplicadas. Principalmente aquelas que comprovaram seu potencial inclusivo, como é o caso do estágio e da aprendizagem. O balanço de meio século de atuação do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), com 12 milhões de jovens encaminhados ao mercado de trabalho, certifica o impacto saudável das duas modalidades de formação na empregabilidade e na construção de um futuro promissor.

(*) Ruy Martins Altenfelder Silva é presidente do CIEE e da Academia Paulista de Letras Jurídicas (APLJ).

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