Cassilândia, Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019

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25/10/2018 13:00

Nem câncer e nem ousadia, a careca chegou para Maria no meio do pânico

No Voz da Experiência ela fala sobre ansiedade, acompanhada de uma rotina desgastante que a fez chegar ao limite e como resolveu buscar ajuda para se recuperar.

Campo Grande News
Nem câncer e nem ousadia, a careca chegou para Maria no meio do pânico

Há poucos dias, Maria Ayslane, de 32 anos, chamou atenção nas redes sociais ao aparecer careca. Só que mais do que estilo, a decisão de raspar a cabeça virou sinônimo de luta dentro de casa. Mãe de dois filhos, a lida cotidiana intensa levou ao encontro de uma ansiedade inesperada, seguida de crise de pânico que há dois anos fez ela perder as referências da mulher que sempre foi. Mas enquanto para muitas pessoas o cabelo é tudo, Maria se entregou a careca para um recomeço e sua transformação ela conta no Voz da Experiência.

"Quem vê a cabeça raspada pensa que é estilo, coragem, ousadia. Ou, ao contrário, associam a algo mais grave, como câncer. Mas, o que de fato me fez tomar essa atitude, foi uma forte crise de pânico. Sou mãe de dois bebês pequenos: uma de 2 anos e 2 meses e um de 7 meses. Duas gestações planejadas e conscientes de que seria um período difícil para mim e meu companheiro, uma fase cheia de privações, pouco descanso e muito trabalho.

Mas, não há teoria ou análise que lhe prepare pra lida cotidiana. Somado a isso, carrego a minha ansiedade crônica, que mesmo quando “incubada” me deixa com o pensamento e cobranças sempre a mil; a projeção de maternidade que idealizei; o receio de ser um peso para quem quer que seja, o que me leva a um isolamento e enfrentamento dos meus limites e cansaços até a exaustão, justamente quando mais preciso de ajuda; a vergonha de reaproximar dos amigos afastados, bem nas oportunidades que aparecem ou momentos em que preciso, por não querer parecer “amiga por conveniência”; além do relacionamento intenso com o “homem da minha vida”, o pai dos meus filhos e também meu primeiro namorado, com quem tive inúmeras idas e vindas aos longos dos anos. Ele foi a pessoa que me fez topar e entrar de cabeça na construção dessa família. Alguém que trabalha muito se dedica muito ao que faz e que tem a personalidade tão forte quanto a minha. E que carrega a sobrecarga de suas atividades, das próprias expectativas e do seu perfeccionismo. Exatamente como eu.

Os últimos anos foram intensos e de ‘despersonificação’. Não tive tempo para viver o luto da mulher que deixei de ser no dia em que vi os exames com o positivo de gestação, tampouco de maturar todas as transformações na minha rotina, no meu corpo e em cada menor aspecto da minha vida. Senti-me integralmente mãe e sozinha grande parte do tempo com dois bebês, sem rede de apoio paga, sem querer incomodar os parentes, pra pedir ajuda, e com um marido interessado em participar nos cuidados das crias, mas também com as limitações de seus compromissos.

Antes da crise, não foram poucos os choros de cansaço, enquanto as crianças dormiam. A vontade de gritar por socorro e a vergonha por não conseguir dar conta de tudo àquilo que me propus. Vivia um misto de amor extremo, admiração por cada pequeno sorriso e até mesmo pelas artes das crianças, mas sentia cansaço físico e mental por não ter descanso, não conseguir relaxar. Sempre preocupada em manter a casa em ordem, roupas e pia limpas, enquanto alimentava, trocava, fazia dormir, amamentava e limpava as bagunças deles.

Desenvolvi compulsão alimentar, e olhava no espelho um corpo que não era o meu. Sempre me vangloriei por nunca ter tido cárie, mas estou convicta de já ter várias, porque escovar dentes era um luxo que só tinha quando Gabriel estava em casa. O mesmo com meu banho. Cortas as unhas. Lixar unhas e passar creme no corpo era de um luxo tão absurdo que me fazia rir só de me imaginar parando pra fazer algo do tipo.

Foi gradativo meu desgaste, e acumulativo os efeitos de todas essas mudanças e exigências. Certo dia, após a volta para casa da semana na internação por pneumonia do mais novo com um mês de vida, seguida de uma mudança de apartamento e sua organização, me vi chorando copiosamente na cozinha, e cortando meus próprios cabelos, com uma tesoura cega e sem espelho, porque percebi que havia três dias que sequer tive tempo de penteá-los, e eles estavam repletos de nós. Só conseguia pensar que não era mais gente. Pensava: “se não sou capaz de cuidar deles, pra que manter aquilo tudo?”.

Sentia vergonha e raiva de mim por ter me permitido chegar naquele estado, culpava também o pai dos meus filhos, por não ter notado. Como ele me deixou chegar naquele estado? E, de lá pra cá as coisas não atenuaram. O problema não era só falta de tempo pra cuidar dos meus cabelos. Reduzi as horas desembaraçando, mas continuei cansada. Envergonhada e perdida. Amando meus filhos, querendo eles sempre bem e comigo, mas louca por um resgate. Queria vê-los bem, dar todo meu amor, mas queria também me ver de novo. Queria saber onde estava a Ayslane no meio daquilo tudo.

A crise ocorreu poucos dias após meu aniversário, logo quando decidi parar de amamentar pra começar a tratar minha ansiedade, e meu marido trancando o mestrado para ficar mais presente e pensávamos em atividades como yoga ou meu retorno ao Jiu-jitsu ou Muay Thai, ou outra atividade que pudesse me trazer de volta a minha individualidade. Mas, a ansiedade não sabe esperar, sobretudo quando acompanha uma rotina desgastante e isolamento. Tive uma das piores crises da minha vida. Pior, porque eu sabia que não poderiam passar por aquilo, meus filhos precisavam de mim. Ficar doente é um luxo, que quem fica com crianças pequenas, sabe que não pode se permitir. E eu queria sumir. Sentia-me sufocada na minha existência, totalmente presa na responsabilidade de amparar meus filhos, ciente da necessidade deles de meus cuidados e amor, mas sem condições físicas e psicológicas de continuar.

Desejei morrer, pra no segundo seguinte me odiar por pensar nisso, pois sabia que não podia. Minha vida não era mais minha, era e sou dos meus filhos. Vi-me sem saída. Desejei desesperadamente, ao menos por alguns minutos, dias ou meses não ser eu. Seja lá o que eu ainda fosse, porque não conseguia me ver naquilo tudo que estava acontecendo. Foram dias dopados, crises histéricas que sequer sou capaz de lembrar devido o efeito do excesso de remédios, tomados sem cuidado, realmente inconsequentemente.

Sentia-me um lixo por me ver daquela forma, por sentir o que sentia, odiando a mim e culpando meu companheiro por ter “permitido” eu chegar naquele estado. Perdi noção de medidas e palavras, soube depois que o gritei, falei mal e o machuquei com minhas palavras, imputando nele parte do que eu sentia. E mesmo após a crise, senti mágoa quando se lembrava do que tinha acontecido. Mas, já estava feito. Por dias não foi possível diálogo. Não havia saúde ou ânimo pra ambos. No meu corpo só hematomas, cansaço, cicatrizes e na minha já cabeça não havia os cabelos.

Cabelos esses que ele sempre elogiara. E as crianças. Havia as crianças, que enquanto eu estive sedada, ficaram sob os cuidados do pai e da avó. E, assim que os quatro dias de crise se passaram, levei as crianças em uma viagem comigo para a casa da minha mãe. Não queria mais ficar “ausente”, me sentia ainda mais culpada por minha crise, mesmo sabendo que não havia como controlar. Muitas coisas vinham acontecendo, o meu médico ha alguns meses havia nos advertido que eu precisava de apoio, que eu precisava de ajuda e rever essa rotina pra cuidar um pouco também de mim. Mas faltou tempo, e as coisas foram acontecendo. Não pude parar, e não quis incomodar. “Deu no que deu”. Mas não queria que isso voltasse a acontecer. Não podia mais esconder meu esgotamento nem recusar ajuda. Cedi ao convite de passar uns dias fora.

Queria contar uma história de superação, mas a verdade é que ainda estou superando. Raspar a cabeça foi o último ato feito durante a crise, quando os remédios estavam com menor efeito e dei conta que não havia fuga. Minha vida precisava de mim. Hoje vejo que foi um marco, daquele momento ao que viria depois, eu decidi que não permitiria mais que as coisas se repetissem. Não iria me isolar e me sobrecarregar, não permitiria. Precisava estar saudável pra ter meus filhos bem, dar a eles todo amor e cuidado que mereciam de uma mãe que estaria agora inteira pra eles ali. E as coisas estão indo, um dia após o outro. Reconciliando-me com meu companheiro e nossa vida, reconhecendo meus excessos e meus erros, tentando estabelecer uma nova rotina em que me sinta “gente”. Estou ainda naquela expectativa de me reconhecer, na verdade a palavra correta é “conhecer”, preciso conhecer essa mulher que estou me tornando.

Não sou a única a passar por isso, tenho muitas amigas que passaram por crises de identidade, estresse, também pânico e até mesmo tentativas de suicídio nessa fase da maternidade. E não são poucos os relacionamentos que conheço que terminam nesse período, em que há tanta sobrecarga física e mental, além de uma carga sentimental e emocional incalculável, que a maternidade e a paternidade trazem.

Escrever sobre a crise e sobre a maternidade além de “autoterápico” é uma oportunidade de falar com outras mulheres que estão passando pela mesma fase, para que não se isolem, aceitem e peçam ajuda - que seja paga; pedir aos companheiros e companheiras que tenham paciência, presença e empatia; e aos amigos e familiares, que se façam mais presentes. Aprendi muito rápido que a maternidade vem acompanhada de duas coisas: culpa e força.

Sempre vamos nos sentir culpadas. Por achar que falhamos em algo ou que poderíamos ter feito mais - e até mesmo quando achamos que estamos certas, nunca falta um dedo de fora pra dizer que deveríamos ter feito de outra forma, que erramos como se fosse criar e educar seres humanos fosse algo exato e possível de saber o momento e como acertar. Mas então há a força. Essa forma primitiva materna, que só quer ter a certeza de estar protegendo e fazendo o melhor pra nossa cria, mesmo que estejamos cansadas, mesmo quando pensamos que já não podemos mais.

E, “quanto aos cabelos?” Bom, estou me acostumando com os olhares, e aprendendo a me enxergar. À medida que crescem, percebo que em mim também muita coisa está mudando. Tento encarar minha cabeça e a mim, como planta. Uma planta que estava doente, e que podei na esperança de que o que vier será melhor. E só o que posso fazer é levar um dia de cada vez, tentando o meu melhor. Tentando me sentir mais segura. Por eles, meus filhos; por meu casamento e nosso amor; pela qualidade da vida que quisemos construir; e, por mim, que desejo viver ainda muito daquilo que tem por vir. E só foram 2 anos e 11 meses dessa loucura! Quero estar sadia e bem, pra viver todo o mais que a vida tem pra nos oferecer. E há muito que quero viver com eles.

Estar sem cabelo ou agora com pouco, o pós-parto ou essa primeira infância, são fases. E vão passar. No final das contas, acredito que o que não faltará é emoção, amor e histórias pra contar.

“Cabelo cresce”."

E, força pra nós.

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