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03/02/2010 07:39

Nelson Valente: Teoria lógica dos signos

(*) Nelson Valente

1. CHARLES SANDERS PEIRCE (1839-1914), pensador norte-americano, instituidor do pragmatismo como método de conhecimento, manteve relações intelectuais com todos os filósofos importantes de seu momento histórico - dentre eles: William James, Henry James, John Dewey, Gottlob Frege, Bertrand Russell.
Não realizou carreira universitária, e seus textos foram publicados esparsamente, reunidos pós-morte.

2. A posição pragmática (espécie de versão neopositivista mais avançada) consiste no método para a determinação de significados, concebidos como produtos factíveis.
O pragmatismo não se propõe, com Peirce, como filosofia. Seu estamento é de recurso para o pensamento filosófico, instrumento para o que-fazer filosofante.

3. Algumas constantes na metodologia peirceana.
Sua estrutura de raciocínio e demonstração apóia-se sempre em relações triádicas. Nisso, deriva direta sugestão da dialética hegeliana (tese, antítese, síntese).
Todo significado parte de uma hipótese, a que se segue uma operação - que vai até uma experimentação (ou mesmo um resultado).

O objeto é conhecido e diferenciado pelas consequências práticas que acarreta e pelos fatos em que resulta.

A concepção de um objeto equivale à concepção de como funciona ou do que pode realizar. Tal a proposição pragmática, da metodologia de C. S. Peirce.

4. Três são os elementos lógicos que permitem a decifração dos fenômenos, ou sua conceituação: PRIMEIRIDADE, SEGUNDIDADE e TERCEIRIDADE.
Esse sistema triádico identifica as categorias lógicas para C. S. Peirce.

PRIMEIRIDADE é uma qualidade sensitiva, ou sensação percebida (um orgasmo, um soluço, por exemplo). Resume-se na ideia daquilo que independe de algo mais. A primeiridade caracteriza os fenômenos singulares, idiossincráticos, excludentes. Os sentimentos ou as qualidades puras incluem-se na categoria das primeiridades.

SEGUNDIDADE é reação, resposta. Existindo um duplo termo, nas quais uma coisa acontece à outra. O nome de uma coisa ou fato é uma relação de duplo termo. Assim, a percepção sensível que permite conhecer os eventos ou sua mudança (troca de estado, troca de posição, referencial) - constitui-se na categoria lógica da segundidade.

TERCEIRIDADE é representação. A ideia que se faz de um terceiro, entre um segundo e um primeiro; uma ponte entre dois termos ou elementos. A terceiridade predomina na generalidade, na continuidade que permite, por exemplo, a elaboração de leis. Toda lei depende de um referencial (primeiro e segundo), de que ela é o terceiro. O signo, segundo Peirce, é a ideia mais simples da terceiridade.

5. SIGNO - segundo Charles Sanders Peirce, é aquilo que representa alguma coisa para alguém, sob determinado prisma. A coisa representada denomina-a objeto.

O primeiro signo denomina-se REPRESENTAMEN. Cria na mente da pessoa, o qual é direcionado como emissão, um signo equivalente a si próprio.

A flor que existe no mundo independe de minha vontade. A palavra flor (ou flower, ou fleur, ou fiore) é um signo gerado pelo primeiro signo que é a flor.

Esse outro signo, mais desenvolvido que o representamen, denomina-o Peirce interpretante.

Decorre nova relação triádica - signo / objeto / interpretante, como abaixo:


INTERPRETANTE




SIGNO OBJETO



Entre signo-interpretante e interpretante-objeto, as relações são causais. Já entre signo e objeto não há relação de pertinência, porque arbitrária. O signo não pertence ao objeto, o objeto não pertence ao signo.
Decorre que o interpretante passa a funcionar como a chave da relação (inexistente) signo e objeto.
As três entidades formam a relação triádica do signo.
Peirce configura a palavra signo numa acepção muito larga e elástica. Pode ser uma palavra, uma ação, um pensamento ou qualquer coisa que admita um interpretante, com o qual mantém uma relação de duplo termo.

A partir de um interpretante, e por causa dele, torna-se possível um signo.

Nem interpretante, nem signo, estão contidos na primeiridade ou na segundidade. Como categoria lógica, ambos incluem-se na terceiridade.

6. Peirce concebe os signos em três divisões amplas: ÍCONE, ÍNDICE e SÍMBOLO.

A partir da exemplificação abaixo, a indução dos conceitos.
Assim: a impressão digital na carteira de identidade (ÍCONE), a impressão digital do ladrão (ÍNDICE) ou a impressão digital, como símbolo de campanha a favor da alfabetização (SÍMBOLO).

ÍCONE é um signo que é uma imagem. Caracteriza-se por uma associação de semelhança, independe do objeto que lhe deu origem, quer se trata de coisa real ou inexistente.

ÍNDICE é um signo que é um indicador. Relaciona-se efetivamente com o objeto, por contigüidade. Aquilo que desperta a atenção num objeto, num fato, é seu índice. Permite, por via de conseqüência, a contigüidade entre duas experiências ou duas porções de uma mesma experiência.

SÍMBOLO é o signo que é uma abstração de um concreto. Refere-se ao objeto que denota em virtude de uma lei, e portanto, é arbitrário e convencionado. A possível conexão entre significado e significante não depende da presença (ou ausência) de alguma similitude. Enquanto o índice define contigüidade, o símbolo, não. Fundamental no signo que é um símbolo incide em seu caráter definitivamente convencional.

Essa é a divisão triádica dos signos, segundo Peirce.
7. O signo apresenta, ainda três sub-categorias básicas. A partir dessa nova proposição triádica, C. S. Peirce concebe que todo o signo, em si próprio, pode ser 1) mera qualidade; 2) existência concreta; ou 3) lei geral.

QUALI-SIGNO é todo signo que é uma qualidade. Como tal, semanticamente, um determinante. O azul é um determinante (qualidade) de cor.

SIN-SIGNO é todo o signo que é uma coisa existente, um acontecimento real. Em princípio, envolve vários quali-signos (ou permite vários determinantes). O vermelho é soma dos quali-signos de vermelho (que é uma cor, que é sinal de proibição, que é sinal de alerta, que é sinal de perigo). O vermelho é o signo de si próprio (sin-signo), somatório de todos os quali-signos de vermelho). Uma palavra, como tal é seu sin-signo.

LEGI-SIGNO é o signo que é uma lei. O vermelho como pare, na codificação visual das leis de trânsito, é um legi-signo. Contudo, inexiste legi-signo sem sin-signos prévios. O vermelho existe antes como sin-signo, antes de ser uma lei de trânsito.

8. LUDWIG WITTGENSTEIN (1889-1951), pensador alemão, graduado em Lógica e Filosofia pela Universidade Britânica de Cambridge, era também engenheiro pela Universidade de Berlim. Envolveu-se em todos os procedimentos da lógica matemática e da lógica simbólica (Bertrand Russel) e sempre se dedicou a pesquisas de lógica semântica.
Seu texto básico é o Tractatus Logico-Philosophicus, publicado em 1921. o livro pretende estabelecer como próprio limite do pensar a língua.

9. Wittgenstein ponderou o valor de seus conceitos no Tractatus, numerando-os de acordo com seu peso lógico. Dessa ponderação resultam sete conceitos básicos no Tractatus:


a) O MUNDO É TUDO QUE OCORRE (1);
b) O QUE OCORRE, O FATO, É O SUBSISTIR DOS ESTADOS DAS COISAS (2);
c) O PENSAMENTO É A FIGURAÇÃO LÓGICA DOS FATOS (3);
d) O PENSAMENTO É A PROPOSIÇÃO SIGNIFICATIVA (4);
e) A PROPOSIÇÃO É UMA FUNÇÃO DE VERDADE DAS PROPOSIÇÕES ELEMENTARES (5);
f) A FORMA GERAL DA FUNÇÃO DE VERDADE É ESTA É A FORMA GERAL DA PROPOSIÇÃO (6); e
g) O QUE NÃO SE PODE FALAR, DEVE-SE CALAR (7).

Os números indicados à direita dos conceitos acima referidos correspondem, no Tractatus, ao algarismo ponderado como valor de verdade.

10. É na proposição (3) que Wittgenstein desenvolve seu tema relacionado com o signo. Isso ocorre a partir do número ponderado. "Na proposição, o pensamento se exprime sensível e perceptivelmente". Para Wittgenstein, a situação possível nada mais é que o signo sensível e perceptível.

SIGNOS SIMPLES empregam-se nas proposições, e são chamados nomes. A função de cada nome é denotar um objeto . Por isso, na proposição, o nome substitui o objeto.

NOME é um signo primitivo, e portanto não tem denotação. Só em conexão com a proposição o nome (ou signo primitivo) tem denotação. O nome denota um objeto, apenas porque o substitui.

SENTIDO PROPOSICIONAL constitui o enunciado mais significativo desse universo conceitual. Wittgenstein denomina assim, o signo pelo qual se expressa o pensamento. "O signo proposicional consiste em que seus elementos, as palavras, estão relacionados uns aos outros de maneira determinada." E conclui: "O signo proposicional é um fato".

11. VERDADE é uma possibilidade que resulta da relação de dois conceitos: V (para verdadeiro) e F (para falso). As possibilidades da verdade, em suma, resultam das relações entre esses conceitos. Assim, tomadas as proposições p, q e r, as hipóteses de relação aduzidas por Wittgenstein.


12. Para Wittgenstein (como para os pragmáticos) todo signo é arbitrário, o que deflagra a subseqüência dos elementos arbitrários que dele derivam. Daí, duas asserções importantes:
A) "Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo". De que decorre: "Para uma resposta inexprimível é inexprimível a pergunta".
B) "O que não se pode falar, deve-se calar".


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PEIRCE, Charles Sanders. Estudos Coligidos. Col. Os pensadores, trad. bras., São
Paulo: abril, 1980 (ant.).

PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica e Filosofia. 2ª ed., trad. bras., São Paulo:
Cultrix / EDUSP, 1975 (ant.).

WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. trad. bras., São Paulo: C.E.N.,
1968 (1921).

VALENTE, Nelson. BROSSO, Rubens. Elementos de Semiótica - comunicação verbal e alfabeto visual.São Paulo: Panorama, 2001.

(*) é professor universitário, jornalista e escritor


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