Cassilândia, Sábado, 03 de Dezembro de 2016

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26/08/2009 08:00

Nelson Valente: Temas que agradavam Jânio Quadros

Nelson Valente*

No ano derradeiro em que Jânio foi Presidente, ele foi inquirido por centenas de jornalistas nacionais e estrangeiros, através do rádio, do cinema, da televisão e da imprensa. Respondeu a resmas de questionários, os quais se estendiam, de intrincadas questões filosóficas, econômicas e financeiras, até seus hábitos pessoais.

Proferiu centenas de discursos em universidades, sindicatos, associações de classe, ruas e praças. Foi uma terrível maratona física e intelectual.

Os temas agradavam Jânio e foram estes:







Política Interna



- "Não foi inadvertidamente que disputei uma cadeira de Deputado federal, pelo meu Paraná, sob a legenda do Partido Trabalhista Brasileiro.

Fi-lo, ciente da implicação ideológica, inclusa no gesto. Estou convencido de que a era do liberalismo econômico jaz sepulta nas cinzas da Primeira Guerra Mundial deste século. O aprimoramento técnico da indústria, a mecanização da agricultura, o processo de acúmulo e de concentração de capitais, criaram para as nações a necessidade de interferir no setor econômico, orientando, ordenando, contendo e harmonizando interesses que se fizeram conflitantes.

A extensão do extermínio de 1914, mobilizando imensas massas humanas, nos vários continentes, para um sacrifício simultaneamente estúpido e heróico, deu-lhes com a consciência da precariedade da vida, a noção, sempre mais arraigada, de que todos tem direito aos benefícios da civilização e do progresso.

Às reivindicações individuais e de classe correspondeu, para o Estado, a contingência de eliminar ou de arbitrar os atritos.

A revolução industrial de nossa época, gerando riquezas em ritmo alucinante, completou os termos da equação sócio-econômica que demanda desdobramento e solução.

Capital é trabalho acumulado. Quem o acumula, entretanto, não é o trabalhador. Não o desfruta, pois, quem precipuamente o cria.

Tenho, de igual passo, afirmado, reinteradamente, que sou favorável à livre iniciativa, com as restrições impostas pela segurança da nação e pelo interesse social.

Reitero e ratifico a minha fidelidade a esses princípios.

Não sou liberal, nem sou marxista.

A terminologia política a quem muitos continuam apegados, na velha Europa, não tem mais o sentido lógico que assumiu em certa fase da história das idéias. Os conceitos que alicerçaram esquerda e direita, na fase que culminou com o embate entre fascismo e bolchevismo, mudaram de natureza, em conseqüência da Segunda Guerra Mundial e da explosiva evolução que se opera em nossos dias, e que também a nós nos abarca.

De um lado, vemos tradicionais partidos socialistas da Inglaterra e da Alemanha, revendo postulados fundamentais de seus programas, mas, de outro lado, assistimos – sem que os preceda um ideário nítido – a saltos sociais da envergadura dos operados no Egito, na Índia, em Cuba, na África.

A mentalidade política se refaz ao empurrão dos acontecimentos, e destes deverá resultar uma nova definição para velhos problemas.

Nem mesmo as supostas "cortinas" separam homens e não-homens, e a impossibilidade de uma direção monolítica para os povos se evidencia na rebelião iugoslava, na insurreição húngara, na afirmação de independência da Polônia, no atrito entre a China e a União Soviética, com o corolário das crises que proliferam nas organizações partidárias internacionais que se inspiram no exemplo desses países.

Sou democrata, adepto do sistema representativo da interdependência dos poderes, de eleições secretas e livres, dos mandatos a prazo determinado, dos intangíveis direitos individuais, da liberdade de pensamento. E me confesso cristão, católico apostólico romano.

Para mim, a ordem social sobrepõe-se à ordem econômica; para mim, o homem é primeira e principal afirmação da sociedade.

Não acredito em ditaduras.

As exercidas em nome de uma classe, traem-lhe as prerrogativas mais elementares. Negam-lhe a liberdade de trabalho. Destroem-lhe os sindicatos. Proíbem-lhe a luta pelo acesso legítimo. Convertem em crime o que é de direito. Cerceiam a livre expressão do pensamento. Suprimem as assembléias. Desmancham a família. Subtraem, ao convívio humano, o calor da amizade e a ternura da confiança.

As ditaduras exercitadas a pretexto de interesse nacional cometem as mesmas ferocidades, incidem em violências idênticas.

Abomino o terror em que ambas se esteiam, o dogmatismo que as informa, a cruel inumanidade em que se comprazem.

Atenho-me, como candidato à Presidência da República, nesta época de transição de que participamos, a normas gerais enquadradas nas experiências que outros povos realizam, e que se situam sob o signo do humanismo.

Povo jovem e dinâmico, com direito a aspirar a uma posição de relevo no mundo moderno, não podemos deixar de simpatizar com os outros povos que se encontram em posição próxima da nossa, e que lutam pela própria independência e pelo progresso social.

Não sou o único a não ter, hoje, um rótulo estritamente ortodoxo para a posição em que me situo.

O século XX tem sido um crematório implacável de filosofias políticas, e é preciso, para que encontremos o justo caminho, que, servidos por mente arejada, animados de ideais amplos e generosos, guiados por espírito de luta e afirmação, dispostos a encarnar a soberania da Nação, ávidos de liberdade e só entendendo a política em função do amor ao povo – não nos metamos, por vontade própria, em prisões que por toda a parte estão sendo arrebentadas.

Presidente da República, não saberia, em nenhuma hipótese, envidar os destinos da Pátria, em fórmulas obsoletas ou em experiências perigosas.

A prudente atitude de Alberto Pasqualini, diante dos interesses contraditórios que o Estado precisa compor, se me afigura do melhor alvitre, nesta vertente da história.

O aparente ecletismo desta posição não resulta de vontade minha, mas de conjuntura internacional. Ela tem como objetivo primeiro o resguardo dos mais legítimos interesses de nossa comunidade, que deve participar e beneficiar-se da mutação que se opera na face do mundo, sem desnecessariamente isolar-se ou perder-se por descaminhos que a nada conduzem.

Neste particular, louvo a sabedoria do legislador constituinte.

Aliás, outras tarefas, mais imperativamente imediatas, reclamam a atenção do homem público brasileiro.

Precisamos arrancar esta Nação, sem perda de tempo, do atoleiro do subdesenvolvimento que lhe entrava o progresso."



Desenvolvimento




- "À geração contemporânea coube a indeclinável incumbência de remover barreiras.

Este é o instante em que o Brasil precisa firmar-se definitivamente, como nação e como cultura, no mundo ocidental.

O papel que nos está reservado na América cresce de importância cada dia, diante da paisagem política que se conturba nas lindes continentais.

O Brasil não deve mentir à esperança de outros povos. Mas, via de conseqüência, não pode mentir à esperança de seus próprios filhos. Não recuaremos, porque chegamos até aqui. Não recuaremos, porque estamos dispostos a todos os sacrifícios para atingir o completo desdobramento da potencialidade do nosso solo e subsolo e da capacidade da nossa gente.

As dificuldades naturais de desbravamento de um País de porte gigantesco como o nosso, só podem ser superadas mediante a aplicação sistemática dos seus recursos, em obediência a uma hierarquia de prioridades. A ausência da Administração nos problemas da educação e da saúde, agravando, criminosamente a grande chaga da nossa atualidade, realizou, também, um dos maiores escândalos dos nossos dias.

Ao governo não lhe será lícito, a qualquer título, ainda que sonoro ou pomposo, procrastinar o atendimento das necessidades basilares de saúde, educação e cultura.

A Federação deverá constituir uma expressão vigorosa e harmônica no seu conjunto, elidindo-se as fundas arritmias de seu crescimento.

É imperioso renivelar vastas áreas demográficas do País em que o poder aquisitivo é semi-asiático e, o padrão de vida, por conseqüência, jaz em escalões que não se ajustam à dignidade humana. a fome, o analfabetismo e as endemias estão ainda presentes, em várias regiões, corroendo a fibra da raça.

A tomada de consciência destes problemas, pela opinião pública, representa um passo que se dá na solução deles. Sabemos o que somos e sabemos o que queremos ser.

Com este propósito a incandescer o nosso entusiasmo e a redobrar as nossas forças, implantaremos a moralidade administrativa. Sanearemos a moeda. Equilibraremos o orçamento público, proscrevendo os gastos supérfluos ou adiáveis. Conteremos a inflação que corrompe os costumes e flagela os humildes em benefício de poderosos.

Daremos à agricultura e à pecuária, que tudo nos tem dado para ser o que somos, tratamento generoso de assistência técnica e financeira, a fim de que prossigam com vigor renovado na marcha do nosso enriquecimento.

Para a indústria em geral e, sobretudo, a indústria de base, para o comércio interno e o de exportação, alinharemos todos os estímulos de que carecem, na sua missão fecunda de produzir e distribuir riquezas.

Aos trabalhadores além da aposentadoria e assistência médico-hospitalar dos Institutos, tornadas efetivas, além das vantagens de uma previdência social escoimada de compadrio, de filhotismo, de corrupção, tranqüilidade mediante a garantia de salários hábeis a mantê-los, e a suas famílias, em padrões crescentes de bem-estar, participando da evolução do País.

As tarefas de soerguimento econômico, de saneamento financeiro, de recuperação do homem, de expansão industrial, de amparo à agricultura, de revisão dos transportes, de desenvolvimento das fontes de energia, o cumprimento, em suma, das diretrizes do governo, anunciadas em Recife, nos mobilizarão, de imediato."







Política Externa



- "Emprestaremos desusado relevo ao comércio internacional, abrindo as portas do Brasil para o mundo, numa afirmação categórica de que somos um povo livre.

Povo livre, que, livre de medo, conduz o seu destino.

Cumpriremos, agora, a decisão do Príncipe Regente, baixada desde 28 de janeiro de 1808.

A Nação, entretanto, tem deveres para com a América.

O momento é oportuno para que se fique sabendo o que proponho e o que pretendo para as nossas relações com os demais povos americanos. Já o afirmei, solenemente. Repito-o, agora, mais uma vez.

Julgo não haver outro instrumento de ação política, no
âmbito continental, senão a Organização dos Estados Americanos. Aí, e só aí, devem ser solucionadas as eventuais controvérsias entre nações irmãs.

O Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, a Carta da Organização dos Estados Americanos e o Pacto das Soluções Pacíficas de Bogotá conformam o nosso sistema de segurança coletiva, consagrado pela Carta das Nações Unidas. Se avançamos na estruturação político-jurídica do Continente, resta ainda um campo enorme a conquistar: o da nossa expansão econômica. Só ela libertará os povos latino-americanos da miséria, conseqüência do dramático problema do subdesenvolvimento. A este respeito não pode haver contemporizações. A América Latina tem pressa e tem consciência de sua força.

Pretendo, pois, apoiar a Operação Pan-Americana, que visa a integração econômica, cultural e política de nossas Pátrias em um quadro de planejamento harmonioso de execução possível em breve prazo.

É evidente que nossos esforços resultarão improfícuos, se não contarmos com a cooperação e compreensão dos nossos irmão do Norte, por vezes imperfeitamente esclarecidos sobre a necessidade imperiosa, incontornável de eliminação de tantas áreas de pobreza.

Concorre, para isso, talvez a concepção unilateral de que só ao capital privado compete papel básico na luta em prol do futuro latino-americano.

Tal não se dá.

O deslindamento destas questões demanda a cooperação de Estado a Estado. Exige-a. Não é outra a causa de a Operação Pan-Americana alicerçar-se numa política global do hemisfério. Os esquemas de ajuda dos Estados Unidos remanescerão ineficazes, se não forem substituídos os princípios que os norteiam.

Daí as crises periódicas que afetam o Continente.

A reunião de Bogotá, neste particular, teve os contornos e as meias tintas promissoras de uma aurora inesperada. Nela, falamos a linguagem franca e cordial dos que, efetivamente, se querem entender. Aguardaremos, contudo, antes de mais largos entusiasmos, os seus resultados práticos.

Nação independente, soberana, o Brasil prescinde da liderança internacional de qualquer potência. Sabe onde estão os seus direitos e os seus interesses. Não os aliena. Não os sub-roga.

Mas, e por igual, fiel às suas tradições, aos seus compromissos, é avalista determinado e espontâneo da intangibilidade do Continente. Aqui, ninguém interferirá.

Não há lugar, na América, para o exercício de curatelas européias ou asiáticas, a nenhum título.

Sempre soubemos, nesta comunidade de Nações livres, solucionar as pendências emergentes, diria inevitáveis, sem que tais desacordos justificassem malignas intervenções extracontinentais.

Não as concebo, nem as tolero. Insisto, entretanto, em que a melhor, quiçá a única maneira de exorcizarmos os fantasmas que rondam o Continente, está na imediata efetivação da OPA.

Povos economicamente desenvolvidos, libertos da miséria e do medo, aptos a se realizarem, não teme, e por isto mesmo, não agridem.

Tarda, por outro lado, que fortaleçamos as nossas relações comerciais, para não falarmos nas culturais, com os países da Europa e da Ásia.

Temos caminhado para trás, nos nossos processos de intercâmbio e de trocas, suplantados até pelo atilamento e pela tenacidade de diplomacias mais bisonhas, embora mais resolutas do que a nossa.

O mundo africano, hoje desperto, ao qual venho aludindo insistentemente, desde os pródromos desta campanha, reclama, por sua vez, a nossa atenção devotada!

Não me alongarei sobre tema tão amiúde por mim ventilado. Deploro que os fatos estejam confirmando os meu vaticínios. Continuo, de resto, a acreditar que o Brasil é o mediador melhor qualificado para as jovens democracias africanas."





- "Meus senhores.

Dez dias nos separam da eleição do futuro Presidente da República.

Tenho consciência de que conduzi a campanha, como me propusera, num plano de rigorosa elevação.

Assim procedendo, não fiz favor. Cumpri, apenas, a minha obrigação tal como a entendo.

Seria insincero, se não lhes confessasse o quanto me custou, por vezes, impor silêncio ao ímpeto de revide, de repulsa à ofensa não provocada.

Logrei fazê-lo.

Os pleitos devem aprimorar a prática do regime. E um povo não se educa com o espetáculo deprimente e desprimoroso da permuta de injúrias entre opostulantes à primeira magistratura da Nação.

Não quero vencer nas urnas porque os meus competidores sejam ineptos ou indignos. Quero vencer sim, mas se o povo julgar que o meu passado de administrador me habilita ao exercício do mandato maior. Quero vencer, sim, mas se o povo achar que as soluções por mim preconizadas, para os problemas nacionais, sobrelevam as dos outros candidatos. Quero vencer, sim, mas por força dos valores positivos. Nunca, pela dos negativos.

Esta nação não precisa propor-se moratória moral, concordata política, falência de qualquer ordem ou natureza.

É uma grande Nação, tão afortunada nas suas riquezas morais, quanto no inesgotável patrimônio ético-espiritual da sua gente.

Fui injuriado, difamado e caluniado, nestes últimos meses. Sei que isto é da mecânica das democracias.

Deploro que não tenham sabido respeitar a honra do cidadão, as fronteiras sagradas do meu lar. É contingência a que se sujeitam todos os candidatos, na medida da educação política dos adversários.

Não a maldigo. Mal próprio do regime democrático, só é possível no amplo quadro das liberdades democráticas. Por mais amargos que sejam os percalços deste regime, eu o prefiro, tão estranhamente quanto possível ao cérebro e ao coração do homem, a qualquer outro já experimentado.

As amarguras pessoas, entretanto, estou certo de que não se depositarão como ressaibos perenes ao termo da porfia eleitoral. A alma sempre se refaz dos agravos que não merece.

Às vésperas do pleito, resta-me uma última energia para estas palavras a todo o País.

Confio em que o clima de garantias e respeito às liberdades não sofra atentados. A opinião pública já não os toleraria. Pelos seus órgãos de expressão, ela está vigilante.

Não tenho razões para descrer do papel que toca aos responsáveis pela ordem pública. Exprimo, ao mesmo tempo, a minha confiança nas Forças Armadas, conscientes do papel que lhes compete.

Quero crer que o povo compareça às urnas sem sombra de ameaça ao sagrado dever cívico que lhe toca neste momento.

Pela pureza do rito institucional responderá a Justiça Eleitoral, que honra os nossos foros de País civilizado.

Sei que, mais uma vez, a soberania popular livremente expressa, me convocará, dentro em pouco, para o exercício de árdua missão. Estou consciente da responsabilidade do alto mandato que a vontade da nação me entregará. Mais uma vez, espero em Deus que não a decepcionarei.

O que me preocupa e inquieta, nesta hora undécima dos nossos comícios é a ajudácia, que alguns ousaram de atirar estados federados uns contra outros, na caça de sufrágios fugidios.

Por que fazê-lo?

Por que intrigar províncias irmãs?

Acaso o milagre da unidade nacional não é mais importante do que as nossas modestas personalidades?

Não quero, porém, converter esta festa que confraterniza a crítica e a ação numa crítica à ação dos meus adversários.

As urnas e o futuro nos julgarão, a eles e a mim.

O que quero, ao cabo destas singelas confidências, é exortá-los a acreditar no Brasil e nos brasileiros, recordados de que a Pátria é eterna e nós, os indivíduos, somos transitórios."



(*)é professor universitário, jornalista e escritor






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