Cassilândia, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

Últimas Notícias

17/06/2009 07:21

Nelson Valente: brasileiro está ficando oco !

Nelson Valente*


O assunto é recorrente e retorna, quando estamos às voltas com a revolução da educação, discutindo sua gênese e os seus objetivos. Na educação superior, uma das provas mais importantes e decisivas do exame vestibular é a redação, primeira manifestação dos educadores no sentido de acabar com a prevalência das provas totalmente baseadas na múltipla escolha ( as famigeradas cruzinhas).

A conclusão é óbvia: sem leitura, como escrever adequadamente? O primeiro passo é mesmo a entrega de voluptuosa aos livros, sobretudo os nossos clássicos, sem esquecer os jornais e revistas também podem ser fundamentais.

Criar o hábito ( ou gosto) pela leitura é um primeiro passo que depende basicamente de pais e professores. Há uma idade para isso, que infelizmente para os calouros não coincide com os seus 17 ou 18 anos. Começa antes, na altura ainda do ensino fundamental. Depois, é só alimentar a cabeça de bons produtos, a fim de que persista o interesse.

No vestibular, em geral, caem temas da atualidade. O penta do Brasil no futebol, as forças armadas no combate ao crime, o avanço da Aids, os salários dos professores, a busca da profissão ou a esperança que cerca a vinda de um novo presidente da República. Quem estiver devidamente preparado, com a base que é fornecido por uma leitura constante, não terá dificuldade de desenvolver o tema da prova. Terá desenvoltura e – o que é mais importante – uma riqueza vocabular essencial. A capacidade de expressão vem daí.

Uma saudável epidemia tomou conta da imprensa brasileira. Os grandes jornais publicam alentadas seções de valorização da língua portuguesa, que alguns até ajudam a abastardar com sua crônica e indesculpável falta de cuidado. Quando sai na manchete do jornal que “Ronaldo marca gol de placa em Santos”, não há quem se choque com o lamentável cacófato antes que a página seja definitiva impressa?

Em primeiro lugar, pode-se registrar o fato, facilmente comprovável, de que nunca se escreveu e falou tão mal o idioma de Ruy Barbosa e Jânio Quadros. Culpa, quem sabe, da deterioração do nosso sistema de educação básica. Em segundo, o pouco apreço que devotamos ao gosto pela leitura. Em terceiro lugar, para não ir muito longe, podemos citar a “contribuição” dos meios televisivos. Donos de uma força descomunal, salvo as exceções de praxe, como os programas gerados pela TV Cultura de São Paulo, praticam um magistral desserviço à educação brasileira. Comunicadores falam mal, atores não se expressam adequadamente, dublagens são feitas de forma chula, programas infantis deseducam - o que se pode esperar desse triste universo. Sabe-se que temos hoje 19 milhões de analfabetos, 20 milhões de semi-analfabetos e 40 milhões de analfabetos funcionais – o iletrismo ( são aqueles que aprenderam a ler e não leem) . Pela definição da Unesco, “iletrado pode ser o que aprendeu a ler e a escrever, mas perdeu a prática, ao ponto de não poder mais compreender um texto simples relacionado à sua vida cotidiana”. É o fenômeno do iletrismo, que se distingue do analfabetismo, que é a não-aprendizagem da leitura e da escrita.Que se lê pouco , em nosso País, não há menor dúvida. Nossa média é de menos de dois livros por habitante. Nos países desenvolvidos é de 6 ou 7, como acontece na França e na Alemanha. Temos uma longa caminhada nessa área, até chegar, por exemplo, perto do que ocorre nos Estados Unidos, onde o consumo “per capita” de livros é de 10 por ano. Será que um dia chegaremos lá ? O curioso é que, vez por outra, aparece algum vereador interessado em ensinar às nossas crianças a biografia dos homenageados, o que, aliás, é uma boa idéia. Pelo menos um resumo poderia ser colocado na primeira placa de rua. Se isso é de grande utilidade, mais importante ainda é escrever os nomes de maneira correta. Respeitar a nossa língua é uma forma de fazer educação. Concluindo, o brasileiro está oco. Não é só a idéia da religião, da crença em Deus ou em determinada igreja. Mas está ligado ao pensamento abstrato, à filosofia, ao homem pensando em sua sorte, de onde veio, para onde vai. Essa carência prejudica a cultura geral do indivíduo, porque o homem é essencialmente linguagem. O brasileiro está oco com a língua portuguesa. Se o jovem não se der bem no vestibular, não há de ser nada. De toda maneira, terá lido alguns dos nossos melhores livros. O que é sempre saudáve Portanto, há um enorme desafio para reverter esse quadro, exigindo maior atenção das pessoas responsáveis deste País.





(*) é professor universitário, jornalista e escritor



O Cassilândianews não se responsabiliza por artigos assinados

Envie seu Comentário
Os comentários feitos no Cassilândia News são moderados. Antes de escrever, observe as regras e seja criterioso ao expressar sua opinião. Não serão publicados comentários nas seguintes situações:

1. Sem o remetente identificado com nome, sobrenome e e-mail válido. Codinomes não serão aceitos.
2. Que não tenham relação clara com o conteúdo noticiado.
3. Que tenham teor calunioso, difamatório, injurioso, racista, de incitação à violência ou a qualquer ilegalidade.
4. Que tenham conteúdo que possa ser interpretado como de caráter preconceituoso ou discriminatório a pessoa ou grupo de pessoas.
5. Que contenham linguagem grosseira, obscena e/ou pornográfica.
6. Que transpareçam cunho comercial ou ainda que sejam pertencentes a correntes de qualquer espécie.
7. Que tenham característica de prática de spam.

O Cassilândia News não se responsabiliza pelos comentários dos internautas e se reserva o direito de, a qualquer tempo, e a seu exclusivo critério, retirar qualquer comentário que possa ser considerado contrário às regras definidas acima.
Restamcaracteres.
 
Últimas notícias
Scroller Top
Sexta, 09 de Dezembro de 2016
Quinta, 08 de Dezembro de 2016
Scroller Bottom

  • Idalus Internet Solutions
  • TOP DataCenter e Internet
  • Disponível na AppStore
  • Disponível no Google Play
Rua Sebastião Leal, 845, CEP: 79.540-000, Cassilândia (MS)