Cassilândia, Segunda-feira, 05 de Dezembro de 2016

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03/11/2014 07:33

Na fachada cheia de espelhos o povo paga mico; até parece exibição no Facebook

Campo Grande News
Quem resiste a uma fachada espelhada? (Foto: Marcos Ermínio)Quem resiste a uma fachada espelhada? (Foto: Marcos Ermínio)

Recepcionista de uma clínica médica em Campo Grande, Érica Almeida, de 26 anos, já perdeu as contas de quantas vezes presenciou cenas estranhas enquanto trabalha. O prédio onde ela fica tem a fachada espelhada e, por isso, todo santo dia tem gente que passa e aproveita para olhar o cabelo, a roupa, fazer selfie com direito a biquinho e até, acredite, espremer espinhas.

“Você vê cada coisa. É gente arrumando o cabelo, fazendo maquiagem, olhando tudo”, conta. “É todo dia, o tempo todo”, comenta a amiga, Edna Virgílio, de 30 anos, que está na mesma função. “Tiram selfie, passam batom, olham a bunda. Os pacientes ficam rindo”, completa.

Talita Magalhães, 24 anos, outra recepcionista da clínica, diz que tem gente que vai mais próximo da fachada só para fazer biquinho “como se estivesse no espelho do banheiro de casa”. “É engraçado”. Mas é, também, um show de horrores, concluem as três.

O problema não é exclusivo desse prédio. No Centro, o segurança de um cartório, Valdineis Pereira, de 36 anos, presencia as mesmas cenas por trás da porta com vidro espelhado, mas quando vê mulher se arrumando acha é bom.

“Elas passam a mão no cabelo, se arrumam e nem percebem. A gente olha, né? Fazer o que? Não é bom. É ótimo”, diz.

Na mesma rua, perto dele, em uma agência da Caixa Econômica Federal, o povo se encara sem dó na fachada que é espelhada de alto a baixo. Cinco minutos parado é tempo suficiente para flagrar vários “narcisos” secando a própria imagem.

A vendedora de uma loja de calçados ao lado, Tanielly Rodrigues, de 18 anos, confirma que, de fato, a prática é frequente. “Acontece muito. Esses dias estava até comentando com minha amiga que não tem um que não passa em uma loja com vidro espelhado que não se olha. Todo mundo faz isso para ver se está bonito, se o cabelo está espantado... Eu mesma faço isso”.

A dona de casa Liliana Colman, de 29 anos, também. “Eu olho para ver se tô legal, feia e tal”, brinca. A operadora de caixa Patrícia Baltazar, de 28 anos, é outra adepta da “olhadinha rabo de olho” no reflexo. “A gente gosta de se ver, se tá legal o cabelo, o corpo e se a roupa está combinando”, explica.

A cuidadora de idosos Idenir Ferreira, de 49 anos, usa a mesma estratégia e justifica: “O que que tem? Não estou fazendo nada de errado”.

Não está mesmo. O problema é que quem faz isso não percebe, na maioria das vezes, que está sendo observado por uma plateia.

Como no Facebook - É que o vidro de fora reflete a própria imagem, mas quem fica do lado de dentro vê a “performance” em detalhes.

É como no Facebook, onde o povo se mostra demasiadamente, escreve o que vem à cabeça e esquece que, do outro lado da rede, na outra ponta, tem gente observando, admirando ou achando o feito uma grande idiotice.

É uma exposição às cegas. Quem traça esse paralelo é a psicóloga Adriane Cristina Lobo. Isso mostra, segundo ela, a dificuldade de percepção do outro, porque a prioridade é o próprio desejo e a própria imagem. “A pessoa se perde dentro dela mesma e esquece ou nem percebe o mundo ao seu redor”, explica.

Se falando apenas de Facebook, ela afirma que tudo o que é demais prejudica e cita que, na rede, o indivíduo pode ser “super”: “super amigos/inimigos, felizes/infelizes, elegantes, lindos, sociáveis e amados/odiados”.

Na interpretação dela, o que leva uma pessoa à superexposições de idéias, corpos, sentimentos, críticas e declarações é a necessidade de sentir-se importante, amada, acolhida e reconhecida pelos outros.

Adriane cita, ainda, o Mito de Narciso e diz que, “quando observado pelo ângulo da necessidade de ser o que centro atrações e das idealizações formadas através de uma imagem”, a estória faz todo o sentido.

“Essa necessidade de reconhecimento faz com que a vida pessoal se transforme em um grande show, onde se constroem personagens bons e maus, onde pode-se manter relacionamentos da forma como desejar e uma imagem também de como pretende ser visto”, pontua.

O fato de não existir contato físico, real, olho no olho, completa, faz com que determinadas pessoas sintam-se mais seguras para expor suas ideias, algumas vezes de forma mais agressiva, ou mais romântica e sensual. “Algumas até utilizam do anonimato e de algumas possibilidades da rede para transformarem-se em personagens corajosos e destemidos”.

As consequências negativas de tudo isso vão da perda da intimidade e reducação do valor de relacionamento à perda de oportunidade de emprego. “Não tem como controlar as pessoas do outro lado. Impossível saber como os outros, e quem são esses outros, vão observar, absorver, compreender, acatar e reagir diante de qualquer exposição. É preciso ter cuidados e critérios”, alerta.

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