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18/08/2015 11:00

Moda das hipercoxas pode fazer mal à saúde; nem fisioculturistas aprovam

Saúde Plena

Chamada de mulher-perereca recentemente por Luiza Brunet, uma nova figura feminina está se tornando cada vez mais comum nas academias, praias, revistas e programas de televisão brasileiros: coxas e nádegas hipertrofiadas, cintura bem fininha e músculos definidos. Na maioria das vezes, de forma desproporcional. Defensoras exemplares da silhueta, como a ex-panicat Juju Salimeni, se saíram com o argumento de que existe um preconceito contra o 'culto ao corpo'.

Muita gente discorda. A body builder Márcia Gonçalves, é adepta, sim, do culto ao corpo – ou fisioculturismo, hoje mais conhecido como body building – mas de forma harmoniosa, equilibrada e saudável. Além de atleta, Márcia é educadora física e personal trainer. Atualmente, ela é bicampeã na categoria Miss Biquíni – a mais feminina do fisioculturismo. “Nos campeonatos, os critérios incluem a simetria, o tônus muscular, a proporcionalidade, os cabelos, a pele e a feminilidade. Não adianta ter coxas super malhadas, se o tronco não acompanha. Um corpo super forte embaixo deveria ser super forte em cima também, ou seja, uma super-mulher, o que é irreal”, explica.

O fisioterapeuta especializado em reabilitação ortopédica e esportiva Felipe Moraes chama a atenção para os riscos do aumento indiscriminado da carga durante os treinos. “É comum pacientes com lesões causadas pela realização inadequada da atividade física e da sobrecarga no sistema músculo-esquelético. As lesões mais comuns atingem tendões e ligamentos, mas podem chegar até a fraturas por estresse”, alerta.

Qual a sua opinião sobre a moda das hipercoxas?

A busca pelo resultado rápido é o que muitas vezes motiva a sobrecarga e o aumento exagerado da intensidade - mais preocupadas com o presente, as moças apostam no que veem no espelho, e não nos riscos.

Muitas não percebem quando passam dos limites e se esquecem de que, como os músculos protegem ossos e articulações, é importante variar a carga aplicada, sob pena de lesionar a coluna. “O que acontece é que algumas pessoas começam a ter uma sequência pesada de treinos e acham que são atletas. Mas não fazem controle do sono e acompanhamento multidisciplinar e às vezes nem abandonam o cigarro e a bebida”, afirma o educador físico Henrique Castro, coordenador da Academia Malhação Belvedere.

Acompanhamento multidisciplinar x “maria-vai-com-as-outras”

A dedicação para alcançar o físico desejado por Márcia é imensa. O treinamento inclui atividades aeróbicas e exercícios funcionais, que proporcionam corpo desenhado, com menos hipertrofia. O ciclo de treinamento da atleta é acompanhado por uma equipe formada por nutricionista, nutrólogo, treinador e psicólogo. Em uma fase, ela privilegia alimentação com carboidratos e treino físico mais pesado; na outra, aumenta o peso da proteína na alimentação e a atividade aeróbica. Doces estão fora do cardápio, que destaca verduras e legumes.

Como as frutas também sofrem restrições, Márcia compensa a perda com um suplemento vitamínico. Além disso, consome muito líquido, porque a dieta restritiva oferece riscos à função renal. Outra medida importante é a monitoração dos níveis hormonais, para manter o organismo feminino em equilíbrio. “Como é uma rotina exaustiva, que chega próxima aos limites do corpo, o acompanhamento é constante. O problema é que algumas meninas pegam pesado sem serem atletas, só porque viram no Google, no Youtube, na revista, ou ainda: 'minha amiga está fazendo esse treino'. É comum ver pessoas com semblante envelhecido devido ao excesso, e isso não é saudável. Nem nas competições é aceito”, pondera a body builder.

Com apenas 8% de gordura, a própria Márcia diz que está fora do padrão - uma mulher com até 20% pode estar em ótima forma, dependendo da estrutura corporal. “Para ser saudável, não é recomendado uma mulher ter menos de 15% de gordura no corpo. Esse é um parâmetro fisiológico. É claro que muitas atletas superam essa marca, mas podem sofrer alterações hormonais e no ciclo menstrual. Daí a necessidade do acompanhamento”, explica Henrique.

Henrique Castro, da Academia Malhação: "as pessoas começam a ter uma sequência pesada de treinos e acham que são atletas. Acontece muito de mulheres pegarem revistas com treinos de famosas e reproduzirem da mesma maneira. Isso é um erro, visto que a individualidade biológica, princípio da sobrecarga e nível de treinabilidade têm de ser respeitados"

O especialista alerta para o overtraining, ou seja, as complicações resultantes do excesso de esforço e da falta de descanso. “Treino pesado e tempo de recuperação insuficientes podem surtir efeitos contrários aos desejados”, afirma Henrique. “Acontece muito de mulheres pegarem revistas com treinos de famosas e reproduzirem. Isso é um erro, visto que a individualidade biológica, princípio da sobrecarga e nível de treinabilidade têm de ser respeitados. Resumindo, as pessoas têm que ter em mente que cada um é de um jeito, cada um tem um nível de evolução, e cada um suporta uma carga - mesmo que ela aumente gradativamente. Tudo para evitar lesões e, assim, alcançar o objetivo desejado”, define Henrique.

O trabalho deve ser personalizado e baseado na evolução de cada um. E não na comparação com outra pessoa. “É muito importante periodizar o treinamento. Muitas vezes, traçamos um plano de exercícios para o aluno, que o segue por apenas três meses e depois para. Aquele planejamento inicial já foi para o espaço”, ensina o profissional de educação física.

As fibras musculares também carregam características de cada indivíduo. “O número e o tipo de fibras variam entre homens e mulheres, entre negros e brancos. Cada pessoa tem potência e capacidade de explosão musculares diferentes. O biotipo sempre deve ser considerado em qualquer modalidade, seja para os 100 metros rasos, para a natação de alto nível ou para quem busca uma academia para obter mais qualidade de vida e melhoria estética”, completa Felipe. “Aumentar a carga indiscriminadamente pode fazer parecer que o objetivo vai ser alcançado mais rápido, mas pensando a longo prazo não vale a pena. Isso pode implicar lesões crônicas e algumas doenças degenerativas”, recomenda o fisioterapeuta.

Tudo errado

Até a suplementação alimentar e o consumo elevado de proteína, se feitos sem supervisão, podem levar a complicações e até à morte. “Dependendo da atividade física realizada, nem sempre é necessária a suplementação.

Melhor ter uma alimentação saudável. E um educador físico, sozinho, não deve controlar isso”, afirma Márcia. “Nosso corpo pode ser modificado de acordo com o objetivo desejado. Mas é necessário respeitar o biotipo e a harmonia corporal”, resume a fisioculturista.

Como nem sempre esse respeito existe, os problemas podem se tornar bem mais graves. Uma pessoa alta e de corpo esguio, por exemplo, não conseguirá hipertrofiar os músculos tanto quanto uma baixinha e mais “parruda”. Na opinião de Henrique, alguns dos resultados mais impressionantes, estampados nas revistas e sites de celebridades, não podem ser obtidos apenas com exercícios e dieta, sem uso de anabolizantes e outras substâncias ilegais.

Agressividade, depressão, insuficiência hepática, desencadeamento de câncer e masculinização são apenas alguns dos efeitos colaterais. “Os riscos são altíssimos e quase sempre o profissional não é informado sobre a susbtância usada, para que possa advertir e orientar o aluno. Mesmo o excesso de proteína pode levar à sobrecarga renal e hepática.

Qualquer resultado duradouro deve levar em conta a alimentação como um todo, e não só a proteína”, pondera Henrique.

Mesmo fazendo tudo errado, a pessoa pode, com sorte, até alcançar algum resultado. Mas sem saúde. Por outro lado, se o treino for feito de forma correta, o resultado é sustentável e permite que a pessoa se exercite até a velhice. “É necessário ter sempre em mente a individualidade biológica. O resultado imediato não pode ser o foco e a fonte de informação não pode ser qualquer uma. Seria como pedir a um dentista que fizesse um implante de silicone”, brinca Márcia.

Como personal trainer, ela já atendeu casos de mulheres que privilegiavam as pernas no treinamento, sem atentar para a coluna vertebral ou a musculatura abdominal. “A pessoa vai empolgando, começa a ver resultados rápidos, mas no futuro pode ter uma hérnia ou uma lesão no joelho. Se, com acompanhamento profissional, o risco já existe, imagine sem orientação”, defende ela. Henrique observa também que, quando uma aluna diz se espelhar em uma panicat, o foco está muito longe da saúde, e até mesmo da boa forma. “É uma vontade de mostrar para os outros que está bem, ainda que não esteja legal por dentro. E isso não é exclusividade das mulheres. Os homens também se espelham nos gostosões das novelas e filmes”, define.

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