Cassilândia, Quinta-feira, 08 de Dezembro de 2016

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24/05/2005 16:34

Médicos têm dificuldade em comunicar óbito à família

Agência Notisa

A despeito dos cuidados médicos, alguém muito próximo de você acaba de falecer — sua mãe, seu irmão ou filho. Bata três vezes na madeira e responda: como você gostaria de receber essa notícia? Agora, coloque-se na situação oposta: se fosse o médico, como comunicaria o óbito aos familiares? Interessados em quantificar a freqüência e os tipos de problemas que ocorrem nessas circunstâncias, pesquisadores da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) ouviram as críticas e dificuldades de ambos os lados – profissional e paciente – e chegaram a uma conclusão inusitada: ao longo de sua formação acadêmica, o acadêmico de medicina não é bem preparado para lidar com a morte.

“Apenas 18,9% dos profissionais consideram a formação acadêmica sobre o assunto adequada”, afirmam os pesquisadores em artigo publicado na Revista da Associação Médica Brasileira (v. 51, nº 1). "Na faculdade existe pouca abordagem do tema, pouca ênfase. Não se fala como abordar a família, como comunicar (o falecimento). Aprende-se na prática", afirmou um médico entrevistado durante o estudo. Segundo ele, como conseqüência "no começo você não quer dar a notícia, não se sente preparado. Pede para outro médico dar e aprende observando os outros". Os resultados da pesquisa vão ao encontro deste depoimento: apenas 7,5% (quatro) dos profissionais entrevistados não enfrentam dificuldades ao comunicar um óbito.

Os pacientes, por sua vez, relataram uma série de problemas: 26,4% não receberam nenhuma informação após o óbito e 12,1% dos familiares reprovaram a forma pela qual foram avisados do falecimento. Alguns relatos citados no artigo beiram o descaso: "Esperei 30 minutos e ninguém apareceu, queria saber sobre o óbito, as poucas informações que tive foi no necrotério", afirmou um entrevistado. "Estou há duas semanas procurando médicos para ter informações", reclamou outro familiar. De acordo com o artigo, as reclamações mais comuns eram informações superficiais, vagas, uso de linguagem médica ou de difícil compreensão e insegurança do profissional.

Entre as pessoas contatadas, a maioria foi avisada por telefone (74,7%), uma forma adequada por 78,8% desse grupo. “Quanto à forma de comunicação, informar o falecimento pelo telefone é a forma mais rápida e prática”, afirmam os pesquisadores. Entretanto, alguns familiares reclamaram deste tipo de comunicação e existem famílias que, inclusive, pedem para o hospital não ligar. “Não se dá uma notícia deste jeito, numa ligação seca”, afirmou aos pesquisadores um familiar durante entrevista. No estudo, 20,6% receberam a notícia do óbito pessoalmente, dentre os quais 96,5% consideraram a conduta mais adequada, mas 4,7% (cinco) descobriram por acaso ao ir visitar seu parente internado.

No total, os pesquisadores entrevistaram familiares de 121 pacientes (pouco mais de 10% de um total de 957 óbitos), que faleceram entre agosto de 2001 e março de 2002 nas clínicas e serviços do Hospital da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. O contato, em geral, foi feito por telefone no mínimo três dias após o óbito. Quanto aos profissionais que comunicaram esses óbitos, só foi possível o contato com 58 (47,9%). “Mesmo recorrendo ao atestado de óbito, 25% dos profissionais não foram localizados pois, nestes casos, quem assinou não foi o mesmo profissional que conversou com a família”, explicam no texto.

Entre o grupo de médicos entrevistados, as situações apontadas como mais difíceis de serem conversadas com a família são, principalmente, casos de paciente jovens (43,4%), morte por quadro agudo (56,6%) e quando a família não entende o caso (17%). “Por isso deve-se deixar sempre a situação clara, principalmente em casos de pacientes jovens, agudos e mais carentes", afirmou um dos contatados.

Na opinião de Alberto Starzeki Júnior e sua equipe, responsáveis pelo estudo, a deficiência no ensino se reflete diretamente na forma de lidar com os familiares. “Quando o treinamento focaliza-se quase que inteiramente no controle e erradicação da doença, à custa do atendimento e conforto da pessoa portadora da enfermidade, a morte transforma-se em inimiga a ser enfrentada. Em outras palavras, a morte pode equacionar-se com fracasso e podem, assim, refletir a inadequação e limitações do médico", lamentam.

Para os autores do artigo, é fundamental que se fale da morte e do morrer com mais freqüência (com sentido positivo e não trágico). Seminários e grupos de discussão, por exemplo, poderiam colaborar na mudança deste quadro. “A formação, que é vista como inadequada pelos profissionais, sendo mais humanística e filosófica nas faculdades, abrangendo todas as etapas da graduação, modificará a atitude do profissional frente a essa situação e poderá dar-lhe segurança e delicadeza para consolar aqueles que se separaram de seu ente querido”, concluem no artigo.

Agência Notisa (jornalismo científico - science journalism)

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