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05/05/2006 07:39

Médico e jornalista falam sobre ética na pesquisa

Agência Notisa

Conforme programação anunciada pela organização do 2º Seminário Nacional de Integração Médico/Mídia, que está sendo realizada no Rio de Janeiro, a palestra da tarde teve como tema central “A bioética e as pesquisas com seres humanos”. A mesa, liderada pelo presidente da Federação Nacional de Medicina (Fenam), Héder Murari Borba, médico urologista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFGO), também contou com a presença da jornalista Vanessa Leão Pedrozo, formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), e com o médico sanitarista José Hermógenes, formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e mediador do evento. Durante a exposição de pouco menos de uma hora, foram discutidos os limites da pesquisa científica no Brasil e no mundo e o comprometimento da imprensa em divulgar exemplos de ética científica.



Normas e conveções


Héder Murari começou com a discussão fazendo exposição baseada no artigo “Técnica e responsabilidade: reflexões sobre as novas tarefas da ética”, do pensador alemão Hans Jonas. Delineou convenções importantes acerca da bioética, salientando conceitos como autonomia, justiça, não-maleficência e beneficência, além de citar acordos como o Código de Nuremberg e a Declaração de Helsique, que regulamentam os limites da ética profissional mundialmente. Dessa forma frisou a vitória brasileira ao aprovar, através da Resolução 196, em 1996, as bases éticas da pesquisa científica, defendendo idéias como garantia de acesso de todos os pesquisados aos resultados obtidos pelo estudo, além da existência de outras alternativas a estudos duplo-cegos, isto é, com grupo de controle e placebo.


Contra a remuneração das pessoas que são pesquisadas


Nesse ponto, salientou a vulnerabilidade do objeto pesquisado, condenando a prática freqüente de pesquisadores de pagar ao futuro pesquisado pela submissão à prática da pesquisa científica. “Esse procedimento admite a determinação de vulnerabilidade dos pesquisados, ferindo também o princípio ético da autonomia”, disse, dando especial ênfase ao Brasil, em que grande parte da população poderia ferir princípios éticos pelos baixos índices socioeconômicos.



Ao final de sua palestra, atentou ao público sobre o princípio bioético da acessibilidade, voltando a condenar a elitização da pesquisa científica mundial e colocando como exemplo o acesso restrito a medicamentos, o que considera um verdadeiro desrespeito aos preceitos éticos científicos. Em torno de “90% dos recursos usados em pesquisa corresponde a apenas 10% das doenças que acometem a maioria da população mundial”, revelou.



O mediador José Hermógenes comentou a questão do consentimento livre e esclarecido dos voluntários à pesquisa, deixando perguntas no ar: “no Brasil isso é respeitado? O indivíduo realmente não é pago? É bem esclarecido?”. O sanitarista ainda indicou que os preceitos éticos no Brasil são pertinentes, mas admitiu que existem dúvidas de que são de fato respeitados.



Responsabilidade da mídia


Vanessa Pedrozo apontou erros freqüentes no jornalismo científico praticado no Brasil, especialmente aquele ligado à saúde. Segundo ela, há muito mais preocupação com a novidade das novas descobertas do que com sua aplicabilidade clínica. “Isso acaba confundindo o público leigo, que pensa que certas descobertas ainda no nível da pesquisa tornaram-se de repente a solução de seus problemas”, disse, complementando que “o jornalista deve tomar cuidado para não suscitar esse tipo de dúvida no leitor”.



Vanessa estabeleceu um paralelo entre as profissões de jornalista e de médico, afirmando que ambos devem ter a preocupação de tornar acessível para leigos a importância do desenvolvimento científico, bem como seus diversos procedimentos. Essa responsabilidade, para ela, situa-se não somente na relação do médico com o jornalista como fonte, mas também pela característica de ambos serem profissionais de grande acesso ao público. “A missão ética no jornalismo científico de saúde também deve ter tanta preocupação com a divulgação quanto com a aplicabilidade”, afirmou, em analogia aos procedimentos éticos da pesquisa científica.

Agência Notisa (jornalismo científico - science journalism)

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