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27/04/2006 07:57

Medicina: Sangradores eram escravos, em sua maioria

Agência Notisa

O segundo e último dia do I Simpósio de História da Medicina e Cirurgia do Rio de janeiro romovido pela Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro (SMCRJ) teve início às 8h 30 min com a apresentação da mesa-redonda “Ensino e Desenvolvimento da Cirurgia”. Sobre a presidência de Pietro Novellino e coordenação de Maria Rachel Fróes da Fonseca, os professores Augusto aulino Neto, Tânia Salgado e Diana Maul de Carvalho discorreram sobre a prática, o ensino da cirurgia e o estabelecimento das faculdades de medicina no Brasil.


Curso médico

Iniciando o evento, Diana Maul de Carvalho, professora do Laboratório de História, Saúde e Sociedade da Faculdade de Medicina da UFRJ, apresentou o trabalho “O Ensino da Cirurgia na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro: a Academia Médico-Cirúrgica”. A professora partiu de 1772, data em que se deu a reforma do ensino médico em Coimbra, Portugal. Neste período as disciplinas de anatomia e anatomopatologia foram diferenciadas. Mas o que se via na prática era uma confusão entre “o ensino de anatomia e cirurgia”, disse ela.



Naquela época, de acordo com Diana, várias tecnologias foram implementadas e incorporadas à medicina, as próprias medidas de anti-sepsia permitiram uma evolução considerável da prática médica, que mantinham, no entanto, uma grande limitação, que só foi superada no século 19 com o surgimento da anestesia.



Entretanto, essa fase de avanço da medicina de Portugal sofreu, de acordo com a professora, um declínio sensível, quando a Corte se mudou para o Brasil, país que, ao contrário, obteve vantagens neste sentido. Isto porque, com a mudança, houve uma preocupação em modernizar a colônia em diversas áreas do conhecimento e na medicina não foi diferente. “Tanto que o rei D. João VI inaugurou no Rio de Janeiro e na Bahia os primeiros cursos médicos do Brasil”, disse.



Segundo Diana, alguns personagens destacaram-se nesta fase de implantação dos cursos médicos. Ela destacou José Correia Picanço, brasileiro nascido em Pernambuco que estudou medicina em Portugal e retornou ao Brasil em 1807 com a Corte. Entretanto, “há controvérsias obre as formas de atuação desse personagem na história, mas, de qualquer forma, ele acabou ficando conhecido como ‘instalador dos cursos cirúrgicos’”, disse.



O curso médico foi sofrendo alterações ao longo da história. Segundo Diana Maul, em 1808, data de sua regulamentação, ele era composto por quatro anos de formação, e depois passou por reformas como a de 1813 conhecida como “Bom Será”, na qual foi estendido para cinco anos. Outra reforma foi a de 1832 que criou a Faculdade de Medicina, ampliou o curso médico para seis anos, regulamentou cursos como o de Farmácia e a atividade de parteira, além de suprimir o título de “sangrador”.



O que Diana destaca como marcante ao longo desta evolução é a “prática múltipla da medicina, firmando uma tradição cirúrgica nacional”. O médico teve, nesta época, uma formação ampla que, segundo a professora, permitiu a “prática plural da medicina”. O trabalho apresentado por ela é baseado em análises historiográficas de documentos e está em andamento, uma vez que documentos têm sido recuperados. Mas a professora ressalta que a dificuldade de dados acaba restringindo as pesquisas e fazendo com o que o conhecimento sobre a o início da prática médico-cirúrgica seja ainda, pequeno.



Cirurgia



O professor Augusto Paulino Netto, que foi presidente da Academia Nacional de Medicina, apresentou o tema “Cem Anos de Cirurgia em uma Família”. Ele demonstrou, através do exemplo da sua família, como se deu a evolução das práticas cirúrgicas no Brasil. Para mostrar a importância da sangria, prática hoje condenada, ele cita que em 1808 o renomado médico José Antonio Soares, mineiro que estudou medicina em Paris, apresentou a tese intitulada “Por que sangrar nas febres?”, trabalho que foi muito apreciado.



De acordo com o professor, a família Paulino foi pioneira em diversas práticas médicas, com seu avô realizando, em 1902, a primeira operação de apendicite aguda e sendo também pioneiro na neurocirurgia no Brasil. Seu tio, Fernando Paulino, também foi pioneiro na cirurgia de tórax, em uma época que não havia intubação orotraqueal. Ele também foi responsável pela criação da Casa de Saúde São Miguel que durantes anos foi reconhecida como referência em medicina.



O professor destacou a importância de o cirurgião conhecer a prática clínica, e enfatizou que “não se pode operar a doença e sim o doente”. E acrescentou que “é preciso haver carinho, cuidado por parte do médico com o paciente, pois, para que existam hospitais, é preciso antes de tudo que haja doentes, e depois o médico”.



Barbeiros, médicos e sanguessugas



Encerrando a mesa redonda, a professora Tania Salgado Pimenta, historiadora da UFBA, transcorreu sobre o tema “Dos Barbeiros aos Cirurgiões” abordando as transformações pelas quais passaram as práticas de cura na primeira metade do século 19. Ela lembrou que a Fisicatura mor, extinta em 1828, foi, durante muito tempo, a instituição que regulamentava e emitia licenças para médico, cirurgiões, sangradores, parteiras, curandeiros e outros. Por esta entidade, os cirurgiões estavam, na realidade, muito próximos dos barbeiros, pois ambos eram definidos como profissionais que cuidavam da parte externa do paciente,sendo, entretanto, os médicos os profissionais que cuidavam da parte interna do doente. Essa realidade era causadora de desavenças, pois, de acordo com a professora, “havia uma minimização da atividade de sangrador, e o cirurgião buscava sempre se afastar desse segmento e se aproximar dos médicos”. Essa situação de certo desprezo com relação ao sangrador, é segundo Tânia Salgado, explicada também pelo fato de que a maioria desse segmento – quase 80% dos profissionais – era composta por escravos e forros.



De acordo com a professora a forma como era realizada a sangria não é totalmente esclarecida, mas se sabe que havia o uso, por exemplo, de sanguessugas e ventosas. Com o fim da Fisicatura mor, a atividade de “sangrador” deixou de ser titulada. E a partir da década de 30, houve uma tentativa de desqualificar o ofício. Os médicos consideravam práticas muito arriscadas para serem desenvolvidas por pessoas sem preparo, mas, ao mesmo tempo, não queriam dedicar-se à prática, achando-a “menor”. Mas, segundo Tânia, a “sangria” ainda foi praticada por muitos anos, e os principais agentes “ficaram sendo os alunos de medicina que tinham que realizá-la sob a orientação dos professores”. O professor Augusto Paulino Neto lembrou ao final do evento que a sangria ainda é indicada para a hematose e as sanguessugas vêm sendo utilizadas novamente na Cirurgia Moderna na re-implantação de membros.



Agência Notisa (jornalismo científico - science journalism

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