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31/03/2006 09:06

Língua portuguesa, inculta e bela, por Alcides Silva

Alcides Silva

Língua portuguesa, inculta e bela

Alcides Silva

Concordância ideológica II

Falei na semana passada que na construção das frases, uma palavra nem sempre concorda com aquela que deveria fazê-lo gramaticalmente, mas com a idéia ou sentido que o termo traduz. Quando isso ocorre, dá-se uma figura de sintaxe – construção gramatical em que a rigidez do raciocínio lógico (concordância lógico-formal) é substituída (ou atenuada) pela intervenção do fator psicológico. Exemplifiquei com os dizeres de uma antiga propaganda ouvida nas rádios de minha infância: “Um milhão de lavadeiras afirmam que o sabão Minerva é o que lava mais”, dizendo que esse “um milhão afirmam” é uma silepse de número (a concordância se faz segundo o sentido e não com a forma gramatical), porque a palavra milhão tem implícita uma idéia de quantidade plúrima: mil milhares.
Etimologicamente, o termo silepse (do grego, ação de tomar juntamente) deveria referir-se exclusivamente à concordância de número, porém, com o tempo passou a ser aplicado também nas concordâncias figuradas de gênero e de pessoa.
Comentada na semana passada a concordância de número, resta-nos, agora, dizer das
Silepse de gênero:
“Chapadão do Sul (nome masculino) é acolhedora” (adjetivo feminino);
“Vossa Senhoria (forma gramatical feminina) é bondoso (predicativo masculino)”; “Ele é um criança”.
Silepse de pessoa:
Três são as pessoas verbais: 1ª pessoa, a que fala – e corresponde aos pronomes pessoais eu e nós; 2ª pessoa – com quem se fala – tu e vós; 3ª pessoa – de quem se fala – ele, ela e eles, elas.
“Os brasileiros somos sentimentais”;
“Os dois íamos cantando estrada afora” (a pessoa que fala ou escreve se inclui sujeito enunciado por outra pessoa verbal).
“Os dois ora estais amando, ou brigando” (a pessoa com quem se fala atrai o verbo).
No falar do dia-a-dia, tanto no Brasil como em Portugal, a palavra gente costuma levar o verbo para a 1ª pessoa do plural.
Na canção “Inútil”, da banda ‘Ultraje a Rigor’, há um verso que animava os comícios pela redemocratização do País, no “ Diretas, já”, dos anos 84/85. É o primeiro da quadra inicial, de uma canção que vale a pena relembrar:
“A gente não sabemos escolher presidente/ A gente não sabemos tomar conta da gente/ A gente não sabemos nem escovar os dente /Tem gringo pensando que nóis é indigente.
Inútil! /A gente somos inútil! Inútil! A gente somos inútil! /Inútil! /A gente somos inútil!Inútil! A gente somos inútil!
A gente faz carro e não sabe guiar /A gente faz trilho e não tem trem prá botar / A gente faz filho e não consegue criar / A gente pede grana e não consegue pagar / Inútil! /A gente somos inútil! /Inútil!
A gente faz música e não consegue gravar A gente escreve livro e não consegue publicari / A gente escreve peça e não consegue encenar / A gente joga bola e não consegue ganhar /Inútil /A gente somos inútil! /Inútil!...”.
De “O Trigo e o Joio”, publicado em 1954, romance de Fernando Namora, excelente escritor do neo-realismo português, foi extraído o seguinte exemplo:
“A gente precisa de mostrar às raparigas que não somos nenhuns miseráveis”.
E dando os trâmites por findos, como diria Vinícius, uma observação, quase advertência: só há silepse quando houver elegância e boa sonoridade na frase; do contrário, é solecismo, é erro, como em “Um grupo de estudantes fizeram a festa”.

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