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19/10/2006 12:14

Língua Portuguesa, inculta e bela, por Alcides Silva

Alcides Silva


Está na hora da onça beber água

Semana passada, em evento político na cidade de Guarulhos, Lula, antevendo vitória no 2º turno, disse que faltavam apenas “vinte dias pra oncinha beber água” (a propósito, ‘oncinha’ é o nome de uma cachaça popular).
Possivelmente você já leu frases como estas: “No caso de eles votarem, a favor do projeto...” – “Na eventualidade de o prefeito liberar a verba...”. Da mesma forma, você já deve ter ouvido essas mesmas frases com o “de eles” ou “de o” fundidos: “No caso deles votarem...” – “Na eventualidade do prefeito liberar a verba...”
Na linguagem coloquial, na fala do dia-a-dia, a contração da preposição com o artigo é uma variante lingüística que alguns gramáticos, como Adriano da Gama Coury, consideram válida: “Cheguei antes do banco abrir suas portas”. E é dessa maneira que se fala no Brasil.
Sabemos que há uma linguagem popular, oral, coloquial, condescendente com as regras gramaticais e uma outra, formal, escrita, culta, presa a conceitos lingüísticos preestabelecidos. O falar “entra para dentro” é bem diverso do “entre”, embora ambas as expressões estejam a formular um mesmo convite.
Vamos relembrar juntos: Votarem, libertar e estar são verbos no infinitivo. Qual o sujeito do infinitivo “votarem”? – “Eles”. De “liberar”? – “O prefeito”. De “beber”? “A onça”. Note que todos esses sujeitos estão precedidos de uma preposição (de + ele = dele; de + o = do; para + a = pra). É regra gramatical: a preposição não se funde com o sujeito do infinitivo. Mudemos os termos das orações tomadas como exemplos: “No caso de votarem eles a favor do projeto...” – “Na eventualidade de liberar o prefeito a verba”. Observe que com essa mudança, o sujeito ficou depois do verbo e a preposição de antes. Preposição é a palavra invariável que relaciona dois termos da oração, de tal maneira que o sentido do primeiro termo – antecedente – é explicado ou completado pelo segundo – conseqüente: (Casa de Pedro). Nos exemplos acima, a preposição de não está relacionando os termos antecedentes (respectivamente eventualidade e caso) aos termos conseqüentes (o prefeito e eles). Resumindo: não se pode fundir tal preposição com o pronome eles, do primeiro exemplo, e nem com o artigo o (de o prefeito), do último, porque estas palavras estão separadas da preposição. Lembre-se, a preposição une dois termos. No exemplo da oncinha não há mudança dos termos da oração.
Assim, em linguagem formal não podemos contrair a preposição com um artigo ou um pronome que antecedam o termo que funciona como sujeito do infinitivo.
Dito isso, a linguagem escrita nos padrões gramaticais vigentes seria “faltam vinte dias para a oncinha beber água”. Mas a sonoridade do falar brasileiro, este menos rígido que o lusitano, (note: falar brasileiro) tende a fundir o “de” com “ele”, com o “o” e com o “a” e o “para” com o “a”, a ponto de gramáticos de peso consideram válida essa contração.
O professor Pasquale Cipro Neto tem uma passagem que é a chave-de-ouro deste comentário: “Vale lembrar uma velha canção popular: “Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido um domingo para ir com a família ao Jardim Zoológico...” Reconheceu? “Ouro de tolo”, interpretada por Raul Seixas. Qual o sujeito do verbo ter? É “o Senhor” é claro. Pela lógica, a preposição “por”, que não faz parte do sujeito, não se funde com o artigo “o”. “Eu devia estar feliz por o Senhor ter me concedido...”. No padrão estritamente formal é assim. Mas que dá uma tremenda vontade de fundir “por” e “o” dá, ou não dá.
“Cá entre nós, aconselha o professor Pasquale, é muito melhor mudar a ordem: “Eu devia estar feliz por ter o Senhor me concedido um domingo...”. “ Não é para fugir do problema, não. É por clareza e elegância mesmo”.

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