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16/03/2007 14:26

Língua Portuguesa Inculta e Bela - Por Alcides Silva

Língua portuguesa, inculta e bela!
Alcides Silva
Jamais, sequer...

Tenho visto com certa freqüência o emprego do advérbio sequer com um valor negativo que sozinho ele ainda não representa. Sequer tem o significado de nem mesmo, ao menos, pelo menos e, por isso, deve vir acompanhado de outro advérbio, quando a idéia que apresentar for de negação como “não” ou “nem”: “Seu exagerado apego ao dinheiro nem sequer lhe permitia a caridade de uma esmola”.
Pelos padrões cultos, pelas normas gramaticais correntes, pelas regras em uso em bom português o sequer sempre deverá vir acompanhado de uma negação: “Não votou sequer para presidente”; “A garota nem era sequer simpática”; “Nem sequer respondeu-me a carta”.
Mas na língua portuguesa que se fala no Brasil, o sequer está se tornando independente e vicejando sem o apêndice de outro advérbio. Carlos Drummond de Andrade assim começa seu longo e belo poema “O mito”, publicado em “A Rosa do Povo”, livro que reuniu sua obra poética produzida nos anos 1943-1945:
“Sequer conheço Fulana, / vejo Fulana tão curto, / Fulana jamais me vê, / mas como eu amo Fulana. / Amarei mesmo Fulana? / ou é ilusão de sexo? / Talvez a linha do busto, / da perna, talvez do ombro.”
Com o advérbio sequer está acontecendo o mesmo processo de evolução semântica ocorrido com jamais, um outro advérbio que nos primórdios da língua não podia vir desacompanhado de outra negativa: “... já mays non ouv’i lezer... (“Cancioneiro da Vaticana’).
A negativa reforçada nunca jamais (corredia no castelhano: “Nunca jamás” é o nome de um delicioso bolero relançado no Nanna Caymmi) era freqüente nos clássicos: “Que... nunca jamais se pudesse alcançar delle que para os taes provimentos, mayores nem menores interesse por pessoa alguma” (Vieira: “Sermões do Padre Antônio Vieira”, vol. 8, p. 233).
Hoje, o advérbio jamais desnecessita de reforço negativo “Jamais votarei naquele candidato”, o que, por certo, sucederá com seu parente sequer.
Todavia, nos meus escritos, o sequer ainda vive em dupla ou com o nem ou com o não. Não me atrevi dar-lhe carreiro solo.
Observação final: Não existe em português a palavra siquer. Usá-la seria o mesmo que grafar como si a conjunção se; ou que escrever quasi - sinão ou sinões, em vez de quase, senão ou senões.

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