Cassilândia, Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

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01/07/2005 05:44

Leia o conto de Edna Menezes

A escritora Edna Menezes manda o conto Minha Primeira Obra de Arte. Leia a seguir:


Eu quero escrever, mas como sempre o branco do papel e, agora, meus caros, o branco da tela do computador me deixa estagnada, parada “como um rio que corta”. No entanto, tenho a cabeça fervilhando de idéias e o coração pulsando acelerado. Arrisco... Fico pelos cantos, exatamente como quando era criança, como diria minha avó paterna “como barata tonta”. É vovó, eu continuo exatamente a mesma “barata tonta”. Recordo-me. Nós morávamos em Cassilândia, pequena cidade do interior de Mato Grosso do Sul. A senhora era a “Mãe” de meu pai e vivia conosco e parecia não gostar muito de mim, ou não gostava nada, ou talvez não soubesse demonstrar. Acho mesmo que tinha medo de meu silêncio, pois como a senhora mesmo dizia é fácil conhecer quem muito fala, ou são francos ou tolos. E eu, trancada em meu mutismo, não me revelava. A senhora ficava ali sentada, com seus vestidos estampados, cores discretas, bonitos e muito compridos, sempre com seus bordados e crochês nas mãos. Eu me sentava no! chão, bem pertinho de sua cadeira e ficava olhando o bailado de suas mãos, ora cadenciado, ora mais ágil e no final, belíssimos desenhos e peças coloridas surgiam como por milagre. É... Minha querida “Penélope” trançava dia e noite, porém não desmanchava, pois não tinha motivos pra isso, o seu “Ulisses” jamais viria. Acho que por isso era amarga, sabia que meu silêncio era povoado de sonhos e mundos novos, aqueles mundos que tão bem sabia existir nos livros que estavam sempre em minhas mãos. Para cada ponto que tecia no tecido, com sua linha e agulha, era uma palavra a mais no rendado de meu mundo interior.
Enquanto lia eu também observava o seu “tecer”, cheguei a aprender, apenas olhando (hoje também sei fazer bordados e rendados em tecidos). Vem-me na mente uma cena deveras cômica, se não tivesse sido dramática, de um desses nossos dias. Eu sentia que você não gostava de mim, mas não me afastava de você um só instante. Nesse dia, não sei se por maldade de minha parte (creio que não, não me recordo bem e creio nunca ter tido instintos maldosos) ou se por ingenuidade ou se por desejo de mostrar-lhe que eu sabia fazer algo além de ler livros, sentei-me, como sempre, no chão e fiquei olhando para suas mãos. Desci os olhos até o seu vestido (como eu os achava bonitos!), quase tocava o chão (mostrar os tornozelos jamais, não é vovó?). Ficamos ali uma manhã toda, quando você se levantou, eu me sentia feliz, tinha feito algo muito bonito. “Joana, Joana, venha ver o que sua filha fez em meu vestido”. Eu olhava para a senhora e sorria, pelo visto havia gostado de minha obra de arte, po! is até chamara minha mãe para ver. “Veja, Joana, essa menina, essa comedora de livros fez um grande trabalho na bainha de meu vestido novo, veja” “Meu Deus, Dona Gertrudes!” “O que você fez com o vestido de sua avó, Sara?” Olho para a bainha do vestido e vejo como ficou bonito, todo picotado com tesoura “Fiz bambolins, mamãe, ficou parecendo as bainhas das lindas toalhas que a vovó borda”.

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