Cassilândia, Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017

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14/03/2008 10:16

Leia o artigo de Rogério Tenório de Moura

Rogério Tenório de Moura

Os livros didáticos e as aulas de interpretação de textos

Muito se poderia fazer pelo ensino de interpretação de textos e conseqüentemente de produção de textos se a forma equivocada como o questionário e o vocabulário vem sendo trabalhados nos livros didáticos fosse corrigida. O que temos observado, no entanto, é que o livro didático vem sendo utilizado como uma espécie de bíblia pelos professores, ao invés de ser apenas um ponto de apoio tornou-se o norteador.
Os professores têm confiado tão cegamente na forma como o livro didático vem sendo trabalhado que mesmo quando não o adotam acabam seguindo modelos do mesmo nas atividades que elaboram. O instrumento tem calado a voz de seu usuário, o que gera uma fato grave, o distanciamento da realidade do educando para com o conteúdo da forma como vem exposto no livro didático.
O que ocorre é que o livro didático é elaborado para atender uma demanda muito grande de educandos, os quais provém das mais diferentes realidades; uma vez que não é possível abarcar todas as possibilidades ambientais o livro didático traz estereotipado o aluno ideal, a família ideal, as férias ideais (o cachorro ideal...). Assim o aluno provindo de famílias desestruturadas, pai presidiário, mãe alcoólatra, irmão traficante, sente-se o patinho feio, como se o lugar dele não fosse na escola. Ora se o papel da escola é o de inclusão, de garantir meios para que o educando possa exercer plenamente sua cidadania, alguma coisa está errada!
Obviamente, de acordo com a vivência de cada um, com a variedade lingüística de cada um, as interpretações textuais podem ser as mais variadas, porém tal aspecto não é levado em conta, uma vez que o vocabulário e as questões trazidas para interpretação de texto parecem crer que os alunos são incapazes de abstrair o significado profundo de um texto e de buscar as diversas possibilidades lexicais de adequação do mesmo.
Tem-se observado que nas aulas de interpretação de texto o que se tem feito é uma revisão da estrutura superficial. Os alunos resolvem uma bateria de exercícios que tem por finalidade testar a capacidade dos alunos de memorizar os detalhes explicitando o que já está explicito no texto. São comuns os exercícios de se completar as lacunas de acordo com o texto e de responder aquelas cinco perguntinhas básicas do jornalismo: “Quem? O quê? Onde? Quando? Como?”
Tais exercícios podem facilmente ser respondidos por um leitor razoavelmente atento, mas será que o significado profundo do texto pode ser exercitado a partir de questionários tão superficiais? Uma breve releitura é o suficiente para que essas questões sejam respondidas. É justamente por causa dessa noção distorcida de interpretação de textos que nossos educandos acham que sabem interpretar textos, mas quando chegam no vestibular não conseguem produzir uma redação de forma coerente, mesmo tendo outros textos como exemplo para servir de suporte.
Aspectos como estilo literário, autoria, intenções subjacentes são simplesmente esquecidos no livro didático. Aspectos fundamentais, pois quem diz algo tem sempre um motivo para dizê-lo. O autor de um texto é um indivíduo como outro qualquer, atrelado ao sistema, com compromissos de classe, idéias que defende mediante seu papel na esfera social, razões ideológicas que o levaram a escrever tal texto, seja ele um artigo político, econômico, uma poesia, uma crônica, uma fábula. Toda produção textual traz consigo a visão de mundo do autor, sua ideologia e conseqüentemente objetivos não expressos no texto que visam levar o leitor a um determinado tipo de atitude.
Tal omissão é qualificada, pois produz em série gerações e gerações de indivíduos não pensantes, que acreditam ter todos os modelos a seguir pré-estabelecidos, que toda autoridade constituída é infalível, pois caso contrário não estaria na posição em que está. Leva-se o educando a acreditar que conseguindo decifrar a estrutura superficial do texto (quem fez o quê, como, onde e quando) ele já sabe interpretar um texto, consegue entender o que foi dito e, portanto é uma pessoa alfabetizada, capaz de decifrar todos os códigos lingüísticos, em sua língua materna, que vierem a sua mão.
Entretanto segundo a UNESCO, órgão da ONU que estuda o fenômeno “educação mundial”, 82% dos alunos brasileiros do 9º ano são analfabetos funcionais. Então fica a questão, o que esses alunos estiveram fazendo ao longo de todo o ensino fundamental? Resposta: respondendo questionários de interpretação de textos, decorando perguntas e fórmulas que não lhes dizem absolutamente nada na prática, lendo livros, esporadicamente, para preencher fichas de leitura, mecanismo esse utilizado pelo professor para verificar se a leitura foi efetivamente realizada. Doce ilusão! Creio que somente os professores de português ainda não descobriram que existem publicações e mais publicações especializadas em editar resumos de livros, tanto clássicos quanto infanto- juvenis. Sem falar no vasto material de pesquisa que pode facilmente ser encontrado na internet.
Inúmeras outras atividades muito mais atrativas e produtivas poderiam ser realizadas com os mesmos materiais, ao invés de se perder tempo fazendo os alunos voltarem ao texto para copiar nomes de personagens, datas, locais. Por exemplo:
 Levantamento dos adjetivos que caracterizam os objetos destacados. Através deste levantamento fazer a análise da função retórico- estilística desta adjetivação para poder observar-se o posicionamento do autor em relação ao objeto de seu texto.
 Contraposição dos elementos negativos aos positivos que são observados e vice-versa. A partir de tal atividade o censo crítico e a capacidade de releitura de mundo do aluno são exercitadas.
 Pesquisa de formação das palavras em questão que se apresentarem desconhecidas ao grupo. Assim damos início aos estudos lingüísticos dos educandos, derrubamos preconceitos ao se observar a importância de outros idiomas em relação ao nosso e facilitamos o aprendizado de uma segunda língua ao se colocar em questão a arbitrariedade dos signos lingüísticos e a morfologia das palavras.
 Proposta de redação tendo como ponto de apoio o texto lido, ou o estilo literário do mesmo ou um ponto que tenha chamado a atenção da sala e tenha sido pouco explorado ou produção de outro texto que defenda uma visão contrária ao apresentado ou a continuação de um texto ou poesia cuja leitura tenha sido bruscamente interrompida pela professora. Tais atividades oportunizam a capacidade criativa dos alunos, contar estórias é uma atitude inata do ser humano. Mesmo na idade das pedras, quando não tínhamos uma linguagem desenvolvida repassávamos nossas estórias e conhecimentos através das pinturas nas paredes. Dando a possibilidade de nossos alunos redigirem estamos assegurando-lhes o direito de efetivamente expressarem a sua interpretação do texto lido, de imprimir-lhe sua visão de mundo, de expressar-se livremente, aliás este é um direito constitucional. Através de tais atividades podemos até não formar novos membros da Academia Brasileira de Letras, mas sem dúvida asseguramos a sociedade cidadãos pensantes, que se façam notados e respeitados por sua visão de mundo, afinal conforme afirmou Descartes: “Penso, logo existo”.

Outro falha freqüentemente encontrada nos livros didáticos e na prática dos professores que não o utilizam também é quanto ao trabalho do vocabulário. Quantas livros por aí não temos encontrado que com o pretexto de ajudar o aluno trazem um pequeno vocabulário do texto logo abaixo dele. Infelizmente está prática tem sido adotado na didática dos professores em sala de aula que ao responderem prontamente o significado de uma palavra furtam-lhe o direito de pesquisar, de descobrir e experimentar, pois não existem sinônimos perfeitos, uma mesma palavra pode adquirir significados diferentes de acordo como contexto. Entretanto esse “inofensivo” instrumento do qual autores e professores tem se armado no intuito de facilitar o trabalho de interpretação de textos do aluno acabam por torna-lo cada vez menos interessado na pesquisa e mais dependente e subserviente ao tomar uma resposta por unívoca e infalível.
Selecionar a melhor opção dentre as mais variadas oferecidas pelo dicionário requer noções de sinonímia, homonímia, polissemia, além do conhecimento de que o dicionário fornece outras informações, tais como: pronúncia correta, classe de palavras, flexões de gênero e número, orientações sintáticas, ou seja informações adicionais que auxiliam o aluno a escolher a melhor opção em um determinado contexto.
Entretanto o que temos observado é um mero resgate de palavras no próprio vocabulário ou recorrendo-se ao “professor vocabulário”, como se a função deste fosse dar respostas e não levar o aluno a pensar nelas.
Bons exemplos de atividades como trabalho vocabular são por exemplo:
 Apresentar uma lista de “sinônimos” e pedir para que os alunos criem frases para cada uma delas.
 Apresentar textos em que os alunos tenham que substituir termos e expressões por outras equivalentes dentro do mesmo contexto.
 Analisar os motivos de se utilizar a repetição (recurso de linguagem ou erro?)
 Analisar os aspectos afetivos. Por exemplo, quando o autor diz “minha princesinha”, tal termo pode ser substituído no sentido em que o autor quis dar tanto por “princesa pequena” quanto por “querida princesa”?
São esses pequenos detalhes que fazem a diferença na hora de se interpretar textos; nossos livros didáticos e grande parte de nossos professores, influenciados por aqueles, se esqueceram disso.

Rogério Tenório de Moura
é licenciado em Letras pela UEMS,
especialista em Didática Geral
e em Psicopedagogia pelas FIC.

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