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28/06/2006 09:50

Leia: Língua portuguesa, inculta e bela

Alcides Silva

Língua portuguesa, inculta e bela
Alcides Silva

Expressões curiosas

Nas oitavas de finais, terça-feira passada, pela Copa do Mundo, nos acréscimos do primeiro tempo, Adriano recebeu cruzamento de Cafu e, em posição irregular, com a coxa, completou para o gol: 2 x 0. Gol feito ‘com a coxa’ e não ‘nas coxas’.
A expressão ‘nas coxas’ com o significado de ‘coisa mal feita’, ‘feito às pressas’, ‘mal acabada’, nasceu do fabrico de telhas de barro. Nas olarias de antigamente, com trabalho todo manual, não havia formas e as telhas eram moldadas nas pernas do trabalhador, isto é, em suas coxas, sem padronização. Assim, era comum as telhas de uma casa serem feitas por uma só pessoa, para que o encaixe de uma na outra fosse correto, evitando goteiras. Com a chegada da industrialização, as telhas (inicialmente chamadas de ‘francesas’) foram padronizadas e as ‘telhas de barro, ou telhas comuns’, feitas nas coxas, tornaram-se imprestáveis porque irregulares. Tem, também, o sentido chulo de orgasmo sem penetração.
Chaleira, já que estamos em tempo de Copa, é bom saber que não é só a vasilha de metal, bojuda, com bico e tampa, que serve para esquentar água, mas também, em futebol, a jogada em que o atleta toca a bola a meia altura com a lateral externa de um dos pés. O futebol foi introduzido no Brasil pelo paulistano Charles Miller que, estudante na Inglaterra, conheceu lá o esporte, tornando-se um jogador habilidoso. Quando regressou à pátria trouxe consigo um jogo de camisas e duas bolas, com as quais ensinou seus companheiros de juventude o tal esporte bretão. Sua maneira de passar a bola a seus companheiros de jogo com um toque com a lateral do pé, passou a chamar-se ‘jogada do Charles’, depois, ‘jogada charleira’ e, enfim, ‘chaleira’.
Chaleira também é o nome que se dá à pessoa bajuladora, ao puxa-saco. Conta Márcio Bueno em A origem curiosa das palavras, que essa acepção “nos bajuladores que cercavam o senador Pinheiro Machado, líder do Partido Republicano Conservador e que dominava a cena política brasileira no início do século XX. Como bom gaúcho, em casa, o senador mantinha sempre água fervendo e quando queria tomar chimarrão, os presentes se atropelavam para pegar a chaleira e encher a cuia”. O senador morava numa ladeira no Rio de Janeiro. O compositor Costa Júnior compôs para o carnaval de 1909 uma polca, cuja letra começava com os versos “Iaiá, me deixa / subir essa ladeira / que eu sou do grupo / que pega na chaleira”. A música fez tanto sucesso que, logo depois, conta Márcio Bueno, foram produzidos uma peça para o teatro de revista e um filme, ambos com o título Pega na chaleira. No carnaval de 1946, a marchinha Cordão dos puxa-saco, de Roberto Martins e Eratóstenes Frazão, em seus versos iniciais lembrava a letra da polca, atualizando o último dos versos acima citados: que eu sou do bloco/ mas não pego na chaleira”. A marchinha termina com o refrão “E o cordão dos puxa-sacos / cada vez aumenta mais”. A partir daí a palavra popularizou-se com o significado de bajulador.
E para terminar, o termo puxa-saco teria surgido no jargão militar. Quando os oficias superiores estavam de mudança, os soldados, para agradá-los, se encarregavam de carregar a mudança. As roupas e alfaias eram acondicionadas em sacos de lona, que a soldadesca deslocava, arrastando-os pelo chão. Vem daí, o termo tornou-se público com a significação de sabujo, adulador.


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