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25/01/2014 14:02

Kiss: o dia "mais longo" da vida do repórter da Agência Brasil

Bruno Bocchini, Agência Brasil
São Paulo - Bruno Bocchini relata a cobertura da tragédia de Santa Maria Marcelo Camargo/Agência BrasilSão Paulo - Bruno Bocchini relata a cobertura da tragédia de Santa Maria Marcelo Camargo/Agência Brasil

São Paulo - Bruno Bocchini relata a cobertura da tragédia de Santa Maria Marcelo Camargo/Agência Brasil

A previsão era que permaneceríamos em Porto Alegre até o final daquela semana para acompanhar o Fórum Social Temático. No sábado, véspera da tragédia, começamos cedo nossa cobertura. Pautas na Usina do Gasômetro, na Assembleia Legislativa, no Acampamento da Juventude. À noite, todos da equipe da EBC se encontraram na Cidade Baixa, no centro de Porto Alegre, onde já havia carnaval – que, oficialmente, só deveria começar dali a duas semanas.

Seis horas depois, na manhã do domingo, estávamos a caminho de Santa Maria. Incrédulos, ouvindo no carro a Rádio Gaúcha e tentando entender o que havia acontecido. O celular não parava. Nas quatro horas seguintes de viagem, o número de mortos só aumentava: 20, 50, mais de 100, mais de 200. A repórter narrava o que via em frente da Boate Kiss: centenas de corpos amontoados sendo transportados pelo caminhão do Exército. Ela confessou ao âncora que nunca havia visto nada igual. E não era só ela.

Lembrei do acidente do avião da TAM, em São Paulo. Mas, logo chegando na cidade, percebi que a situação era diferente. Santa Maria estava calada, nenhum comércio aberto, quase nenhum barulho. Em busca de informação, parentes faziam filas silenciosas na porta dos hospitais e em volta do ginásio da cidade, onde foram colocados os corpos. Sobre um carro dos bombeiros, peças de roupas eram erguidas e exibidas aos parentes. Quem as reconhecia podia entrar. Se tivesse forças.


Ninguém sabia exatamente quem estava na boate, quem havia morrido ou estava hospitalizado. Em meio ao incêndio, as mulheres, principalmente, deixaram para trás as bolsas com documentos.

Aos jornalistas, foi reservado, nas proximidades do ginásio, o mesmo local onde os pais recebiam a confirmação da morte da filha ou do filho. Na maioria das vezes, os homens entravam no ginásio para fazer o reconhecimento, enquanto as mulheres esperavam do lado de fora. O olhar do pai, ao sair, já era suficiente para a mãe entender.

Os repórteres recebiam uma enxurrada de informações desencontradas. Nas primeiras horas, não havia nenhuma fonte oficial. O calor de mais de 30º Celsius (ºC), a falta de comida, de sono, e o impacto emocional de presenciar tão de perto o desespero das famílias, os corpos, derrubavam também os jornalistas. Por vezes, deixávamos de lado os gravadores, máquinas fotográficas, microfones e blocos. Só conseguíamos observar a cena desumana.

A presidenta Dilma, o governador, o prefeito, o ministro da Saúde indo para a cidade, e o Exército cavando, em bloco, centenas de covas. O celular não parava. Vez ou outra, alguém com luvas de látex saía do ginásio. Alguns jornalistas o cercavam e a informação – não oficial – era que o número de mortos havia aumentado. Caminhões frigoríficos chegavam. Já era madrugada de segunda-feira, manhã do dia seguinte.

Com o passar do tempo, a situação só piorava. As histórias chegavam. Eram as mais tristes possíveis. Famílias que perderam irmãos; mães que enterraram um filho em um dia e, horas depois, outro. Ouvimos relatos de suicídio. Houve sobrevivente que chegou a comparecer ao enterro de um amigo mas, horas depois, passou mal, ainda envenenado com a fumaça, e morreu. Já quase terça-feira e o domingo insistia em não acabar. O dia mais longo e triste que trabalhei.

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