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04/02/2011 06:30

Juiz Evandro Pelarin: Lembranças em Cassilândia

Evandro Pelarin

Leia o que escreveu o juiz de Direito da Comarca de Fernandópolis Evandro Pelarin em seu blog sobre as lembranças, ao ser convidado para palestra. Vale a pena.


Esta semana estive na cidade onde fui criado, Cassilândia, MS. Convidado para uma palestra, falei com professores da rede pública estadual. Nosso encontro foi no mesmo lugar onde estudei o primário. Hoje, um prédio novo, cheio de corredores e pavimentos, a Escola Estadual Hermelinda Barbosa Leal. Por alguns instantes, enquanto aguardava a chamada para o início do evento, uma montanha de lembranças veio à minha mente.

Na minha época, aquele local era uma pequena escola, a E. E. Ambrosina Apolinária de Resende. Poucas salas. Não havia quadra coberta. O campo era de terra batida. As salas de aula tinham o chão de cimento vermelhão. As carteiras eram bem simples. Mas, tudo era limpo e organizado. Lembro-me disso. As provas eram rodadas no mimeógrafo e cheiravam a álcool.

Calculei em 50 metros, mais ou menos, a distância de onde eu estava da minha antiga sala de aula da 4.ª série, que não existe mais. No pavimento de cima, do antigo prédio, ficava a sala dos repetentes. Isso mesmo. Naquela época, se o aluno não tirava notas suficientes ou faltava em excesso, ele não “passava de ano”; ele “bombava”. No ano seguinte, voltava a estudar na mesma série. E, então, aquela sala era conhecida como a “dos repetentes” ou dos “bombados”. De modo geral, por pressão dos pais, tínhamos que estudar, pois era uma vergonha ir para a sala dos alunos “bombados”.

Na mesma escola funcionava, também, uma sala de aula para alunos com Síndrome de Down. Não havia uma escola só para eles. Todos nós ficávamos juntos. Alguns garotos e garotas com problemas físicos não sofriam de “exclusão”. Embora o prédio sem qualquer adaptação, tinha-se o costume de carregar os colegas para dentro da sala e tirá-los de lá. Costume esse, bem a verdade, que vinha de uma ordem da direção: “tem que ajudar quem usa muletas ou cadeiras”.

Não existia intervalo. Tínhamos recreio. Em 15 minutos, os alunos enfileiravam-se diante do balcão da cantina para receber a merenda, que pouco variava. Quase sempre, um copo de leite e três ou quatro bolachas de maisena. Ou, nos dias melhores, um prato de arroz com pouquíssimos pedaços de carne moída. E, no melhor da semana, recebíamos um copo de “ki-suco” de groselha. Alguns alunos traziam de casa um pão com manteiga para reforçar. E quem vinha com lanchinho acabava tendo que repartir um pouco, para não ficar com fama de “ridico”.

Usávamos uma camisa branca com o emblema do Estado do Mato Grosso do Sul no bolso. Short azul, meias e sapatos pretos. Se marrom o par de meias, não entrava. A inspetora barrava no portão. Aliás, a tolerância era de 5 minutos. Portão fechado, ninguém entrava ou saía. Certa vez um amigo meu, que hoje mora em São José do Rio Preto, pulou o muro. Foi uma de suas piores escolhas. A inspetora o segurou pelo braço e, minutos depois, a mãe dele estava na escola, por determinação da direção. Depois, todo mundo ficou comentando que a mãe do meu amigo deu uma “tunda” nele, na rua mesmo, quase na frente da escola.

Minha professora da 4.ª séria, a Tia Maria Eva, era muito rigorosa. Exigia fila para entrar na sala. Os menores, na frente. As reprimendas começavam na fila. Ela dizia: “que gracinha é essa ...”, diante da mínima desorganização. Primeiro, ela entrava. Quando ela ia passar a matéria na lousa, não podia haver “um pio”. Todos nós copiávamos a lição em silencio absoluto. Ninguém podia levantar de onde estava sem ordem dela. Aliás, se alguém precisasse sair da sala para ir ao banheiro, levantava a mão e ela autorizava o aluno a falar, a pedir. Aluno que não fazia a tarefa era obrigado a ficar em pé, perto da lousa, por alguns minutos, de castigo. A Tia Maria Eva agia com energia e olhava diretamente no olho do aluno, o que nos amedrontava. Mas, ao mesmo tempo, ela pegava na mão do aluno, com delicadeza, para ensiná-lo a fazer corretamente a letra no caderno de caligrafia. Ela levava os cadernos para a casa e os devolvia com as notas e comentários. Quem ganhava um “ótimo”, geralmente, exibia-se orgulhoso.

Meu retorno à minha terra foi muito bom. Saí de lá muito feliz. Fui tão bem recepcionado, com tanto carinho, que segurei a emoção várias vezes, principalmente, ao lembrar da Tia Maria Eva. Quando criança, naquele lugar, eu e meus amigos nem imaginávamos que haveria, um dia, computador, internet. Não havia pedagogia do afeto, construtivismo, educação com amor. Nem se cogitavam em eleições para diretórios acadêmicos, para escolha disso ou daquilo, pois havia uma estrutura muito fácil de entender: o professor manda na sala de aula e ponto final. A diretora, na escola inteira. Os pais estavam satisfeitos com o que a escola oferecia: em resumo, lições de matemática, ciências, educação moral e cívica, estudo dos problemas brasileiros e por aí vai. Não se tinha preocupação em “formar cidadãos conscientes”, pois consciência para o que é certo ou errado tinha que vir de casa.

Também, nem ouvíamos falar de drogas, bebidas alcoólicas. Nem aula de educação sexual. Tampouco havia livros “didáticos”, como estão aparecendo, hoje em dia, aos montes, que pretendem ensinar as crianças a “tocar os próprios órgãos genitais para ter prazer com isso”. Tudo isso seria impensável para a escola estadual Ambrosina Apolinária de Resende, em Cassilândia, MS.

Muita coisa mudou. E é impossível resgatar o passado. Avançamos em alguns aspectos. Mas, minhas lembranças me forçam a concluir que, em tantos outros, pioramos com as nossas crianças e adolescentes. Antes, ninguém falava muito em direitos para os menores, mas também não se tinham tantos menores nas drogas ou na prostituição. Falava-se em deveres, muito mais. E não havia grande quantidade de críticos, gente do contra e especialistas em apontar o dedo na cara de quem trabalha. As pessoas, pais, alunos e sociedade, parecem que entendiam melhor a escola e apoiavam os professores, que tinham um elevado “status” na cidade. Eu me lembro que, na quermesse da Igreja, quando chegava o saudoso Professor Gilberto, que era muito respeitado, as pessoas da mesa se levantavam para cumprimentá-lo. Recordo os olhos rápidos do meu pai e sua fala na sequência: “Olha lá o Professor Gilberto Elias Ferreira...”, cujo tom era de reverência.

Enfim. O tempo passa. O mundo é outro. E as lembranças nos fazem refletir. Elas nos ajudam a pensar mais sobre o que vivemos, sobre o que somos e para onde vamos. Relembrar a infância pode ser muito bom. No meu caso, é sempre ótimo. Pois, em Cassilândia, vivi com muita alegria e aprendi muito. E, nesta semana, revendo muitos rostos conhecidos, alguns de meus professores, eu voltei emocionado para Fernandópolis. Obrigado, mesmo, à minha terra, Cassilândia, à minha escola Ambrosina Apolinária de Resende. Um abraço a todos os meus professores, em nome da inesquecível Tia Maria Eva.

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