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23/10/2004 06:26

Jovens excluídos não devem ser vistos com coitados

Agência Notisa

Cientistas afirmam que ao privilegiarmos somente o lado triste dos excluídos, contribuímos para a radicalização da exclusão. Na verdade, é o olhar dominante que coloca o outro como coitado.



Cobertura especial - Agência Notisa - direto do Simpósio Internacional sobre a Juventude Brasileira, no campus Praia Vermelha da UFRJ, Rio de Janeiro (encerramento)



Hoje, o Brasil conta com uma população de 34 milhões de pessoas com 15 a 24 anos. Para se ter uma noção do que esse número representa, o país possui mais jovens que toda a Europa, ou mesmo toda a América Latina. É um contingente maior que toda a população do Canadá, de qualquer idade. Infelizmente, o que poderia ser traduzido em potencial para o desenvolvimento, traduz-se em uma realidade perversa. Desse total, 17 milhões não estão estudando, o que representa um em cada dois jovens. Quase quatro milhões queriam trabalhar, mas estão desempregados e 5 milhões não estudam nem trabalham.

Os números, apresentados pelo Deputado Estadual Alessandro Molon, durante o Simpósio Internacional sobre a Juventude Brasileira, não param por aí: 58% (19,7 milhões) de jovens possuem renda per capita familiar inferior a um salário mínimo por mês. Cerca de 4 milhões (12%) estão abaixo da linha de pobreza.



Violência no RJ

No que diz respeito à violência na juventude, a situação do estado do Rio de Janeiro consegue ser pior que a média nacional. Enquanto a média nacional da taxa de mortalidade por causas externas (violência e acidentes de trânsito) dos jovens é de 54 a cada 100 mil habitantes, a do Rio de Janeiro é de 119/100.000, mais do dobro do resto do país. Além disso, 50% da população carcerária fluminense é constituída por indivíduos com até 24 anos. No total, são 2,5 milhões de jovens no estado e 97% vivem nas cidades.

Os dados sobre o Rio de Janeiro estão sendo levantados pela Comissão Especial de Políticas Públicas de Juventude da Alerj, cujo objetivo é, além da coleta de informações, analisar as políticas públicas do estado e propor alternativas. Na opinião de Wanda Engel, representante do BID (Banco Interamericano do Desenvolvimento) e presente ao evento, “a violência afeta o progresso e aprofunda a pobreza”. Para ela, o jovem não é o problema, ele é parte da solução, desde que tenha oportunidade.

Na opinião de Engel, o lado mais perverso dessa situação de exclusão são as vidas severinas, que só vivem o hoje e não tem perspectivas. “A pior coisa que pode acontecer a alguém é perder a capacidade de se projetar no futuro”, afirma. Nesse contexto, explicou ela, as pessoas tendem a apelar para “a religião, para os políticos ou para a loteria”. Isso quando não partem para a violência mesmo.



Alguns exemplos

CDI - Comitê para Democratização da Informática

“Nos centros urbanos, as pessoas não morrem de fome, morrem por falta oportunidade”. Essa é a opinião de Rodrigo Baggio, idealizador e fundador do CDI, Comitê para Democratização da Informática. O objetivo do projeto é promover a inclusão social através do acesso à tecnologia. “O jovem não quer só comida, o jovem quer comida, diversão, arte e tecnologia”, afirmou.

Recentemente, o projeto iniciou um trabalho junto a aldeias indígenas, levando pela primeira vez acesso à Internet a essas regiões. “É interessante que para eles a Internet pode servir inclusive como segurança”. Segundo Baggio, a reserva da aldeia Ashaninka (Acre) é constantemente invadida por madeireiros e traficantes de droga. “Há algum tempo, a região havia sido invadida, a tensão havia aumentado e os índios declararam guerra aos invasores”, contou. Entretanto, antes de o conflito começar, alguém teve a idéia de mandar uma mensagem para o presidente Lula, relatando a situação. “Não sei se o presidente leu, não sei nem se alguém leu, mas dias depois os índios contaram que aviões da FAB deram rasantes sobre o local e os peruanos fugiram da região”, contou, arrancando risos da platéia.

Basicamente, o projeto cria Escolas de Informática e Cidadania (EICs) junto a centros comunitários, entidades de classe, grupos religiosos e associações de moradores. “Os projetos tem que se auto-sustentar, para que as escolas possam andar com as próprias pernas”, explicou Baggio. Como exemplo de financiamento, ele cita a mensalidade paga por alunos de comunidades carentes dos atendidos pela EIC. “A mensalidade vai de cinco a oito reais e serve apenas para pagar os educadores que trabalham nas escolas”, disse.

Hoje, o CDI atua em mais de 20 estados brasileiros, inclusive em aldeias indígenas brasileiras. Além disso, o CDI está presente em mais de de 10 países, entre eles Argentina, Uruguai e Angola. Mais informações sobre o projeto podem ser encontradas em www.cdi.org.br.



Caritas Brasileira
Com o objetivo de mobilizar os jovens e mostrar-lhes quais são seus direitos, a Caritas brasileira atua no sentido de estimular a ocupação dos espaços democráticos pelo povo. “Para mudar esse mundo que é extremamente cruel, excludente e concentrador, a gente resolveu ocupar os espaços democráticos com o objetivo de exercer a democracia”, afirmou Márcia Acioli, coordenadora nacional do Programa para Infância, Adolescência e Juventude da Caritas. “Temos que pensar que democracia é essa em que as comunidades nunca ouviram falar dos conselhos que as representam”, questionou ela, durante o encerramento do Simpósio Internacional sobre a Juventude Brasileira.

“Para que calar, se eu nasci gritando?”. Acioli leu estes dizeres pichados em muro da cidade de Quito (Peru) e conta que, mesmo em outro país, teve mais certeza de que os jovens são sujeitos, com desejos e saberes. Sendo assim, podem e devem participar da política. “Vivemos em uma sociedade adultocêntrtica, brancocêntrica e machocêntrica”, disse. “E até mesmo magrocêntrica”, brincou arrancando risos da platéia que lotava o auditório.

“Ao olharmos para o jovem em suas comunidades com pena, estamos diminuindo sua humanidade”. Para Márcia Acioli, autora desta frase, todos somos feitos de alegrias e tristezas, e ao privilegiarmos somente o lado triste dos excluídos, contribuímos para a radicalização da exclusão. “O olhar dominante é o que coloca o outro como coitado”, afirmou.

Segundo ela, o jovem é tolhido pela voz que somente disciplina, que tolhe sua liberdade. Provocativa, Acioli cita como exemplo uma atividade comum em salas de aula de todo o país: “sempre me vem à lembrança a professora que chega em sala de aula e propõe para a criança uma aula de desenho livre. Aí todas as crianças seguem o padrão cristalizado e desenham aqueles coqueiros, aquelas montanhas que todos com certeza já viram em algum lugar. Isso por acaso é livre expressão?”. Para ela, a figura do educador é fundamental e deve ser valorizada. “Sou professora de formação e gosto de ser reconhecida assim, especialmente como professora de 5ª série”, disse.

Acioli defende que se valorize, de fato, a criatividade e a expressividade do jovem através do gesto, da dança, do corpo, do teatro ou da música. “Precisamos transgredir a realidade, radicalizar a democracia e privilegiar a negociação”, defendeu. Segundo ela, só o diálogo entre os diferentes pode alterar o status quo da sociedade. “Uma de nossas maiores preocupações é pensar se nossas ações causaram algum impacto na vida dos participantes”, diz Acioli.

A Caritas brasileira é ligada à CNBB, foi criada em 1956 e é reconhecida como de entidade de utilidade pública federal. O organismo faz parte da Rede Caritas Internationalis, ligada à igreja Católica, composta por 162 organizações presentes em 200 países e territórios. Entre as suas linhas de atuação, podem ser destacadas a defesa e promoção de direitos da população em situação de exclusão social, além de mutirões de superação da fome e da miséria e dos programas de apoio a portadores de HIV / AIDS. Mais informações: http://www.caritasbrasileira.org.





Agência Notisa (science journalism – jornalismo científico)

www.notisa.com.br



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