Cassilândia, Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018

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20/09/2018 16:00

João e Geovani são 100% fora dos padrões e vira-lata Angel completa a família

Casal escolheu não ter filhos, mas os dois se tornaram os pais mais incríveis que Angel merecia ter

Redação
Família está completa há 3 anos e hoje é uma inspiração para quem está busca de ser feliz com liberdade. (Foto: Henrique Kawaminami)Família está completa há 3 anos e hoje é uma inspiração para quem está busca de ser feliz com liberdade. (Foto: Henrique Kawaminami)

“Uma família impactante” é assim que João e Geovani se definem ao falar do casamento e da família constituída há três anos, desde que se conheceram, em Campo Grande. Os dois são cheios de tatuagens, um tem 48 anos, o outro 22, diferença que fica no papel, mas em público impressiona. Ambos escolheram não terem filhos, porque desde o início a vira-lata Angel é que completa a família e juntos provam que no amor tudo é possível.

Aceitar falar do casamento não foi visto como exposição e sim como inspiração a quem pretende dizer sim a vontade de ser feliz e para quem ainda não compreendeu que matrimônios com noivos do mesmo sexo são normais e um direito à liberdade.

No apartamento, os três demonstram o carinho, afeto e uma dedicação um com o outro que nos deixa encantados, pela alegria e pelo formato de família que não precisa de padrões para ser feliz.

Até pouco tempo ouvir de um casal que ter filhos não são planos chocava muita gente. Hoje, ainda impressiona, mas é uma tendência entre quem avalia essa decisão com mais responsabilidade. Por isso, Angel é a filhinha do casal, ainda na “adolescência”, desde que juntos decidiram não ser pais de humanos.

A escolha não foi por falta de afeto, mas pensando no futuro e nas necessidades. “Eu enxergo que não tenho estrutura psicológica e energia para cuidar de um filho e acho isso muito importante. Porque se propor a cuidar de uma pessoa do nascimento até o momento que ela se desprende, é muito complicado, por isso decidimos juntos”, explica João Batista Barboza, de 48 anos.

Mas isso não significa que a responsabilidade é menor em relação a Angel, que recebe atenção especial todos os dias e mudou à rotina da família desde o início. “Muitas coisas a gente abre mão de fazer por causa da Angel, por exemplo, viajar”, cita. “Sempre a incluímos em um passeio, ela tem uma cama na sala, outra no quarto, também passeamos com ela todos os dias de manhã e a tarde, ou seja, temos uma responsabilidade grande com ela”, acrescenta.

Além de cuidado, o que não falta é amor, de todos os lados. Angel conquista qualquer pessoa, faz pose diante das câmeras, corre para pegar o brinquedo e não larga o Farofa, seu ursinho de pelúcia que pelo menos uma vez por semana precisa ser costurado pelos pais. “Ela é a nossa filha, a pequena da casa”.

Falar das características que envolvem a união também é uma forma de demonstrar que tudo é possível. Os dois formam mais um casal que começou na internet, com aquele tipo de história de amor improvável que realmente deu certo.

Tudo começou pelo Facebook. Geovani Henrique de Souza Morinigo, de 22 anos, curtiu uma foto na rede social de João. Dali partiu para uma conversa, seguido de um encontro no dia do aniversário da cidade e um pedido de namoro duas semanas depois.

O que nenhum dos dois imaginava é que a história continuaria com um casamento em pouco tempo. “Resolvemos passar um mês em são Paulo porque Geovani tinha um curso na Galeria do Rock. Isso acabou sendo uma convivência e lá decidimos que quando voltássemos para Campo Grande, iríamos morar juntos”, narra João.

Mas uma decisão como essa não poderia passar em branco e o casal oficializou a união do jeito mais autêntico possível, com uma celebração na Avenida Paulista esquina com a Rua Augusta, em São Paulo, em pleno Réveillon.

Não há fotografias, isso porque o casal não anda com celular em São Paulo depois de terem sido vítimas da violência, mas o “sim” e a decisão de serem felizes juntos estão eternizados na memória. “Foi um momento nosso muito lindo, especial”.

Quando o assunto é família, amor também não falta. João e Geovani têm mães e sogras maravilhosas, mulheres que juntas lutam pela liberdade de seus filhos e os defendem de qualquer violência. “Minha mãe ama o Geovani, trata-o como um filho. Sempre nos respeitou e continua sendo uma mulher católica, daquelas que falam na missa quando o padre falta”, diz João. O marido abre um sorriso ao falar de sua mãe que também torce pela felicidade do casal e está sempre ao seu lado. “É uma mãe incrível”, resume.

Preconceito é uma luta constante na vida de qualquer casal gay, mas na rotina de João e Geovani, tudo tem sido mais leve ao serem bem resolvidos com a orientação e estilo.

João garante que são muito respeitados por onde passam. “A gente almoça em um restaurante, aos domingos, em que os donos são religiosos e a gente convive com a tradicional família brasileira de uma forma muito tranquila. Somos respeitados, conversamos e nos divertimos”.

Mas aprendeu lidar com olhares surpresos ao estarem juntos. “Sei que as pessoas vão falar. Até porque temos um visual que chama atenção, que é impactante. Imagina um homem careca, de barba branca, gordo e tatuado na cabeça entrando com outro homem também tatuado e com alargador nas duas orelhas. Nosso estilo já é um impacto, não tem como eu achar que vamos ser discretos, é a vida que escolhemos, não existe meio termo”.

A diferença de idade também tem peso no julgamento das pessoas, mas em casa, essa diferença fica no papel e o que sobra é experiência. “Existe uma diferença de bagagem de vida, isso não há como negar, mas ninguém é melhor do que o outro. O bacana é que ele me ensina muito, é de uma geração conectada, enquanto ele também me leva para reviver outras coisas”, diz João.

Mas para ser feliz 100%, o que o casal deseja é um mundo onde as diferenças sejam respeitadas e para isso, os dois tem uma receita infalível, que poucos utilizam. “As pessoas precisam parar de viver a vida do outro. O que acontece dentro de casa é o que ocorre dentro de qualquer família, tem atrito, tem alegrias, tem dificuldades, tem superações. Então as pessoas precisam parar de trazer o modo como eu vivo para as discussões e irem viver a vida delas. São as pessoas que polemizam”.

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