Cassilândia, Sexta-feira, 07 de Agosto de 2020

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24/05/2020 08:13

Inseparáveis, último "te amo" foi em bilhete lido pelo médico na UTI da covid-19

Ângela Kempfer e Adriano Fernandes , Campo Grande News
Magno e Laís, apaixonados durante os 33 anos de casamento. (Foto: Arquivo Pessoal)Magno e Laís, apaixonados durante os 33 anos de casamento. (Foto: Arquivo Pessoal)

 

A dor de dente bateu e foi no consultório de Magno que Laís encontrou socorro. Dias depois, veio o convite para assistir ao filme de David Bowie no antigo Cine Plaza, em Campo Grande, e 8 meses foram suficientes para o quarentão solteiro dar o braço a torcer ao casamento com aquela bibliotecária cheia de energia.

Passados 33 anos, a sala do casal continua impecável no apartamento da Rua das Garças, com quadros de artistas plásticos brasileiros em todas as paredes, alguns vinhos dele ainda na adega e o mobiliário contemporâneo que contrasta com a vitrola dos anos 1980, presente de uma tia.

Não fosse o álcool em gel, as caixas de máscaras e de luvas descartáveis sobre a mesa de jantar, nada teria mudado desde 24 de março, quando o dentista Patrocínio Magno Portocarrero Naveira saiu de casa e nunca mais voltou.

Naquele dia, a covid-19 mudou a rotina para sempre.

Depois de semanas com "alguma tosse" e um domingo com 38,5 graus de febre, a terça-feira chegou como um assalto. No consultório, a tomografia mostrou os pulmões totalmente comprometidos. Era o choque de realidade do novo coronavírus.

No carro, dirigindo rumo ao hospital da Unimed, Magno apertou a mão de Laís e disse: "Eu te amo muito. Tudo vai ficar bem, Gracinha", usando o apelido dado pela esposa a ele, mas que em hipótese alguma poderia ser dito em público.

Os dois entraram no hospital, cada um foi levado para uma sala de atendimento para fazer exames, e até hoje a lembrança mais dura é da despedida pelo vidro. Como no dia que se conheceram, a última vez também foi em um consultório.

"Me disseram que eu ia voltar para casa, ficar em quarentena, mas que meu marido ia permanecer no hospital. Ele me mandou um beijo, levantou a mão, eu também levantei a minha, para a gente se tocar de longe, sabe? Nunca mais vi o Magno", conta.

Magno foi um dos primeiros levados pela covid-19 em Campo Grande, morreu no dia 3 de maio, uma semana antes de completar 75 anos, depois de 38 dias na UTI.


Saúde de ferro - De segunda a sexta, era sagrado para ele caminhar 5 quilômetros e depois encarar a natação, com o mergulho por 25 metros da piscina sem precisar recobrar o fôlego. Só retornava para casa lá pelas 11h, para almoçar com a esposa. Depois ia para o consultório e voltava após às 15h30.

Hoje, é justamente nesta hora da tarde que a falta aperta o coração de Laís. Ela nunca cogitou perder o marido de saúde inabalável, tão cheio de vida, quanto de amigos.

Visivelmente fragilizada pelo luto, reclamando das “perninhas finas” que a tristeza trouxe junto com a perda do apetite, pela primeira vez Laís fala do que Magno “era”. Até a covid-19 chegar, só o tempo presente cabia na conjugação dos verbos.

No celular da esposa, o vídeo mostra um daqueles mergulhos longos, um show na piscina para o "garotão" de 74 anos. Em outras fotos, lá está ele, com a cara congelando pela neve em um curso de montanhismo na Bolívia algumas décadas antes..

"Como pode, um homem tão forte, morrer de uma gripe? Ele sempre se preocupou mais comigo, porque sempre tive a saúde frágil. A Secretaria de Saúde disse que ele tinha doenças de base para justificar o óbito, o que não era verdade", afirma a esposa.

Dez dias antes dos primeiros sintomas, a bateria de exames de rotina, feita anualmente sem atraso, havia comprovado que tudo estava 100%, garante Laís.

A avaliação dela é que evolução silenciosa prejudicou o diagnóstico do coronavírus, em uma época em que apenas 2 casos estavam confirmados por aqui.

As 4 gerações de medicamentos conseguiram recuperar apenas 25% dos pulmões, a idade pesou e no 34º dia os rins começaram a falhar. Laís também teve o diagnóstico positivo, mas é 18 anos mais jovem que o marido, o que fez diferença.

"Penso que ele teve o azar de se deparar com essa doença. Ele já estava saindo só com máscara, ia do consultório para casa e só não parou de trabalhar porque disse que tinha gente que esperava um mês para a consulta e que não era justo faltar".

No apartamento, a esposa e os quadros escolhidos um a um pelo marido. (Foto: Henrique Kawaminami)
Luto - A entrevista em uma manhã de sexta-feira, foi como aceitar o luto e tentar seguir em frente. "Você é a primeira pessoa fora da minha família que eu falo sobre isso. Acho que eu precisava", diz.

No guarda-roupas, a esposa ainda não conseguiu tocar. O armário continua com as camisas bem cortadas e os sapatos argentinos, que falam muito sobre a personalidade de Magno. Os amigos o chamavam de lorde, pelo estilo impecável, pela paz inabalável, mas, principalmente, pela educação.

Magno era o tipo super presente, que se dedicava às pessoas. Tinha os companheiros do bar, do condomínio, de profissão, os amigos da universidade, a turma dos artistas e uma família afetuosa. Os filhos não vieram, mas os sobrinhos enchiam a vida, com direito a encontros diários para o tereré. Era tio que nunca dava broncas abertamente. Repreendia os excessos com um "as vezes você me decepciona".

Sem velório, o adeus foi diferente. Laís teve a difícil tarefa de escolher 4 pessoas para representarem todo mundo em um sepultamento de caixão fechado, sem flores e a cerca de 100 metros de distância. "Cheguei a pedir para minha sobrinha separar uma roupa para vestirem nele, mas disseram que não podia mais fazer isso", relata.

O jeito para os amigos inseparáveis foi um brinde de despedida, com vinho ou o uísque que Magno gostava, cada um em seu isolamento, cada qual com a sua tristeza de ter perdido uma unanimidade no quesito "gente boa".

Ele vai fazer falta, pela filosofia nos grupos de Whatsapp, na mesa do bar, nas festas da família, na hora de carnear um boi na fazenda, e nas muitas viagens pelo mundo. Dos Estados Unidos a Cuba, do Canadá à Europa, conheceu que o pode, viveu sem medos.


Empatia - Para Laís, a maior falta será a conversa sobre os dias e sobre "os problemas dos outros", porque eles mesmos "quase não tinham", garante a esposa. Fica a saudade do confidente "de um sigilo absoluto", como costuma dizer um dos sobrinhos.

Era ele também quem desligava a chaleira que por vezes quase incendiou o apartamento e que tirava os óculos do rosto dela depois que a esposa adormecia vendo TV.

O abraço? Melhor não falar. É tocar no assunto para o nariz avermelhar anunciando o choro. "É o que mais tenho sentido falta. Além de perder o Magno, não posso ter a família por perto, não vejo mais ninguém", explica Laís, que segue no isolamento mesmo depois de semanas de alta hospitalar, curada.

Desde que o marido morreu, só dois abraços trouxeram a paz que ela precisa. O primeiro de um dos irmãos, o segundo do médico que acompanhou Magno por mais de um mês.

Era o "doutor André" que lia os bilhetinhos enviados por ela ao esposo, sempre com mensagens otimistas e um "te amo" como assinatura. Dia sim, dia não ela escrevia. Nada consolava mais do que a caneta no papel.

"Fiz questão de conhecer o doutor André. Queria saber como o homem que cuidou do meu marido era. Foi a única pessoa que ficou com ele durante todos aqueles dias", justifica. Laís precisava descobrir humanidade na pessoa que fez as vezes dela ao lado do marido no momento mais dramático da vida dele, e não se decepcionou.

"Ele me deu um abraço tão forte, tão afetuoso, e disse que agora o Magno está bem", lembra a esposa que garante ter encontrado muita empatia e bondade durante "a pior experiência desta vida".

Hoje, os exatos 60 dias desde a despedida no hospital fazem lembrar da esperança de que tudo iria dar certo, não fosse a violência do coronavírus.

"Dói muito. Mas ele foi um presente na minha vida, foi um privilégio estar com o Magno todos esses anos", termina ela. -

Por Ângela Kempfer e Adriano Fernandes/ CAMPO GRANDE NEWS

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