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16/04/2016 07:30

Insegurança econômica deixa pessoas menos resistentes à dor

Saúde Plena

Todo mês é assim: as contas começam a chegar, e a calculadora não tem mais descanso. Fazer ginástica para evitar que o orçamento entre no vermelho é algo conhecido por muita gente. O que talvez poucos saibam é que a falta de dinheiro não dói só no bolso, mas é sentida também no corpo. Uma pesquisa norte-americana sugere que problemas monetários podem afetar diretamente a saúde das famílias. Segundo a análise, nas casas onde os recursos começam a faltar, o consumo de analgésicos aumenta, indicando uma relação entre a conta-corrente e o bem-estar físico.

De acordo com os autores do trabalho, a ideia de verificar a ligação entre os problemas financeiros e dores físicas surgiu de algumas observações anteriores. “Percebemos uma tendência cada vez mais prevalente entre a insegurança econômica e queixas de dor física. Por isso, começamos a nos perguntar se essas duas tendências sociais não estariam realmente ligadas”, explica ao Correio Eileen Chou, pesquisadora da Universidade de Virgínia (EUA) e uma das autoras do estudo.

Os cientistas realizaram uma série de análises para saber se dor e dificuldades financeiras caminhavam juntas. Em uma delas, um banco de dados de 33.720 consumidores foi analisado. As informações, colhidas em 2008, mostraram que, em famílias formadas por casais nas quais ambos os adultos estavam desempregados, o consumo de analgésicos era 20% maior do que nas casas em que pelo menos um deles trabalhava.

Em outra etapa, realizada por meio de um experimento de laboratório, os autores pediram que voluntários mantivessem a mão em um balde de água gelada. Eles observaram que os voluntários com preocupações quanto ao mercado de trabalho mostraram menos capacidade de tolerar o desconforto.

Para os responsáveis pela investigação, ao passarem por problemas financeiros, as pessoas sofrem com a falta de controle, ativando processos psicológicos associados à ansiedade, ao estresse e ao medo, que têm sido associados à dor. “Preocupações quanto à segurança econômica podem ter consequências cruciais sobre o bem-estar”, destaca Chou.

Mediadores
Para o psiquiatra Henrique Oliveira Dumay, a pesquisa americana explora um tema que tem sido objeto de estudo há algum tempo na área médica. “Os determinantes sociais há tempos são objetos de estudo da psiquiatria social, um ramo que relaciona os efeitos do ambiente social sobre a saúde mental. Entre esses determinantes, as finanças sempre estiveram em foco, e assume-se que sejam um dos mais importantes preditores de bem-estar”, esclarece o especialista, que não participou do estudo.

Dumay lembra um estudo de 2010 no qual se relacionou uma medida de felicidade à renda anual de americanos. “A pesquisa mostrou que mais dinheiro não está necessariamente relacionado à felicidade, mas menos dinheiro está relacionado à dor emocional”, completa.

De acordo com o brasileiro, os novos dados podem servir como um aviso, mas outras possibilidades para a causa da dor física devem ser levadas em conta. “Certamente, o alto consumo de remédios para dor deve servir de alerta para mostrar que algo não está bem. Não podemos, entretanto, apontar o estresse financeiro como a única causa para essas sensações físicas. Temos de levar em conta que, muitas vezes, transtornos dolorosos são incapacitantes e levam a dificuldades laborais, tendo repercussões financeiras como consequência. Os próprios autores do estudo afirmam que essa relação acontece por meio de múltiplos mediadores”, destaca.

Mais estudos
Os estudiosos norte-americanos reconhecem que muitos fatores podem estar relacionados e continuam a aprofundar a pesquisa. “Estamos analisando se e por que a incerteza econômica pode provocar dor física. E a direção inversa — a dor física levando à incerteza econômica — também é altamente plausível. Isso destaca um ciclo negativo de aprisionamento. As pessoas que sofrem com mais dor física, grande parte poderia englobar o grupo de desempregados, o que dificulta ainda mais a sua capacidade de se recuperar de dificuldades financeiras”, diz Chou.

A autora acredita que, futuramente, outras pesquisas poderão contribuir para melhorar programas de saúde pública. “Ao mostrar que a dor física tem raízes na insegurança econômica e nos sentimentos de falta de controle, os resultados atuais oferecem esperança para produzir um novo ciclo com mais bem-estar e livre da dor. Essa é uma grande questão empírica que requer mais pesquisas, o que faremos”, adianta.

Henrique Dumay também acredita que mais estudos são necessários. “A relação entre estresse financeiro e dor está longe de ser totalmente determinada. É necessário, ainda, avaliações sociais, comportamentais, neurofisiológicas e genéticas para sua caracterização. É um assunto importante que começa a ser pesquisado. Imagine que a forma de lidar com as finanças pode ser associada a mudanças comportamentais e a formas de modular eventuais quadros dolorosos. Muitas pequisas são necessárias ainda nesse sentido, mas os resultados mostram a complexidade das relações entre o corpo e a mente”, destaca.

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