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23/04/2004 09:49

História: Dante relembra movimento das Diretas Já

Deigma Turazi/ABr

No dia 12 de março de 1983, eleito deputado federal meses antes pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) de Mato Grosso, Dante de Oliveira marcou definitivamente sua participação na história do Parlamento e do país: apresentou ao Congresso Nacional a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) n° 5. Após quase duas décadas de abstinência democrática imposta pela ditadura militar, esta emenda propunha eleição direta para a Presidência da República. E apesar de rejeitada na Câmara dos Deputados, na madrugada do dia 26 de abril de 1984, dava início à maior mobilização popular já vista no Brasil.

Com 32 anos de idade na época, Dante de Oliveira se aliou ao grupo liderado pelo deputado Ulysses Guimarães (MDB-SP), o “Senhor Diretas”, e que incluía ainda o senador Teotônio Vilela, o “Menestrel das Alagoas”, o então líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva e o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, entre outros que sonhavam com o ideal de um presidente eleito diretamente pelo povo. O novo desafio seria acabar de vez com o Colégio Eleitoral.

Ex-governador de Mato Grosso, Dante de Oliveira hoje é vice-presidente nacional do PSDB e presidente do partido no estado. E lembra: “Naquele momento, perdemos a batalha, mas começamos a ganhar a guerra”. Para comemorar o aniversário da campanha pelas eleições diretas, lança neste mês o livro “Os 15 meses que abalaram a ditadura”, escrito em parceria com o ex-deputado federal Domingos Leonelli.

A seguir, alguns trechos do depoimento de Dante de Oliveira:

Emenda

“Quando fui eleito deputado federal, logo que cheguei aqui, no dia 1° de janeiro de 1983, antes de tomar posse, já estava com o projeto de emenda constitucional para restabelecer o voto direto na minha cabeça. Essa emenda era necessária porque estava escrito na Constituição que a sucessão presidencial se daria por meio do Colégio Eleitoral, uma eleição indireta. No Centro de Processamento de Dados do Senado (Prodasen) não havia projeto semelhante registrado. Passei os meses de janeiro e fevereiro correndo atrás das 170 assinaturas de deputados e 23 de senadores, necessárias para que a proposta entrasse em tramitação. Não foi um trabalho fácil para um guri novo como eu, de 32 anos, sem conhecer todas as pessoas no Congresso Nacional, mas no dia 12 março o projeto estava registrado lá. A votação só aconteceria no dia 25 de abril de 1984."

Comícios

“Participar dos comícios era um misto de responsabilidade e alegria, porque a bandeira das Diretas Já se transformara em uma unanimidade nacional. Só a ditadura e os bajuladores da ditadura estavam contra. O resto, o Brasil inteiro, área rural, área urbana, empresários, imprensa, todo mundo era a favor das diretas. Lembro particularmente do comício do dia 10 de abril de 1984, na Candelária, Rio de Janeiro, pouco antes do dia da votação da minha emenda. Não estava nem inscrito para falar, mas o Brizola foi ao microfone e me chamou, de improviso, me jogou na frente de 1 milhão de pessoas. Nunca vou esquecer, porque eu nem sabia o que falar, de tão emocionado e nervoso. Imagine, de uma hora para outra, você se ver cercado por toda a imprensa nacional, imprensa internacional, microfone, fotógrafo, com a responsabilidade de ser o autor do projeto. Era importante ganhar a rua para pressionar o Congresso a votar a aprovação da emenda. Mas também era importante ganhar aqueles que ainda estavam apoiando a ditadura dentro da Casa, deputados e senadores que poderiam vir para o nosso lado. Este foi um grande aprendizado na minha vida pública. E tive que aprender rápido, nesse período tão rico da vida brasileira.”

Sabedoria

“Com a rejeição da emenda, nós perdemos uma batalha mas ganhamos a guerra. Ganhamos com a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, no ano seguinte. O Tancredo era uma grande figura humana, um democrata autêntico e um homem que lutava pela eleição direta com a mesma energia, a mesma força com que lutava contra a doença que o abatia. Quando o Ulysses Guimarães precisou tirar uma licença por questão de saúde, Tancredo Neves assumiu e embalou a campanha. Ele foi à OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e à ABI (Associação Brasileira de Imprensa), sempre com aquele jeito de poeta, de sonhador, e esses apoios foram muito importantes.

Já o Teotônio Vilela virou um símbolo, principalmente depois que o Henfil fez aquela caricatura dele com uns dois ou três riscos. Ele morreu em novembro de 1983, havia um comício no dia, depois de muita luta pelas diretas e pela democracia. Teotônio Vilela e Ulysses Guimarães, com sabedoria e perspicácia política, entenderam que o restabelecimento das eleições para presidente da República era uma grande bandeira de luta. E foram construindo a unidade do PMDB, que tinha diversas correntes políticas. Não era um partido que, num estalar de dedos, levava todo mundo para a rua com a campanha das diretas. Alguns governadores tinham interesse de não brigar com a ditadura, assim como alguns deputados, senadores, prefeitos. O partido era muito grande, mas após muita costura pela unidade, Ulysses percebeu que tinha o PMDB inteiro naquela luta. Foi quando ele se transformou no Senhor Diretas”.

Pressões

“Antes da votação, dizia-se que tamanha pressão popular faria com que o Congresso votasse favoravelmente. Afinal, havia comícios, apoio da imprensa, o Placar das Diretas nas grandes capitais. Mas também havia informações de que os militares jogariam uma pressão monstruosa sobre o Congresso, como foi feito com a decretação do estado de emergência, o sítio na Praça dos Três Poderes, o general Newton Cruz com toda aquela parafernália de cavalos e chicoteando os carros que faziam o buzinaço. No Congresso, vivemos momentos de muita instabilidade, nossas emoções iam da euforia à dúvida. Mas de uma coisa tínhamos certeza: o Brasil era outro naquele momento. A sustentação da ditadura estava rachada, a tal ponto que eles não conseguiam consenso para ter um candidato próprio no Colégio Eleitoral."

Luta

“A luta política não se faz num ringue, mas na verdadeira arena que é o plenário das Casas no Congresso, onde se lida com idéias e ideais, com energia cívica. Só os brutamontes, os que não têm idéia para defender, é que partem para a ignorância. Apesar do sentimento de dor, da decepção de não ter ganho, sabíamos que lá na frente iríamos ganhar. Na madrugada do dia 26, o Congresso se transformou num mar de tristeza. Lembro da deputada Cristina Tavares, que chorava copiosamente, mas não nos deixamos levar pela emoção. Já no dia seguinte nós dávamos entrevistas dizendo que era preciso união para levar nosso candidato à vitória. É lógico que o partido estava dividido, havia um grupo minoritário que criou o Só Diretas, para manter a campanha, mas essa energia já não cabia. O jogo agora era no Colégio Eleitoral e o único homem capaz de vencer lá, nós sabíamos, era o governador de Minas Gerais, Tancredo Neves. Ainda no momento da votação da emenda, quando faltaram 22 votos para a aprovação, ficara claro o motivo para a ditadura ter demorado tanto no país, mesmo desgastada, desmoralizada, marcada pela corrupção, pelo arbítrio, pela violência, pela censura. A ditadura se sustentava porque ainda havia deputados e senadores que a aprovavam por oportunismo, por fisiologismo. Tiveram a coragem de votar contra o povo brasileiro naquele momento em que o povo inteiro estava na rua. Não houve traidores, houve os que não são democratas, um bocado deles, votando contra.”

Livro

“No livro que estou lançando, procuro mostrar tudo o que aconteceu naquele período em que os governadores de oposição se elegeram. Pedro Simon, no Sul, Leonel Brizola, no Rio de Janeiro; Franco Montoro, em São Paulo; Tancredo Neves, em Minas Gerais, essas vitórias revelam que naquele momento a grande bandeira política era a das diretas. Embora o PMDB e a esquerda brasileira estivessem jogando suas fichas na Assembléia Nacional Constituinte, que buscava a ruptura do poder. Mas para mim náo existe, na política, esse negócio de mágoa, de ódio. Política é escola de psicologia humana, é preciso compreender as pessoas. O Ulysses Guimarães sempre falava: ‘Ai daquele que faz a política com ódio. O fígado não é bom conselheiro’. Isso eu conto no livro, que se pretende uma contribuição para a história do Brasil. A campanha pelas diretas foi o maior movimento cívico da nossa pátria – e um movimento pacífico, sem quebra-quebra. Nós derrubamos a ditadura sem um tiro, sem uma bala, e acho que foi uma grande lição para os que viveram e para as futuras gerações. A lição de valorização da democracia."

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