Cassilândia, Terça-feira, 06 de Dezembro de 2016

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01/08/2016 08:26

Fabiana viveu 25 anos a mais do que previa Medicina, para transformar a família

Campo Grande News
As lembranças que ficaram em fotos: Fabiana com os irmãos Lucas e Gabriela.As lembranças que ficaram em fotos: Fabiana com os irmãos Lucas e Gabriela.

Fabiana nunca precisou falar, andar e nem enxergar para encher a casa de alegria. Desafiou os médicos, vivendo 25 anos mais do que o previsto e trouxe consigo uma força divina à mãe, que durante duas décadas se dedicou a respirar pela filha mais velha.

Nascida com mielomeningocele – má formação que não fechou a coluna- , o tempo de hospital fez com que a menina contraísse uma infecção bacteriana e meningite. O dia em que ela saiu da maternidade, foi a data mais feliz da vida de Márcia e quando, em sonho, ela falou com a mãe pela primeira vez, também.

“Primeira filha, primeiro neto de ambas as partes. A gente tinha a maior expectativa, fez mil planos, mas esqueceu de combinar com a vida”, conta Márcia Vargas Lopes Paniago, hoje com 53 anos.

Dentista por formação, Márcia escolheu abrir mão da profissão e do próprio eu, pelos filhos – depois de Fabiana ainda nasceram Lucas e Gabriela. A mãe acordava a cada três horas para virar Fabiana na cama, que mesmo deitada durante todos esses anos, nunca teve uma escara. Assim como a renúncia, Márcia também escolheu vestir delicadeza e se levantar do travesseiro com doçura no coração a ponto de não se deixar amargar pela vida.

“Eu sempre fui uma pessoa muito conformada, acho que nada acontece por acaso, tudo tem um por que. Se eu estudei a minha vida inteira, tinha mil planos e isso me freou, será que não foi para eu me dedicar a alguma coisa mais interessante do que aquilo que eu julgava ser? Nós não nos revoltamos. Encaramos como uma missão”, explica.

O nascimento de Fabiana com a má formação foi uma surpresa para ela e o marido, Tonzé. Na ultrassom não fora detectada de que seria uma luta diária barriga fora. “Com um mês dela no hospital, o médico nos chamou e disse que ela não viveria e que poderíamos providenciar o funeral. A cada ano que passava, chegava um e falava: 'desse ela não passa, ela não vai viver muito' e ela viveu 25 anos”, se consola.

Quando o telefone tocou em casa e do hospital veio a notícia da alta, Márcia saiu dançando com a vassoura de alegria. Enorme, gordinha, eram 52cm e quase 4 quilos. Não se sabe se a tentativa de fechar o buraquinho aberto na medula não deu certo ou se foi erro, as sequelas que Fabiana teve fizeram a mãe abdicar de tudo e ainda assim, da maternidade os três seguiram para a Paróquia São João Bosco, para agradecer.

Do dia a dia, a mãe lembra cada passo que tomava. “Ela não fazia nada sozinha, nem xixi e nem coco. Eu tinha que por uma luva e tirar e fazer manobra na bexiga para poder esvaziar”, recorda. Era por instinto de mãe que Márcia sentia que era hora de fazer cada uma dessas coisas. As orientações dadas pelos médicos eram poucas perto do que a rotina lhes ensinava.

“A gente tentava levar uma vida normal, mas eu saia atropelando meio mundo no mercado, voando e às vezes fazia compra pela metade, vinha em casa, olhava ela e voltava. Era muito pesada a vida para ela”.

Fabiana chegava a ter mais de 10 convulsões diárias. À época, não existia tratamento que parasse com as crises. Na tomografia, a mãe lembra de ter visto um pedacinho do que ficou do cérebro da filha depois da meningite.

“Era uma sensação de impotência, de não ter o que fazer a não ser cuidar e ainda assim, ela era muito feliz, sorria, balbuciava algumas coisas, a gente entrava no quarto e ela sentia e já abria um sorrisão”.

Todo mundo que falasse de uma forma carinhosa com a menina, tinha de volta um sorriso escancarado. A idade mental era de bebê e nas fotos, a mãe se lembra dos 15 anos dela com uma coroa de flores, capricho da irmã caçula, Gabriela.

O rosto era bem desenvolvido, assim como o tronco, as perninhas é que eram pequeninas e as mãozinhas, as mais lindas do mundo, garante a mãe. Fabiana viajava com a família, numa mega estrutura. Deixá-la, ainda que sob os cuidados dos avós, era um desespero para a mãe.

“Eu nunca senti isso como um peso ou uma dificuldade, a nossa única preocupação era a vida dela”, explica Márcia. Fabiana não engolia sozinha, então cada refeição levava pela menos 1h30, de colherzinha, entre o pastoso e o líquido, é que a comida chegava à sua barriguinha. Até a sucção no nariz era feita de canudinho, pela mãe.

Por conta das lesões no cérebro, Fabiana teve uma vida breve, mas passou pela puberdade e chegou à velhice, até que em julho de 2010, se despediu. “A gente não sabe direito o que a levou, mas eu imagino que ela tenha se engasgado com alguma coisa e de pneumonia”, acredita a mãe.

Em casa, estava só mãe, Fabiana e a caçula, quando perceberam que a menina havia parado de respirar. Por experiência, já tinham sido vários episódios de crises controladas por massagens e boca a boca da mãe. “Ela não conseguia voltar, aí escorreu secreção e eu tirei, porque isso era normal do dia a dia e comecei a fazer massagem cardíaca”, lembra.

Com o pai de plantão, foi o cunhado que passou para levá-las ao hospital o mais rápido possível. No primeiro atendimento, retiraram a secreção do peito de Fabiana, mas a filha apresentou um quadro de pneumonia e não saiu do hospital.

“Eu imagino que tenha sido por aspiração de alimento, ela já estava debilitada, porque quando eles ficam idosos, tudo mais ficando mais lento. Ela não era para viver tanto tempo e era como se fosse uma idosa, nos últimos anos a gente percebia que ela se cansava”, descreve a mãe.

Falar da partida da filha ainda é difícil para Márcia, mesmo ela acreditando que estivesse – à época – preparada. “Foi desesperador. Você passa a vida inteira se preparando, porque era óbvio que ela iria antes, só que quando a morte chega, ela te surpreende. Você se desespera. Eu voltei para casa e aí que eu fui entender o porque nas novelas tudo passa em câmera lenta...”, compara.

Sem conseguir ver as coisas normalmente, ela e a família estavam arrasados. “Eu continuei levantando durante à noite por um bom tempo, achando que ela estava ali e quando eu via que não, assustava muito”.

O tempo passou e a saudade foi se transformando de uma doída para uma triste e depois tomou a forma das lembranças bonitas vividas entre mãe e filha.

“Às vezes eu tenho algumas recaídas e até me culpo: ‘por que eu não cuidei melhor? Por que eu dei aquela comida que ela foi engasgar?’ O ser humano sempre acha que poderia ter feito diferente, mas você tem outros filhos, tem marido e isso vai te fortalecendo, só que morre um pedacinho assim, sabe? Não volta, é complicado porque não é a ordem natural das coisas”, desabafa.

Na mesma casa, seis anos depois, Márcia responde para si mesma o que ficou de Fabiana. “Ela tinha uma energia muito grande. Ela não precisava falar e nem fazer nada e ainda assim enchia a casa e foi essa alegria que ela deixou e que a gente tenta viver isso sempre. A Fabiana unia as pessoas, a nossa família vivia em função dela, a gente se programava para fazer tudo o que ela pudesse fazer e todo mundo via que ela lutava. Ela foi um elo de união e era uma luz muito grande”.

Quando partiu, o quarto que dividia com a irmã foi desmontado. A mãe não achava justo com a outra filha, permitir que ela dormisse com a dor da saudade. Márcia guardou a própria dor e em dois dias doou as roupinhas e a cadeira especial para a Pestalozzi e deixou na caixinha da saudade a primeira roupinha da maternidade, um bichinho que servia para guardar remédios e a bonequinha da filha.

Volta e meia, a caixinha é aberta e mesmo sabendo que o cheiro da filha não está mais ali, a mãe ainda o sente. “De vez em quando eu vou no guarda-roupa e dou uma cheiradinha, sei que não está mais ali, eu lavo e guardo”.

No dia anterior à entrevista, quando o convite surgiu para que Márcia contasse sua história, a noite trouxe um alento. “Eu sonhei com ela e ela falou comigo e foi tão real, tão bom, porque eu nunca ouvi a voz dela. ‘Mamãe você me ajuda a andar?’ ela me disse e eu peguei na mãozinha dela e aquilo foi tão bom, ela nunca falou mamãe. Foi tão confortante, parecia tão real, que eu nem queria acordar”.

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