Cassilândia, Quarta-feira, 07 de Dezembro de 2016

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03/08/2015 12:30

Estudo afirma que cães têm atitudes parecidas com as de crianças pequenas

Saúde Plena

Colo, comida e carinho figuram na lista dos desejos mais comuns dos cães. E os donos cedem sem poupar mimos. Presenteiam os pets com quitutes, roupinhas e até festas de aniversário. Mas, se os humanos consideram os cães como filhos, de que maneira os cães percebem os humanos? Uma pesquisa realizada pela Universidade de Viena, na Áustria, comprovou o que a maioria das pessoas percebe no dia a dia: os cães agem igual a crianças pequenas diante dos donos.

Dois testes foram aplicados em mais de 40 cachorros. A intenção de Lisa Horn, líder do grupo, era saber como os bichos se comportariam diante do silêncio, da ausência e de incentivos do dono. Para tanto, adaptou o teste de situação estranha de Ainsworth, no qual são analisadas as reações de crianças submetidas a ambientes estranhos com e sem a presença dos pais.

Lisa constatou que os cães, assim como as crianças, sentem insegurança e ansiedade quando estão separados dos cuidadores. No entanto, os animais ficaram mais motivados a brincar e a explorar o ambiente com a presença dos donos, principalmente quando eram encorajados. Para explicar as constatações, Lisa recorreu a conceitos da Teoria do Apego, proposta pelo psiquiatra e psicanalista infantil John Bowlby.

Segundo Bowlby, as crianças não se apegam aos pais apenas porque eles fornecem alimentos, mas também porque o vínculo afetivo garante que elas tenham sucesso nas capacidades cognitivas e emocionais. Mais do que um sentimento, o apego é um instinto que permite que a criança se sinta segura ao lado de alguém que ofereça a ela estabilidade. Para Lisa, o mesmo comportamento é percebido na relação entre os cães e os donos.

“O resultado mais interessante do nosso estudo foi que esse efeito de base segura parece influenciar mais as interações dos cães com o meio do que se pensava anteriormente. Em nosso experimento, todos os animais estavam muito interessados na comida e sabiam que tinham que manipular os brinquedos para obtê-la. No entanto, na ausência do dono, eles não se sentiram seguros o suficiente para realizar essa tarefa. Podemos imaginar que a mesma insegurança também afeta outros aspectos da vida dos cães, assim como a motivação deles para participar de treinamentos”, explica Lisa Horn.

Estratégia adaptativa
Não é à toa que esse comportamento tão parecido com o dos humanos tenha surgido nos cães. Segundo a veterinária Ceres Berger Faraco, diretora do Instituto de Saúde e Psicologia Animal (Inspa), o cão desenvolveu traços comportamentais não evidenciados em outros animais que são funcionalmente análogos aos dos humanos para que pudesse se adaptar a ambientes comuns. “Estamos nos referindo à habilidade de compreender gestos humanos e, assim, se comunicarem conosco.”

Esse mecanismo biológico de vinculação remonta à aproximação dos cães — em especial o chacal — aos ancestrais humanos. Segundo Faraco, esse acontecimento tem uma importância extraordinária, pois foi a primeira vez que um animal (o humano) pôs a seu serviço um outro (o cão) mediante um contrato de benefícios para ambos. Essa parceria envolve formas complexas de comunicação, obediência, ódio e fidelidade que até hoje configuram o relacionamento com essas mascotes.

No entanto, para que esse relacionamento se fortalecesse e o cão fosse incluído no status de animal de estimação, os bichos se submeteram a três condições primordiais, segundo Faraco: a permissão para o livre acesso às residências, o nome individualizado e a não classificação como fonte de alimento. “Nesse sentido, pessoas e cães se apoiaram e estabeleceram relações íntimas perenes e de cumplicidade. Isso se consolida como um suporte social inestimável”, afirma.

Segundo a veterinária, outro fator que influenciou essa relação é a semelhança entre a organização social e o sistema de comunicação de ambas as espécies. O comportamento de apego que os cães têm com os humanos e com outros cachorros é fundamental para as espécies sociais e caracteriza uma relação afetiva de dependência do bebê, ou do filhote, que se manifesta pela necessidade da relação com o outro. “Tanto humanos quanto canídeos vivem em extensos grupos familiares, proveem os filhotes de atenção parental, compartilham cuidados com os mais jovens e outros membros do grupo”, completa.

Para Lisa Horn, o interesse em estudar o comportamento dos cães vem da necessidade de saber como os animais desenvolveram habilidades sociais tão sofisticadas, como se apegar e comunicar com humanos sem ter a capacidade da fala. “Nós também queremos entender qual papel exercido pelo dono, pois isso pode nos ajudar a interagir com os cães e melhorar as condições de vida desses animais”, diz a autora do estudo.

Tratamento tem que ser diferenciado

Apesar de tantas semelhanças com os humanos, o veterinário Flávio Nunes destaca que tratar um cão como bebê ou criança pequena é a pior coisa que um dono pode fazer ao bicho de estimação. Esse tipo de cuidado desencadeia um processo de antropomorfismo no animal. “Quando os tratamos como seres humanos, estamos provocando, direta e indiretamente, alterações psicológicas, emocionais e comportamentais gravíssimas, entre elas ansiedade, medo e ciúme excessivos. O cão deixa de se entender como um cão e toma atitudes extremas pelo simples fato de não saber qual é o seu lugar no núcleo familiar”, esclarece o também especialista em morfofisiologia e comportamento animal.

Nunes ressalta ainda que, como os seres humanos, o cão tem a própria maneira de ser e interagir com o mundo à sua volta, independemente da raça. Boa parte dos traços de personalidade do animal é reflexo da convivência com o dono. Mas há características que pertencem apenas à natureza do bicho. “Normalmente, os pinscheres são extremamente agitados e os labradores calmos e brincalhões. Porém, já vi exatamente o inverso. Em parte, por ser da própria natureza do animal e, em parte, pelo fato de o animal não ser tratado como tal pelos donos”, explica Nunes.

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