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05/03/2008 10:31

Especialistas defendem doação de embriões

Paulo Montoia/ABr

São Paulo - A discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o uso de embriões humanos para pesquisa científica deverá levantar o debate sobre a reprodução humana assistida, com a fecundação de óvulo em laboratório. A avaliação é de cientistas e juristas que participaram de debate ontem (4) na sede da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Com o tema Onde Começa a Vida?, o evento contou com a participação de dois pesquisadores que trabalham com células-tronco, um contra e outro favorável ao uso de embriões humanos, e de dois juristas, que também defendem posições contrárias.

O médico Marcelo Paulo Vaccari Mazzetti, vice-presidente do Instituto de Pesquisa de Células-Tronco, afirmou que a sua posição é lutar pela vida. Ele defendeu a possibilidade de que todos os embriões congelados no país fossem doados para serem gerados por mulheres que querem ter filhos e não conseguem.

“Em todos os tratados, nós médicos não temos dúvida: o desenvolvimento humano inicia-se na fertilização do óvulo”, destacou Mazzetti, que questionou “como o ser humano pode condenar à morte a mais indefesa das formas da vida humana?”.

O pesquisador trabalha exclusivamente com células-tronco adultas e defende que se tente avançar nas pesquisas apenas com essas células. Também disse que é preciso manter a ética nas pequisas, que, segundo ele, devem começar por ensaios e cobaias antes de chegar ao ser humano.

Mazzetti também questiona a lei brasileira atual que permite o uso de embriões definidos como inviáveis, pelos médicos, ou os congelados há três anos. Segundo ele, há casos de gravidez com sucesso com embriões congelados há oito anos e o único processo de seleção possível para a viabilidade deve ser a aceitação ou a rejeição do útero materno.

“Por que fazer tantos embriões congelados? Nós temos um problema, temos médicos brincando de Deus. Eles estão fazendo seres humanos em série. E alguns eles congelam”.

Para a pesquisadora Natassia Vieira, do Laboratório de Células-Tronco do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo, as pesquisas com as células embrionárias não ferem princípios humanos definidos pela ciência e são importantes porque permitirão avanços. “A sociedade já tem um consenso sobre o fim da vida, que é o fim da atividade cerebral, encefálica. E o embrião não tem neurônios antes de 30 dias”, destacou..

Segundo ela, as células-tronco embrionárias dão origem a 216 tipos de células humanas adultas e estudá-las é um caminho que não pode ser descartado para aprender sobre a constituição do corpo humano e curar doenças como mal de Parkinson, Alzheimer, epilepsia, mal de Huntington, esclerose lateral amiotrófica.

Natassia Vieira faz pesquisa sobre problemas neuromusculares e utiliza ambos os tipos de células-tronco. Ela afirma que têm sido infrutíferas todas as tentativas para construir células nervosas a partir das células adultas, apesar dos esforços das equipes dos institutos de Biologia e de Química da universidade. “Elas geram neurônios, mas eles não passam sinais”, explicou.

Em entrevista à Agência Brasil, a pesquisadora e especialista Maria do Carmo Borges de Souza opinou que o termo “inviáveis”, usado na regulamentação, não é adequado. Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, vice-presidente da Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida e proprietária de uma clínica na área, ela afirma que não é esse o ponto.

"Se não fossem viáveis não estariam congelados, se não fossem viáveis eles não teriam vida e não seriam úteis nem para a pesquisa de células-tronco. Eles poderiam ser doados se o casal assim definisse para um outro casal, porque, para alguns casais, aqui no Brasil, está havendo gestação de embrião de oito anos, de dez anos e, no mundo, há relato de embriões de 14 anos. Eles são viáveis, mas eles estão parados”.

Para Maria do Carmo Borges, a discussão é importante, é pública e precisa ser feita. “Eu vejo como cientista que a questão da pesquisa com célula-tronco embrionária é importante, é essencial, e ela veio para ficar. Eu acho extremamente importante que seja veiculado porque a ciência passa pela sociedade. E eu acho que essa discussão é pública mesmo, e afloram os sentimentos todos, os razoáveis e os extremistas. A sociedade de cientistas não está contra a discussão.”


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