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02/11/2003 13:50

Especial: O país da guerra busca a educação para a paz

Por Spensy Pimentel-Enviado especial a Luanda/ABr

Luanda - Veríssimo Cassoma tinha 17 anos quando foi arrancado da sala de aula para combater pelo exército angolano. Ele nasceu na província de Huambo, mas foi criado em Benguela. Hoje, aos 30, trabalha em Luanda numa empresa brasileira de comunicação social que presta consultoria ao governo angolano e tem a oportunidade de recuperar o tempo que a guerra lhe roubou. Devora em leitura o que lhe cai às mãos e quer aprender sobre tudo o que está ligado a propaganda, marketing, relações públicas, jornalismo. E sonha em estudar no Brasil, país cujos habitantes tem em cada vez mais alta conta. “Vocês vêm aqui não apenas para levar coisas, como sempre fizeram os estrangeiros. Também estão deixando o conhecimento, e a isso nós sabemos dar valor”, explica.

Quarenta anos são tempo bastante para um casal ter filhos e netos. Há, hoje, em Angola, mais de uma geração inteira a educar. E os brasileiros, com sua proximidade lingüística e cultural, já estão engajados nessa tarefa. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, o país é hoje o principal beneficiário dos programas de cooperação técnica desenvolvidos pelo Brasil em nações em desenvolvimento. Está situado em Luanda o principal projeto de cooperação co-financiado pelo Brasil, o Centro de Formação Profissional do Cazenga. Fundado em 1998, a unidade forma cerca de 1.000 profissionais por ano e é mantida graças ao apoio técnico do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, o mesmo Senai que formou o jovem pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva como torneiro mecânico nos anos 60. O presidente Lula visita o Cazenga na terça-feira pela manhã, como parte da agenda oficial.


Bairro na periferia de Luanda criado para abrigar moradores cujas casas foram desapropriadas
A lista dos acordos em negociação entre os dois países dá uma boa idéia do tipo de contribuição que o Brasil pode oferecer. Agronomia, veterinária, extensão rural, agricultura familiar, educação ambiental, engenharia do petróleo, desenvolvimento urbano e administração pública são alguns dos temas. “A cooperação brasileira pode ir além disso. Guardadas as nossas limitações, já que, afinal, também somos um país em desenvolvimento, podemos oferecer tudo de que eles precisarem”, diz o embaixador brasileiro em Angola, Jorge Taunay.

O investimento privado também deve ter seu papel nessa colaboração. A maior universidade particular brasileira já enviou este ano uma missão com a finalidade de prospectar mercado em Angola. E empresas com atuação no país mantêm convênios voltados para o campo da educação. A Petrobrás, por exemplo, tem parceria com sua congênere, a Sonangol, e o Ministério dos Petróleos. Forma anualmente centenas de trabalhadores e colabora no envio de estudantes para intercâmbio em universidades brasileiras. Em doações para escolas, creches, hospitais e comunidades rurais, a empresa investe cerca de US$ 800 mil anuais.

Independência e educação

O papel que a educação pode exercer na história de um país está na gênese do processo de independência de Angola. O país tinha, em 1950, 97% de analfabetos. Portugal não investia um único centavo na educação em suas colônias. Deixava-o a cargo das missões da Igreja Católica, com a ressalva de que a catequização deveria ser realizada unicamente em língua portuguesa.

Bolsas de estudo em Lisboa premiavam um pequeno número de privilegiados. Entre as décadas de 40 e 50, grupos desses estudantes ganharam consciência de sua condição africana e lançaram as bases dos movimentos nacionalistas nas colônias. Conviveram na metrópole nessa época futuras lideranças como Amílcar Cabral, que lideraria a independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde, e o angolano Agostinho Neto, fundador do Movimento Popular pela Libertação de Angola.


Fiéis em frente à igreja evangélica de origem brasileira "Universal do Reino de Deus", em Luanda
Após a independência, o comprometimento financeiro gerado pelos conflitos com a guerrilha chegou a tomar cerca de um terço do orçamento angolano. Hoje, o governo ainda publica anúncios nos jornais para informar que “parte significativa da receita ainda está comprometida com os encargos financeiros do pagamento da dívida externa (são 35,7% dos 539 bilhões de kwanzas arrecadados pelo governo) e com as despesas de segurança decorrentes do processo de paz (13,64%, somando-se as rubricas “defesa nacional” e “segurança e ordem pública”)”.

MPLA e Unita, os dois antigos rivais no campo de batalha transferiram para o jogo democrático suas divergências e dividem as 220 cadeiras da Assembléia Nacional (são 129 para o MPLA e 70 da Unita). Há três anos, a Unita ainda divulgava em rádio ameaças de morte aos brasileiros residentes no País. O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a independência do país, em favor do MPLA e contra as reivindicações de primazia por parte da Unita. Hoje, os ex-combatentes da guerrilha participam de programas de reinserção social que contam com a consultoria de especialistas brasileiros no auxílio à busca de novas ocupações mais adequadas aos tempos de paz.

Por enquanto, parte dos ex-combatentes converteu-se no exército de seguranças que guardam os estabelecimentos comerciais da capital. Outro desafio é desarmar a população. Não há estatísticas a respeito, mas, na época dos combates na capital, entre 1992 e 1993, o exército chegou a distribuir armas para os civis e, nos mercados públicos da capital, minas, fuzis e munição eram vendidos em bancas lado a lado com frutas, verduras e temperos. O governo agora prepara campanhas de conscientização.

“Quando dois elefantes lutam, quem sofre é o capim”, diz um ex-combatente que hoje trabalha na polícia local. No caso, o capim foram, além da infra-estrutura do país, os quase 3 milhões de “deslocados”, os habitantes do interior do país que, em sua maioria, vieram em busca de segurança até a capital do país.

Calcula-se que mais da metade desses refugiados já retornou a seus locais de origem. Mas, uma parte considerável teceu laços na cidade grande e já não pensa em voltar. O resultado é que Luanda, uma cidade que contava com pouco menos de 1 milhão de pessoas nos anos 70 tem hoje 4 milhões – e já abrigou 6 milhões no auge da guerra. Muitos dos que ficaram habitam em condições precárias. Mesmo assim, é comum ver grupos dessas pessoas, ao ar livre, em aulas em lousas improvisadas nos abrigos para refugiados que ainda restam na capital.

Numa rua do bairro do Alvalade, a estudante Fernanda Manoel, 16, observa um pequeno cartaz colado num muro. Anuncia um curso de computação. São US$ 50. Ela cursa atualmente a sétima série. Por causa da guerra, teve de mudar tantas vezes de cidade em sua província natal, Huambo, que não conseguia completar os anos letivos. Agora, veio para Luanda com a família para, finalmente, completar os estudos. E tem pressa

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