Cassilândia, Sábado, 16 de Dezembro de 2017

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17/01/2004 08:24

Espaço de Nilton Bustamente

Nilton Bustamante

NESSUN DORMA”

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouví-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...


E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.


Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem quando estão contigo?”


E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode Ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.



(“Poemas”, Olavo Bilac)





Ando pela estrada, nesses interiores, pela madrugada.

Estou com sorte. O céu está a um palmo.

Estrelas mostram-se preciosas.

Tornei-me caminhoneiro por várias circunstâncias.

Talvez a razão mais forte é o espírito livre e aventureiro dentro de mim.

Estou tão só. A madrugada...

As músicas do rádio arranham meu coração.

Vejo no acostamento da rodovia uma mulher.

Parece ser jovem.

É mais uma princesa beira-de-estrada.

Resolvo parar.

Estou tão carente.

Não parece armadilha.

Cobra pedágio aos corações solitários que passam pelo seu reino.

Apresento-me. Pergunto futilidades.

Percebo que ela tem instrução. Soube depois que parou, como eu, na metade do curso universitário.

É uma ironia.

Eu no comando de um caminhão e ela na profissão mais antiga.

Como viemos parar assim na contramão?

Este país poderia ser melhor...

Estamos mais mecânicos que as engrenagens articuladas automotivas.

Andando pela estrada da vida podemos nos surpreender a qualquer momento.

Disse à minha acompanhante noturna:

- Imagino que alguém já deve ter-lhe dito que gostaria que fosse diferente, assim com sentimentos... Estou tão encantado com você. Com sua beleza.

Continuo com o galanteio, proponho:

- Você é minha convidada.

Faremos, você sabe, somente se realmente acontecer. Só se for de sua vontade.

Vamos, sem pressa, conversar e passear pela noite.

A moça olha desconfiada. “Armada”.

O céu chama a atenção.

Comento então:

- Veja aquelas estrelas.

São viajantes como nós.

Elas estão tão distantes e tão próximas.

Divino, não?

Ela só ouve. Olha quieta para cima. Contempla.

Prossigo dizendo:

- Os raios de luz desses astros percorrem uma distância tão grande, tanto tempo, que quando aparecem na tela do nosso céu, essas estrelas na verdade não estão mais lá. Já se foram há décadas.

É imagem itinerante.

Tudo é miragem. Vemos algo que já se passou há muito...

Olho fixamente nos olhos dela:

- Mas você não é miragem, certo?

Sua luz me cega com tanta beleza.

Envergonhada, desconversa:

- Fale-me mais sobre as estrelas.

Que mais sabe sobre elas?

Viaja nas estrelas, ou com as estrelas -brinca.

Respondo em tom romântico:

- É possível...

Vamos observá-las atentamente e ver o que trazem.

Vê aquela isolada à direita, bem ao alto?

Por onde será que passou?

O que presenciou?

De repente aquela luz instala-se em meu espírito e “conectado” começo a narrar tudo que enxergo e sinto:

- Ouça!

Esta estrela nos traz um relato acontecido na Ásia, num reinado passado –disse, sensitivo.

E envolvido naquela magia, continuo:

- ”Nessun dorma!” Ninguém durma, decretou a princesa de Pequim, chamada Turandot.

Aterrorizada por ter seus segredos, três enigmas, desvendados por um homem, do qual ninguém sabia a origem. Um desconhecido naquele reino.

Ele já havia vencido o desafio, porém imprudente e confiante concedeu uma chance à princesa derrotada: a inversão das regras. Agora era ele que propunha uma charada.

A princesa teria até o início do amanhecer para descobrir seu nome.

Caso não descobrisse teria que aceitar a derrota e casar-se irrevogavelmente com ele.

A impressão é que imensos véus elevaram-se pelo furor real; intercalaram-se nos espaços. Labirintos por toda parte.

O salão real tornou-se palco de batalhas.

A corte movimentava-se, pusilânime.

Homens em palpitações corriam como bailarinos, figurantes, nas pontas dos pés para não provocar nenhum ruído.

Fugiam.

Receavam pela própria vida.

Nunca se chegou a tal ponto.

Anteriormente, muitos homens encantados com a beleza principesca ousaram retumbar o disco metálico, anunciando a decisão de conquistar tamanha preciosidade.

Contudo, a astuta e sinistra princesa Turandot reservava aos perdedores a morte. Àqueles que não conseguiam decifrar seus mistérios, nem as lágrimas ou as súplicas de clemência os livravam do castigo fatal.

Até então a princesa de Pequim havia sido sempre vitoriosa. Impiedosa e solitária.

Ninguém naquele reino sabia informar o nome daquele homem que estava fragilizando a princesa.

Era Calaf. Príncipe exilado de um reino distante em distúrbio.

- Talvez, nesta situação, seja um simples miserável como eu, um caminhoneiro errante. Exilado.

No princípio, antes de Calaf entrar neste desafio, impassível não atendeu aos apelos de seu pai e de Liú, a serviçal que o acompanhou no exílio. Aos prantos Liú declarou seu amor vassalo e implorou que desistisse dessa intenção, pois a morte era mais certa e a vida duvidosa.

A princesa espalhou espiões por toda a parte.

Queriam descobrir o nome daquele que estava prestes a vencer derradeiramente a princesa de Pequim.

Descobertos, Liú e o velho pai de Calaf padeceram nas mãos dos algozes sem nada contar.

-Não tenho nenhuma Liú para alertar-me. Quero, também, agora estimulado pela luta cabal de Calaf, desvendar seus segredos mais íntimos, minha princesa beira-de-estrada.

Calaf mostra-se convicto.

Estava hipnotizado. Sua razão perdida.

Pulsava desejos, nada mais.

Calaf, com a voz mansa e compreensiva, dirigiu-se à princesa:

- Oh! princesa que encanta esse reino. Fragilizar-se somente porque meu amor ronda seu coração?

Não se preocupe. Eu sei que por detrás do trono, do título, está uma mulher pronta para ser tocada. Corpo e alma.

Meu amor é sincero. Quero dissipar sua solidão...

O tempo fluía. A escuridão da noite foi-se escoando, desbotando-se. A claridade agarrando-se na oportunidade do surgimento.

Os olhos da princesa Turandot estão ficando menos petrificados.

O calor da chama dos desejos de Calaf, príncipe exilado, vai esquentando a derme da alma da pretendida que já não consegue disfarçar. Está ficando nua, indefesa...

A princesa de Pequim, após preparar uma armadilha traiçoeira, faz Calaf revelar-lhe o seu nome (solução da charada) antes do amanhecer (prazo final do desafio).

Mas, quando Calaf estava sendo levado ao encontro da morte pelos guardas reais, a princesa de Pequim releva a pena e diz arrependida que descobriu finalmente o verdadeiro nome daquele homem:

- O seu nome é amor!

Assim livrou-o da execução. Cedeu ao amor, sublime sentimento, que está acima das tramas, dos interesses pessoais...

- Deste lado do mundo imagino o gongo. Golpeio.

Quero esta moça urbana sem véus, nítida, aberta, encorajada para receber meu amor. Passar por cima das lágrimas, dos labirintos...

Com olhar surpreso e lacrimoso com que ouvira, minha princesa beira-de-estrada, pede-me meigamente economizando as palavras:

- Ponha-me no chão. Tenho medo de altura. Eu sempre caí. É doloroso...

Apreensivo argumento:

- Dê-me uma chance.

Não me engane.

Estar só é desilusão.

Viver numa ilha solitária, ainda que seja cercada por belezas naturais e materiais, não dão prazer que complete. É efêmero.

Ainda dava para ver Calaf e a princesa de Pequim viajando pelo firmamento, refletidos naquela estrela.

Envolvido neste momento maravilhoso, murmuro no ouvido da minha assustada princesa:

- Aqui, na cabine do meu caminhão, atravesso as fronteiras, o desconhecido, os principados.

Posso parar numa noite estrelada no alto da montanha e acomodá-la, princesa urbana, ouvindo os barulhos vindo dos capins, da mata. Deixar músicas arranhar nossos corações.

Ainda mais próximo, continuei em seu ouvido: - Com sorte, alguma estrela cadente cintilando virá espiar nossos corpos entrelaçados madrugada a dentro e contar-nos histórias de amor...

De súbito, comenta minha princesa beira-de-estrada:

- Espere!

Escute!

Esta melodia que vem do alto...

Alguém no passado também assistiu esta mesma estrela, esta mesma história. Musicou-a. Fez dela ópera.

Este céu está ligado ao de Pequim.

Vamos nos amar sim, neste fim de noite. A manhã não tarda.

A princesa de lá descobriu a felicidade.

Abraçando-me carinhosamente, continuou:

- Venha agora.

Antes eu estava “armada”, agora você fez-me jogar fora o “r” ruim das coisas que me tornava menor. Transformou-me em amada. Entreguemo-nos ao amor sem segredos, pois nesta madrugada eu também decreto:

“Nessun dorma!”

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