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27/03/2016 10:40

Enzima exerce papel-chave na sensação de saciedade

Saúde Plena
Enzima exerce papel-chave na sensação de saciedade

Em um mundo cada vez mais pesado, cientistas correm para descobrir como brecar o avanço de uma epidemia que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, já afeta 2,1 milhões de pessoas – o equivalente a 30% da população do planeta. A fórmula para conter a obesidade e o sobrepeso não tem mistério: comer menos e gastar mais energia. É exatamente aí, porém, que reside o problema. Para muitas pessoas, parece que a hora de parar de comer simplesmente não chega.

Nesse sentido, estudo da Universidade Johns Hopkins publicado na revista Science traz esperança de desenvolvimento de uma nova estratégia de controle da ingestão de alimentos. Os pesquisadores da instituição norte-americana descobriram, em ratos, uma enzima com papel crucial na sensação de fome e saciedade. Quando sua atividade é inibida, os animais comem excessivamente e ganham peso muito rápido. Porém, ao estimular uma superprodução da substância, a ingestão é controlada.

A descoberta foi ao acaso, quando os cientistas pesquisavam o funcionamento do sistema de aprendizado e memória do cérebro. Nos estudos, Richard Huganir, diretor do Departamento de Neurociências da instituição, e Olof Lagerlöf, aluno de graduação da faculdade, investigavam o papel da enzima OGT no órgão e, como parte do experimento, “desligaram” um gene que a codifica em um grupo de células nervosas das regiões do hipocampo e do córtex cerebral de ratos adultos.

“Em três semanas, os ratos dobraram de peso. Fomos investigar o motivo e percebemos que não houve aumento de massa muscular, foi de gordura”, conta Huganir. O comportamento dos animais foi observado para descobrir o que havia ocorrido. Eles perceberam, então, que os ratos simplesmente não paravam de comer. A partir daí, jogaram luz sobre o papel da enzima OGT na ingestão alimentar.

Os cientistas dividiram os ratos em dois grupos, que receberam a mesma quantidade de comida por dia. Em um deles, repetiram o experimento anterior: desligaram o gene que coloca a enzima OGT em ação. Os animais ingeriram muito mais comida por refeição, só parando de comer quando não sobrava nada. Para verificar se a ausência da substância deflagrava alterações fisiológicas que levavam ao acúmulo de gordura corporal, os cientistas restringiram o acesso ao alimento. Sem ter como se esbaldar, os ratos deixaram de engordar.

“Isso nos mostrou que o problema está associado à sensação de saciedade, e não a outro mecanismo que pudesse produzir gordura em excesso. Os ratos com a enzima inibida engordam porque não sabem o momento de parar; o cérebro não sinaliza para eles que já estão saciados”, conta Lagerlöf. O caminho oposto confirmou a hipótese. “Superativar a expressão do gene que codifica a enzima fez com que os animais parassem de se alimentar logo depois de começar a comer. Eles achavam que já tinham tido o bastante”, afirma o estudante.

CÉREBRO Os cientistas esclarecem que, até hoje, o hipocampo e o córtex são muito mais relacionados à memória e ao aprendizado do que aos padrões de ingestão alimentar. Por isso, continuaram a vasculhar o cérebro em busca de uma região em que essa associação fosse mais forte. No hipotálamo, área conhecida por controlar o metabolismo, a temperatura, o sono e a alimentação, verificaram que os efeitos de desligar ou superativar o gene que codifica a OGT eram expressivos. Principalmente em uma área onde há aglomeração de neurônios, chamada núcleo paraventricular.
Lagerlöf esclarece, contudo, que, embora as reações metabólicas que levam à maior ou à menor ingestão de alimentos sejam mais fortes nessa parte do cérebro, elas ocorrem em qualquer outra região cerebral em que a OGT é codificada. Apesar de ainda precisar esclarecer muitas questões sobre a relação da enzima e o excesso de fome, os cientistas acreditam ter descoberto uma ferramenta que poderá ajudar na luta contra a epidemia de sobrepeso. “As descobertas representam um alvo medicinal potencial para a obesidade humana”, disseram, no artigo.

Teste mostra se alimento faz bem
Imagine um exame capaz de mostrar se a salada que você comeu no almoço fez bem para o seu organismo e o tamanho desse benefício. A ferramenta valiosa acaba de ser apresentada por cientistas dos Estados Unidos e se dá por meio da análise da urina. O resultado, que dura cerca de 10 minutos, pode ajudar na avaliação e na construção de dietas voltadas para doenças ligadas à alimentação, como o câncer.

Antes do teste, a mesma equipe analisou o impacto de hábitos alimentares sobre a saúde de 63 mil chineses. O estudo mostrou como vegetais crucíferos – muito presentes em dietas asiáticas, como brócolis, repolho, couve-flor e agrião – podem ajudar na prevenção de tumores. “O consumo de vegetais ricos na substância isotiocianato (ITC) está diretamente relacionado a ocorrências menores de câncer de pulmão, inclusive entre fumantes”, destaca Marcin Dyba, pesquisador do Departamento de Oncologia da Universidade de Georgetown e um dos autores da pesquisa.

Estudos com animais demonstraram que diferentes tipos de ITC têm propriedades e potências anticancerígenas distintas. Altamente sensível, o teste de urina criado quantifica nove tipos de isotiocianato, e outros compostos encontrados em vegetais crucíferos. A ferramenta foi testada em amostras de mais de 30 mil idosos de Cingapura e teve resultados positivos.

Personalização Igor Morbeck, oncologista do Hospital Sírio-libanês em Brasília e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), destaca que o novo teste poderá ser bastante útil na área médica ao agregar dados valiosos ao tratamento de tumores. “Já se sabe que o isotiocianato pode agir como protetor ao câncer, mas esse teste traz informações a mais, como a concentração necessária para que isso ocorra, e também se outras substâncias podem ter o mesmo tipo de valor protetivo”, diz.

A nutricionista Tatiana Helou ressalta a possibilidade de investir em uma abordagem personalizada com os dados fornecidos pelo exame. “Conseguir mensurar os efeitos de alimentos é um grande ganho, até porque a quantidade de determinado nutriente que deve ser consumido vai variar de acordo com o perfil do paciente. Temos mudanças até no preparo, um costume cultural que pode interferir no valor nutricional”, diz.

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