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16/05/2006 07:46

Entrevista: Aramis A. Lopes Neto

Agência Notisa

Tragédias escolares e traumas psicológicos: as conseqüências do bullying na sociedade.

Os tempos de escola ficam guardados no imaginário das pessoas como um dos períodos mais saudosos da vida. Entretanto, as lembranças do colégio não são boas para todos. Alguns guardam, ao contrário, rejeição, tristeza e humilhação. Essas pessoas podem nem saber, mas foram provavelmente vítimas de bullying. Uma realidade que atualmente vitimiza uma parcela considerável de estudantes e que pode acarretar em atitudes extremas como as tragédias escolares que nos últimos dez anos vêm sendo noticiadas com freqüência pela mídia: “Ex-aluno invade escola atira em oito e se mata”, O Globo (RJ, editoria - PAÍS, 28/1/2003).
Para entendermos um pouco sobre esse assunto que está tão presente na sociedade, entrevistamos Aramis A. Lopes Neto, médico pediatra, sócio-fundador da ABRAPIA (Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência) e atual coordenador do Programa de Redução do Comportamento Agressivo entre Estudantes.

Notisa – Qual a diferença entre o ``bullying`` e uma simples desavença entre crianças?
Aramis – Brincadeiras são atos que trazem satisfação e prazer a todos os participantes. Desavenças são desentendimentos passageiros, que passam, ou que levam ao rompimento de uma relação. Bullying são atos em que um ou mais alunos praticam atos repetidos contra um ou mais estudantes, causando perdas ou danos físicos e/ou morais a estes, sempre executados dentro de uma assimetria de poder entre os agressores e suas vítimas.

Notisa – Como os pais podem perceber que seu filho está sendo alvo de ``bullying``? Quais são as mudanças mais visíveis que o alvo passa a apresentar?
Aramis – Os pais podem perceber modificações em seus filhos, que podem estar relacionados ao comportamento (agressividade, isolamento, depressão, ansiedade, medo), ao sentimento (baixa auto-estima, desejo de morte), ao relacionamento com a escola (notas baixas, não cumprimento das tarefas, desejo de não ir à escola), danos à saúde (dores de cabeça, dores abdominais, anorexia, bulimia, alterações digestivas) e outras alterações (roupas e materiais danificados, feridas inexplicáveis, pedidos de dinheiro ou retirar dinheiro escondido, perda do lanche).

Cabe aos pais demonstrar interesse pela vida escolar de seus filhos, perguntar não só sobre as notas, mas também sobre o prazer de estar na escola, sobre as amizades, a convivência e possíveis atos de violência física ou moral. Tudo deve ser ouvido com atenção e valorizado em todos os sentidos, sem críticas ou atos de desconsideração.

Notisa – Existem comportamentos dos pais com relação aos filhos que possam favorecer o desenvolvimento de alvos e de agressores de ``Bullying``?
Aramis – Sim. Sabemos que as crianças trazem para a escola muito do que vêem e aprendem em casa. Para os autores de bullying, destacam-se a carência afetiva, a falta de limites, a desestruturação familiar e a violência doméstica. Para os alvos surgem a superproteção, o tratamento infantilizado (o eterno bebê) e o excesso de críticas ou responsabilização (bode expiatório)

Notisa – O senhor defende que é muito difícil a vítima de ``bullying`` revelar o problema. Que trabalhos devem ser feitos para romper essa barreira do silêncio?
Aramis – Na família, o diálogo, a demonstração de interesse sobre o filho, o entendimento que escola não é local apenas para aprender a ler e escrever, mas também o de convivência social, aprendendo-se a respeitar, ser respeitado, ter uma identidade, conhecer direitos, deveres seus e dos outros. Enfim, alcançar a habilidade para exercitar sua cidadania.

O desempenho escolar não deve ser medido só pelas notas do boletim, mas também pelo grau de prazer de estar na escola, pela habilidade de cultivar amizades, pela aceitação de seu filho pelos colegas, pela inexistência de atos de violência ou intimidação.

Notisa – Como se dá, em geral, o comportamento dos demais estudantes que assistem às agressões?
Aramis – Muitos alunos não se envolvem em atos de bullying, mas convivem com estes e reagem, muitas vezes, de forma negativa. As pesquisas desenvolvidas demonstraram que 80% dos alunos testemunhas reprovam os atos de bullying, mas a grande maioria não sabe o que fazer e decepciona-se com a omissão das escolas. O desenvolvimento de um trabalho continuado nas escolas faz com que essas testemunhas informem os atos de bullying e tentem proteger os colegas agredidos.

Notisa – A prevenção do “bullying”, para ser uma medida eficaz, deve envolver que segmentos da sociedade e de que forma?
Aramis – As escolas devem desenvolver um trabalho continuado, envolvendo toda a comunidade (professores, funcionários, estudantes e famílias). Os profissionais de saúde devem sempre questionar crianças e adolescentes sobre a convivência na escola. Às famílias cabe a atenção ao processo de socialização e a disponibilidade de ouvir as queixas de seus filhos, sem críticas ou cobranças. Entendo que os governos devem entender a importância da prevenção do bullying como uma estratégia altamente eficaz para a redução da violência juvenil.

Notisa – Recentemente o mundo tem assistido a um crescente número de tragédias em escolas: crianças ou adolescentes armados que invadem instituições e disparam contra professores, colegas e funcionários. Esses eventos podem ser associados ao ``bullying``? Essas ações representam um comportamento comum de quem tem ``bullying`` ou é um extremismo a que pode chegar a vítima do ``bullying``?
Aramis – A grande maioria desses casos foi perpetrado por alvos de bullying que, em atitude extremada, adotam com a intenção de fazer cessar seus sofrimentos.

O que chama a atenção é que todos eles adotaram comportamento semelhante, ou seja, invadiram suas escolas armados, atiraram a esmo, atingindo indistintamente, alunos, professores e funcionários. Alguns deles tentaram ou cometeram suicídio dentro da escola. Enfim, o comportamento foi o de ``matar a escola``, local onde foi obrigado a estar, ser agredido, sofrer ao extremo e assistir a indiferença e omissão de todos.

Notisa – Muitos desses casos de tragédias escolares ocorreram nos EUA. O senhor acredita que haja razões específicas para uma maior incidência desses fatos neste país?
Aramis – Não creio que haja relação. Talvez a facilidade de acesso às armas, a cultura dos super heróis ou as escolas em período integral podem ter facilitado para uma freqüência maior. Mas já ocorreram casos muito semelhantes no Brasil, Alemanha, Argentina, Japão etc.


Agência Notisa (jornalismo científico - science journalism)

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