Cassilândia, Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018

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12/11/2018 13:00

Enem aos 35: Como enfrentei a prova 18 anos após o ensino médio

Dos 22 candidatos na sala, 14 tinham mais de 35 anos. Quem éramos nós e o que estávamos fazendo ali disputando uma vaga com aqueles jovens preparados?

G1MS/Jaqueline Naujorks

Fiz a inscrição sem pensar muito. Cliquei e pronto. Aceitei. Paguei o boleto, guardei na gaveta e com um "depois eu vejo isso" fiquei tranquila por meses - até domingo passado. Se não decidisse realmente voltar para a universidade, poderia, ao menos fazer uma cobertura legal para o trabalho.

Munida de minha caneta velha e sem tampa, uma barra de chocolate, uma garrafa d'água e uma dose considerável de coragem, fiz o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), 18 anos após o ensino médio.

Terminei o antigo "segundo grau" em 2000, em uma escola pública, no interior do Rio Grande do Sul. Entre uma reposição e outra por causa das greves, tudo muito precário, nenhum dos 19 alunos da minha turma esperava passar no vestibular. Ninguém fez cursinho, não passamos horas e horas debruçados sobre os livros, nós não estávamos, nem de longe, preparados para isso.

Passei em uma universidade particular, pequena e cara, e para mim já foi uma baita conquista. Naquela época, ninguém sabia o que era Enem. Não terminei o curso porque não consegui pagar, coisa que, mesmo com financiamentos e programas de acesso a universidade, ainda acontece muito. Quatro anos depois, tive mais sucesso. Consegui me formar em 2008 e cá estou eu, tentando uma vaga na faculdade outra vez. Oi? Sim. É isso mesmo.

Não sei bem explicar o que me fez abrir a página do Inep e me inscrever. Exerço a profissão, carreira tá OK, se fosse simplesmente a busca por algo novo poderia ter feito uma dieta, um curso de mandarim, aprender a fazer cerâmica, tocar violão, tricô ou algo assim, mas não. Quis fazer o Enem. E qual não foi minha surpresa ao perceber no dia da prova que muita, mas muita gente mesmo, teve a mesma ideia.

"Tchau mãe, boa sorte!"
Meu primeiro compromisso era sério: disse que não iria estudar. Queria realmente fazer como imaginei que fariam meus concorrentes com o mesmo perfil de idade, simplesmente porque trabalham muito, cuidam da família e não tem tempo para estudar. Vão para a prova só com o conhecimento da vida e não estão, exatamente, despreparados.

Para saber se teria chances, confesso, fiz os testes do aplicativo do G1 na manhã da prova. Na primeira rodada, já vi que não seria fácil. Fiquei um tanto apreensiva mas não havia nada que pudesse fazer àquela altura. Era enfrentar e pronto.

Cheguei ao local da prova e, naquele mar de jovens com cabelos diferentes, espinhas e olhares espertos, vi muita gente de mais idade. O primeiro que me chamou a atenção foi um senhor de cabelos brancos, Antônio, de 58 anos. Enquanto ainda era possível, puxei papo e perguntei "Tá preparado para a prova?". Ele sorriu e me respondeu "Tenho que estar né? É a chance que eu tenho". Antônio é mecânico e resolveu prestar o Enem para "melhorar o orçamento porque ainda falta muito para aposentar".

Já perto da sala da prova, ouvi uma jovem de seus 17 anos gritar "Tchau mãe, boa sorte!" e achei curioso. A mãe, um pouco constrangida, seguiu seu rumo e mudei o meu para acompanhá-la - ali eu não era repórter, mas a gente não consegue evitar.

Comentei "Que legal, veio fazer a prova com a filha mesmo?". A mãe, Neide, de 48 anos respondeu "Vim dar o exemplo. Tive ela com 17 anos, não pude estudar para ser mãe e depois achei que tinha passado do tempo, quis mostrar o quanto a educação é importante e faz diferença na vida da gente em qualquer idade", e essa foi a segunda lição que aprendi no Enem.

Ausentes e desistentes
Documentos conferidos, celular no envelope, escolhi meu lugar em um canto da sala. Sobre as mesas dos meus companheiros de prova, muita água, doces, almoços improvisados, e mãos trêmulas de tensão.

No dia da primeira prova, em uma breve contagem, registrei que éramos 22 candidatos. Depois da chamada vi que deveríamos ser, pelo menos, 48. Lembrei que eu também flertei com a ideia de ficar em casa no meu dia de folga ao invés de estar ali para 5 horas de avaliação, e não julguei os que deixaram para o ano que vem.

Dos 22 candidatos ali, 14 tinham mais de 35 anos. Nós, os "experientes", éramos mais da metade das pessoas que buscavam uma vaga na universidade naquela sala.

Uma experiência para gente experiente
Comecei a prova de humanas, apegada a Nossa Senhora da Lógica, meu único recurso. Na redação, um tema que conheço bem, e infelizmente tinha ideias e informações demais para apenas 20 linhas - por ironia, o poder de síntese da jornalista falhou miseravelmente nessa hora. Saí da prova nos últimos 15 minutos.

Cheguei em casa e fui direto conferir a correção da prova pelo G1. As questões, que eu já sabia quase de cor de tanto ler e reler, começaram a fazer sentido com a explicação dos professores. A cada questão certa, eu dava um pulo no sofá, incrédula. Quem sou eu pra saber de Iluminismo 18 anos depois de ter estudado isso? Uma ousadia acertar a questão sem saber certinho onde foi que li sobre isso - mas lembro que li. É desse "conhecimento da vida" que falei, e que eu quis realmente testar.

Meu pesadelo era a prova de exatas. Não tenho exatamente um diagnóstico de discalculia, mas meu cérebro tem um profundo ranço de números. Nunca nos demos bem. Ontem, lendo os enunciados das questões da prova, a velha dor de cabeça que me perseguiu durante as aulas de matemática e física no ensino médio, teve 5 horas de glória.

Na correção pelo G1, nenhuma surpresa. A lógica não adiantou muito dessa vez, e me bateu um certo arrependimento por não ter estudado. Pensei nos adolescentes que passam 10, 12 horas por dia estudando e dividem suas vidas entre escola e cursinho. Se eu, sem a pressão de começar a faculdade, achei a prova terrível, imagine o quanto deve ter sido difícil para essa turma.

Ao final da prova, consultei meu colega Antônio sobre como foi na prova. Ele passou a mão pelo rosto, respirou fundo e disse: "Eu tentei, e tenho fé que vai dar certo. Foi uma experiência, né?". Fé foi uma palavra que ouvi de outra mãe, que já no pátio da universidade, percebi que carregava o caderno de provas.

"Eu creio que vai ter uma vaguinha pra mim, tenho fé que vou conseguir. Preciso estudar, preciso melhorar de vida, Deus sabe o quanto preciso disso", declarou. Dei um breve abraço solidário nela, disse "Boa sorte" com muita sinceridade, e segui meu rumo.

O que aprendi no Enem
"Mas você vai fazer o Enem? Pra quê? Vai começar tudo de novo?"
Essa foi a pergunta que ouvi de 9 entre 10 pessoas que souberam que eu prestaria o exame. A outra pessoa nessa estatística me dizia "Legal, boa sorte".

Muita gente ficou curiosa sobre mudar de carreira. Pelo contrário, estou em busca de uma graduação que possa complementar a que eu já tenho. Encarei o Enem hoje, aos 35, com muito mais respeito do que enfrentei meu primeiro vestibular, há 18 anos. A maturidade faz diferença especialmente na maneira que enxergamos a chance de estudar sem ter que pagar por isso.

O preparo é importante. Apesar de precisarmos interpretar os textos corretamente, ter aquele colchão de conhecimento que traz segurança faz sim, toda a diferença. Não vale a pena encarar esse exame sem estudar, não vale a pena contar com a sorte, chutar a resposta não traz a sensação de ter resolvido o problema proposto. Se há 18 anos eu soubesse o quanto isso faria diferença na minha vida, teria me esforçado mais para superar minha aversão aos números, por exemplo.

Mas, de toda essa experiência, o que realmente aprendi vivendo o Enem aos 35 é que muita gente com mais idade quer o mesmo que os adolescentes de 2018. Gente que também sente falta de estudar, ou simplesmente não teve acesso a isso quando jovem e quer começar, quer tentar. Queria ter mais tempo para perguntar àquelas pessoas se estudaram com os filhos, se assistiram vídeos na internet, ou se foram mesmo na cara e na coragem enfrentar as provas. Entender o que fez com que tentássemos até o fim.

A geração Z está ansiosa para começar a vida adulta. A geração anterior, a minha, estaria ansiosa para mudar de vida? Estariam simplesmente dando exemplo aos filhos? Cada caso é um caso. Aprendi com o Enem que nunca é tarde para tentarmos um novo caminho. Mesmo que seja difícil competir por uma vaga com um jovem preparado, a gente tem que tentar. É assim que nos tornamos, em qualquer idade, pessoas realmente experientes.

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