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29/10/2007 07:11

Eleitor & político: admiração ou identificação?

Manoel Afonso

Claro que no passado as relações entre o eleitor e a classe política eram bem mais amistosas. O político acabava sendo visto como uma espécie de ídolo, um orientador, um cidadão dotado de “poderes” para definir os destinos de uma comunidade, sem ser contestado. O chefe de uma família determinava e todos os seus membros “fechavam” com um candidato. A mesma coisa com o patrão, que escolhia o candidato dos seus empregados.
Os coronéis dos currais eleitorais na época do PSD e UDN, por exemplo, tinham esse poder de mando. No nordeste, deputado era tratado carinhosamente de “padim”, o chefe que tudo podia. Época em que o político nomeava fácil correligionários para o serviço público e a escolaridade do eleitorado permitia manobras para se perpetuar no poder.
Mas como se diz: veio a televisão e o povo foi ficando mais sabido e exigente. Como conseqüência, esse relacionamento do povo com a classe política foi ganhando conotações diferentes. O filho do eleitor passou a ver defeitos no político que sempre levava os votos da família. O empregado deixou de atender ao patrão para votar “naquele candidato” e passou a votar em quem mais lhe agradava ou que lhe acenasse com algum benefício.
Assim, a admiração cedeu lugar a identificação. O eleitor conseguiu criar parâmetros de julgamento para avaliar esse e aquele candidato. Os políticos intocáveis, infalíveis. saíram de cena dando lugar às pessoas com as quais o eleitor se identifica mais facilmente. O morador de um bairro pobre e longínquo acha hoje que é melhor escolher como vereador um representante da própria comunidade. Antes, votava num candidato que falava bonito, mas que só aparecia antes das eleições e que não vivenciava o dia a dia daquela população.
A própria renovação constante dos quadros políticos prova exatamente essa troca de critérios do eleitor nesta relação. Quem não corresponde após eleito, é sumariamente castigado pelo eleitor na eleição seguinte. Ao que parece o político vem entendendo, na sua maior parte, essa nova realidade e tem mudado.
Conclusão: na visão atual do eleitor não há craque insubstituível no jogo político. É ele que escala o “craque”. É ele que lhe dá cartão vermelho quando não corresponde. Entre a perigosa e quase ingênua admiração, é preferível a pratica e simples identificação.


Manoel Afonso



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