Cassilândia, Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

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14/08/2011 17:07

Desconhecimento e preconceitos relacionados à camisinha feminina dificultam seu uso

Agência Notisa

Agência Notisa – A negociação para uso de preservativo durante relações sexuais pode ser complicada, principalmente em casais estáveis, situação em que seu uso pode ser interpretado como desconfiança quanto à fidelidade do(a) parceiro(a). Outra dificuldade reside no fato do uso da camisinha masculina, método mais conhecido, estar nas mãos dos homens, diminuindo a autonomia das mulheres no momento de se protegerem. O artigo “Percepções de casais heterossexuais acerca do uso da camisinha feminina”, publicado este ano na Revista Escola Anna Nery, considera que o maior incentivo e esclarecimento quanto à camisinha feminina são uma alternativa “para minimizar as desigualdades de poder de negociação”.

Segundo o trabalho, de autoria da doutora em enfermagem Vera Lúcia de Oliveira Gomes e equipe do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Enfermagem, Gênero e Sociedade – GEPEGS (RS), como a AIDS cada vez mais infecta mulheres, novos esforços são necessários para que esta população seja protegida. Entre as mulheres, mostram dados do artigo, a via de transmissão heterossexual é responsável por 94,9% das transmissões, de maneira que a “negociação do sexo seguro, até então vinculada quase que exclusivamente à prostituição, passou a ter um reconhecimento público e político como algo positivo”, consideram as autoras.

Na avaliação das pesquisadoras, “as iniciativas governamentais, desenvolvidas pela Coordenação Nacional de DST/AIDS para conter a propagação da epidemia junto às mulheres, vêm apresentando resultados tímidos e insatisfatórios”. O artigo considera que as iniciativas em direção à promoção e divulgação do uso da camisinha masculina são pertinentes e devem ser incentivadas, mas considera que é necessária a criação de programas de esclarecimento quanto à possibilidade de uso da camisinha feminina, alternativa que, acreditam as autoras, daria à mulher acesso a um “método que poderia lhe dar autonomia de decisão”. Além disso, o artigo destaca como pontos positivos da camisinha feminina: “a praticidade no uso, a viabilidade de colocação horas antes do contato sexual, a possibilidade de a mulher conhecer melhor sua própria anatomia, bem como suprir a falta de lubrificação vaginal comum na menopausa”.



Para avaliar o nível de conhecimento e percepções vantajosas e desvantajosas sobre o uso da camisinha feminina, foi realizada pesquisa com 12 moças e um rapaz, acadêmicos de enfermagem do sul do país, e seus respectivos companheiros, totalizando 26 jovens, entre 20 e 27 anos. Os jovens responderam a questionários autoaplicáveis, antes e após um ato sexual protegido por camisinha feminina, que buscavam avaliar o que se conhecia sobre este método, e suas percepções “acerca da colocação da camisinha, do transcurso da relação sexual com camisinha e da retirada da camisinha feminina”, relata o trabalho.



Um ponto destacado pelas autoras após análise das avaliações dos participantes é que a camisinha feminina se apresentou como um método “desconhecido” por parte dos jovens e causador de “estranheza até mesmo entre acadêmicos dos últimos semestres do curso de graduação em enfermagem”. O desconhecimento dos próprios profissionais de saúde que deveriam guiar leigos e ajudá-los a escolher as melhores alternativas para lidar com sua sexualidade mostra que “a formação de médicos e enfermeiros se restringe a aspectos biológicos da reprodução e contracepção, não valorizando o preparo ao lidar com os mitos, boatos e valores”, dizem as autoras no artigo, citando estudo realizado com provedores de serviços de atenção à mulher em New York.



As avaliações quanto ao ato sexual protegido por camisinha feminina foram discordantes: “uns enfocam o desconforto, dor e aparência grotesca, outros abordam a praticidade, confiabilidade e prazer”, afirmam as pesquisadoras. Para elas, tanto nos depoimentos que valorizavam aspectos positivos quanto nos que destacavam os negativos, observou-se a existência de um “reconhecimento de que a falta de familiaridade com o método e o desconhecimento são fatores que levam ao estranhamento, desencadeando a maior parte das dificuldades”. Tal fato, acreditam, corrobora o pressuposto de que o “desconhecimento acerca da correta utilização da camisinha feminina, bem como de seus benefícios e dificuldades, estão inibindo seu uso em nível individual e dificultando sua adoção nos programas públicos”.



Por fim, as autoras reforçam que não defendem a substituição da distribuição e divulgação da camisinha masculina pela feminina, mas sim que haja programas concomitantes de incentivo e esclarecimento sobre o uso desta segunda alternativa, que pode se tornar viável a partir da identificação e problematização dos principais entraves ao uso da camisinha feminina, entre eles: “as dúvidas, preconceitos e acessibilidade”.



A elaboração e implementação de “programas de educação em saúde, de divulgação, de subsídio e de distribuição da camisinha feminina”, somado à expansão do uso rotineiro entre acadêmicos de enfermagem e integrantes das equipes de saúde desse método de prevenção, por meio do acesso gratuito, segundo as autoras, também podem contribuir para que a camisinha feminina torne-se mais popular entre a população.



Para ver o artigo na íntegra, acesse: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141481452011000100004&lang=pt.


Agência Notisa (science journalism – jornalismo científico)

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