Cassilândia, Sábado, 10 de Dezembro de 2016

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15/12/2006 15:21

Crônica do Corino - Teobaldo e o Natal

Teobaldo e o Natal

Teobaldo mora aqui pertinho, na Vila Izanópolis, em Cassilândia, bem na saída para Paranaíba. Teobaldo é um catador de papelão e metal sul-matogrossense, cassilandense da então Vaca Parida, um brasileiro que se aventurou a ser pai de seis rebentos, sendo bem divididos: três meninas e três meninos.
A mulher, dona Dondinha, é prendada. Se não fosse, o que seria daquela filharada toda? Ela trabalha como empregada doméstica na casa de um advogado cassilandense, que, por sinal, a tem como uma grande filósofa de ocasião – Marinete, de A Diarista, está aí para comprovar a regra. Dondinha não é exceção.
As empregadas domésticas têm resposta para tudo e sabem de praticamente tudo. Elas são como barbeiros e motoristas de táxis. Elas têm a resposta na ponta da língua e podem discutir de sexualidade na adolescência até antropologia; de mal de Parkinson até a chegada do homem à lua. E Dondinha é uma empregada doméstica. E das boas.
Noite de Natal. Teobaldo acabou de chegar de mais um dia de lida. A única coisa que conseguiu foram míseros R$ 8,00 obtidos através de mais de dez quilos de bugingangas e papelões vendidos ao Miro, o atravessador que vive de explorar os pobres catadores de papelão e de tudo mais que se encontrar pela frente.
Teobaldo e Dondinha não têm direito à Bolsa-Escola, não têm conta social de energia elétrica, porque não há energia elétrica na pequena casa onde moram. A água não chega à torneira da casa, mesmo porque não há torneira na casa. A água filho mais velho, o Jaime, vai pegar no rio Aporé, todos os dias, numa carriola velha e ranheta.
Teobaldo chamou Dondinha e perguntou:
- Donda, quantos real você tem aí?
- Só tenho R$ 25,00, que é pra comprar arroz, feijão, carne moída de segunda, farinha e uma dúzia de ovo.
- Como a gente vai fazer, muié? É Natal. Nossos fio quer ganhar presente, ara!
- Esquenta não, Teo. Eu achei umas boneca véia e guardei para as menina. E pros menino eu achei um carrinho de prástico quebrado, que dá pro Zezinho; um trenzinho de ferro, também quebrado, que é a cara do Teozinho; tem também umas vaquinha de prástico pro Zizinho. Isso fora os pedaço de boneca, de caminhãozinho, de quebra-cabeça estragado. Dá pra eles brincar inté de fazendinha de gado, sô!
- Intão tá bão, muié. Intão tá bão, ave égua!
- Meu véio, eu andei pela cidade hoje e vi os rico se preparar pro Natal. Eles têm cada coisa bonita, carro lindo, carrega presente com pacote bonito, põe nos carro, mas eu prestei atenção numa coisa, meu véio...
- Que é, muié? – indagou Teobaldo, levando um cigarro de palha à boca. – Cê viu o quê?
- Eu vi que eles anda tudo de cara fechada, mal-encarado, triste. Se eles têm tanto dinheiro, tanto luxo, porque intão que anda tudo assim, sem alegria? Parece inté que eles num credita em Deus.
- É assim mesmo, muié. Deus dá o frio de acordo com o cobertor. Nóis tá aqui hoje, juntando moedinha por moedinha para comprar o jabá que nóis vai comer na véspera do Natal. Nóis num tem onde cair morto, mas nóis tá aqui, sorrindo, conversando. Óia, muié, eu também ando prestando atenção nas coisa por aí. Ocê nunca vê um rico sorrindo, agradecendo a Deus. Esses dia mesmo eu ouvi um rico reclamando de uma tal bolsa de valor, chiando de uma tal de taxa de juro, resmungando do presidente que tá dando esmola pro povo pobre.
Aí Dondinha o interrompeu:
- Falando nisso, Teo, por que essa tal de Bolsa-Famia num chega aqui nunca?
- Ara, muié! Isso deve de ser coisa lá dos político. Sei como isso funciona, não. Deve de ser.
- É, home, deve de ser.
Dondinha foi ao mercadinho comprar comida. Zizinho ficou lá, sentando no chão, comendo um pedaço de pão que Teobaldo havia achado no lixo.
O chefe da paupérrima família Teobaldo ficou lá, calado, pensando na vida e filosofando em silêncio:
- Nóis num tem nada, mas nóis credita no Menino Jesus Cristo. Os rico têm tudo, do bom e do mió e vive de cabeça baixa, preocupado, de cara feia, sem alegria.
E, abrindo os braços como o Cristo Redendor, Teobaldo não resistiu e bradou:
- Quer saber de uma coisa, homem de Deus? Feliz somo nóis! Feliz somo nóis! Feliz Natal, meus fio! Feliz Natal, meus fio!
Teobaldo ficou, de repente, calado. Foi lá dentro, pegou uma garrafa de aguardente e virou o líquido goela abaixo.
O Natal estava só começando.

Corino Rodrigues de Alvarenga
Contato com o colunista:
corino_leia@hotmail.com

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