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09/12/2006 07:11

Crônica do Corino - Ouvido seletivo

Ouvido seletivo

Minha avó, na sua sapiência rústica da roça, costumava dizer que pessoa inteligente mesmo é que aquela que usa uma peneira para ouvir e duas peneiras para falar. A sábia interpretação da minha avó coincide com um ensinamento que ouvi, há uns vinte anos, do professor e causídico Ivan Fernando Gonçalves Pinheiro: “Temos dois ouvidos, dois olhos e apenas uma boca, que é para ouvir duas vezes, ver duas vezes e falar apenas uma vez”.
Nesta semana, viajando pelo site www.ocorreionews.com.br, deparei com a coluna Ampla Visão, do sempre bom Manoel Afonso. Leia esta pequena nota que saiu na coluna do jornalista da TV Record de Mato Grosso do Sul:

“Ex-deputado Valter Faustino (Paranaíba) é aroeira. Aos 88 anos dirige seu carro, viaja e adora a leitura. Meio surdo de um ouvido, não usa aparelho e diz: ‘Minha audição é seletiva. Só ouço o que me interessa.’”

Saber filtrar o que se ouve é uma verdadeira arte humana e só os mais experientes sabem fazê-lo com eficiência. Tanto é verdade que grande parte das guerras, conflitos e brigas de rua tem como envolvidos os mais jovens.
E por quê? Porque os jovens têm como filosofia “não levar desaforo para casa”.
Quem não leva desaforo para casa, quase sempre leva o olho roxo, o braço quebrado ou um tiro de garrucha nos peitos, que é para aprender. Quem não leva desaforo para casa, bate e apanha e ainda leva o tal desaforo para casa. Até porque “quem não leva desaforo para casa” é a pessoa mais desaforada que existe.
Os viventes sábios da terceira idade – corrijo-me: da melhor idade – também brigam. Brigam também. E brigam muito. Mas brigam no contraditório, na capacidade de argumentação, no debate de idéias, em alto e baixo tom, em alto e bom som ou em baixo e bom tom.
Dizem por aí que quem gosta de velho é museu. E eu pergunto: existe algo mais útil para a civilização humana do que um bom museu? Considero os museus até mais importantes do que as casas de teatro. No teatro, você ouve e vê a interpretação acerca da cultura universal. No museu, você vai além: você pode tocar, sentir, cheirar, impregnar-se de conhecimento na acepção da palavra. O que seria dos seres humanos se não fossem os museus? Velhos, é verdade. Muito velhos. E sempre úteis. E sempre imprescindíveis para ajudar a desbloquear a santa ignorância que reside em todos nós.
Bem faz o ex-deputado paranaibense Valter Faustino ao continuar lendo aos oitenta e oito anos. Os livros são os melhores conselheiros e nos ensinam a sapiência de levar desaforos para casa. Os livros, caro professor Valter Faustino, são os melhores remédios para curar as doenças da melhor idade, principalmente o tédio, a angústia e a solidão. E para o desamor também.
Eu tenho na minha compreensão que os livros nos ensinam a viver sob a ótica do saber supremo que vem das melhores cabeças que já habitaram ou habitam este planeta. Já cheguei a inventar certa feita meio surrealista, meio esquisita até:
- Quem lê não passa de um ladrão de idéias alheias.
A frase é absurda, mas realista de certa forma. De certa forma.
Aliás, levando-se em conta esta tese, eu fui um grandecíssimo ladrão de leitura. Quando não tinha dinheiro para comprar o jornal do dia, o que eu fazia? Parava em frente uma banca de jornais e ficava lendo as manchetes diárias dos jornais que ficavam dependurados para chamar a venda. Ás vezes, dava umas rápidas folheadas para buscar a matéria da página interna divulgada pela capa. Roubava as notícias sem comprar o jornal.
Como bom freqüentador de bibliotecas, li quantos livros quis. Mas aí já não é um roubo. É apenas um empréstimo devidamente legalizado.
É por isso que gostei da notinha escrita por Manoel Afonso sobre o ex-deputado paranaibense Valter Faustino. Ler, como sabiamente definiu Frei Beto, é viajar sem sair do lugar. E o conterrâneo sul-matogrossense Valter Faustino é um homem que viaja muito. Há oitenta e oito anos, para ser mais exato.

Corino Rodrigues de Alvarenga
Contato com o colunista:
corino_leia@hotmail.com


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