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15/02/2004 15:36

Ciúme patológico não é exclusividade do amor

Irene Lôbo/ABr

Na última semana, Ana e João decidiram procurar a ajuda de uma psicóloga. Os dois concordam que há um ciúme obsessivo por parte da esposa, que controla tudo o que o marido faz. Ela não consegue mais cuidar do filho de três anos, liga várias vezes por dia para o trabalho dele, checa bolsos, e-mail, celular e cheira a camisa quando ele chega do trabalho. Na sexta-feira, quando João ligou dizendo que teria uma reunião no fim de tarde e iria se atrasar para o jantar, o mundo de Ana desmoronou. Ela começou a imaginar tudo o que poderia acontecer, quem sentaria perto dele, para quem ele estaria rindo, com quem ele estaria conversando, e tudo aquilo foi extremamente doloroso.

Esse é o exemplo de uma situação real de ciúme extremo, que os especialistas chamam de ciúme patológico. Mas que atire a primeira pedra quem nunca sentiu nenhuma “pontinha” de ciúme na vida.

A psicóloga Suely Guimarães, professora da Universidade de Brasília (UnB) e especialista no assunto explica que o ciúme nada mais é do que a dificuldade que uma pessoa tem com relação à sua segurança em manter o afeto, o interesse de alguém com quem se mantém um relacionamento afetivo, que pode ser amoroso ou não.

“O ciúme tem uma característica especial que envolve a auto-estima que a pessoa tem e o julgamento que ela faz do envolvimento do outro”, afirma Suely. Mesmo sem haver uma causa específica comprovada para o ciúme, muitos especialistas afirmam que o sentimento estaria relacionado com um rebaixamento da auto-estima, a alguns problemas de infância e a deficiências psicológicas.

Algumas pesquisas mostram, porém, que o ciúme não é um distúrbio emocional, mas um produto de um desbalanceamento de gratificações como enfoca Gordon Clanton no seu livro "A Sociology of Jealousy", de 1996.

Para a professora da UnB, pelo menos três situações seriam propícias para o desenvolvimento de algum grau de ciúme. Na primeira, a auto-estima da pessoa é baixa, e ela se percebe inferior em diversos aspectos, que vão desde a aparência física até os atributos intelectuais. “Nem sempre a pessoa com a qual ela(e) se relaciona, de quem sente ciúmes, está valorizando aqueles atributos que ela(e) considera relevantes e não os possui. Nesse caso, a pessoa se sente ameaçada quando encontra um terceiro com esses atributos”, explica Suely.

Uma outra situação é aquela em que o parceiro freqüentemente manifesta um interesse real por outras pessoas. “Como normalmente as pessoas que se envolvem criam uma dependência emocional pelo outro, a pessoa se sente ameaçada porque conhece a história do parceiro e não quer perdê-lo”, diz Suely.

Há ainda uma terceira situação, o chamado ciúme patológico. Nesse caso, tudo o que parceiro (a) faz se torna uma ameaça. A pessoa passa a viver em função do outro e cria uma relação de dependência emocional extrema. “A pessoa não é capaz de fazer nada, só vive em função do relacionamento porque para ela a ameaça é prática e põe em risco a sua vida inteira, não só o relacionamento”, explica a professora.

O ciúme também é sentimento antigo, conhecido por alguns como a síndrome de Otelo, uma das obras mais conhecidas do escritor inglês William Shakespeare, publicada em 1604. A história conta a tragédia do bravo mouro Otelo, veterano de terríveis batalhas e representante militar do reino de Veneza. Casado com a bela Desdêmona, Otelo cede às intrigas de seu subordinado Iago e, possesso de ciúme, mata sua esposa. Ao descobrir o engano, Otelo comete suicídio. É célebre a frase de Shakespeare que diz que “os ciumentos não precisam de motivo para ter ciúme. São ciumentos porque são. O ciúme é um monstro que a si mesmo se gera e de si mesmo nasce”.

No mundo real, é comum ouvir histórias de crimes passionais cujo motivo quase sempre é o ciúme. Nas páginas dos jornais, as explicações dos assassinos são parecidas: “Se ele(a) não pode ser meu, não será de mais ninguém”.

Para a psicóloga Suely Guimarães, o ciúme está sempre associado com uma ameaça, a ameaça da perda, da concorrência. O tratamento pode ser a terapia individual ou a terapia de casal, mais indicada já que o ciúme obsessivo pode tornar a vida familiar infernal. “Nós trabalhamos com a pessoa no sentido de treiná-la a reconhecer seus próprios méritos, seus próprios valores, em termos físicos, emocionais, intelectuais, e a pontuar os motivos pelos quais o parceiro continua com ela”, diz a psicóloga.

Uma outra solução encontrada por ciumentos obsessivos são os grupos de auto-ajuda. Desde 1994 funciona em todo o país o MADA - Mulheres que amam demais anônimas. Inspirado nos Alcoólicos Anônimos (AA), o grupo promove reuniões gratuitas e utiliza, como uma espécie de Bíblia, o livro “Primeiros Passos”, da terapeuta familiar norte-americana Robin Norwood.

Como acontece nos AA, as mulheres que fazem parte do MADA se reúnem semanalmente, sentam em círculos e falam de suas experiências. Segundo informações do site www.grupomada.com.br, mais de cinco mil mulheres já passaram pelos grupos de São Paulo e hoje existem 25 grupos formados em todo o país.

A professora Ivaneide Lima, de 52 anos, freqüenta há mais de um ano um grupo MADA, em Brasília. Após alguns relacionamentos difíceis, ela decidiu procurar ajuda porque achou que se encaixa no perfil das mulheres que amam demais: “É uma mulher que veio de uma família disfuncional, muito autoritária, com muitos problemas emocionais, e essa mulher sempre se apaixona com facilidade, se doa demais e não recebe retorno”, afirma.

Solteira e sem filhos, Ivaneide acredita que mulheres que amam demais são, na verdade, mulheres que não aprenderam a se amar de forma correta: “Agora eu já estou procurando com muito cuidado observar e não me envolver demais, não criar expectativas demais. Não quero entrar novamente nessa dependência emocional e me dar mal”.

Para a publicitária Martha Medeiros, que escreve semanalmente artigos de relacionamento para o site Almas Gêmeas, a escolha do termo não é apropriada. No artigo “Mulheres que amam de menos”, Martha escreve que “obsessão e descontrole são doenças sérias e merecem respeito e tratamento, mas batizar isso de “amar demais” é uma romantização e um desserviço às mulheres e aos homens”.

Na opinião da escritora, o termo deixa implícito que amar tem medida, que amar tem limite, quando, em sua opinião, amar nunca é demais: “o que existe são mulheres e homens que têm baixa auto-estima, que tem níveis exagerados de insegurança e não sabem a diferença entre amor e possessão. E tem aqueles que são apenas ciumentos e desconfiados, tornando-se chatos demais”.

O ciúme também não ocorre apenas em relações amorosas. Problemas de ciúme no trabalho são cada vez mais freqüentes. Na opinião do sociólogo José Pastore, que escreveu um artigo sobre ciúme no trabalho, o caso mais comum é do subordinado que se amargura toda vez que um colega é cortejado pelo chefe.

Segundo Pastore, funcionários demasiadamente ciumentos sonham em deter o monopólio das atenções do chefe. Para tanto, desenvolvem comportamentos inusitados: escondem dados dos colegas, fornecem informações parciais e comportam-se com intolerância – sem medir as conseqüências de seus atos para o bom funcionamento da empresa.

Se não há como evitar sentimento tão humano, a solução talvez seja aprender a fazer concessões e a se enxergar como um ser que tem vida própria. Para Suely Guimarães, “a pessoa tem de aprender a discernir quando o ciúme que ela sente é alguma coisa natural ou quando é uma situação que não se consegue manejar”.

A regra de ouro, entretanto, é ser feliz de alguma forma: “Numa relação sempre haverá alguma dificuldade, mas a gente tem que ponderar os benefícios, ver se o índice de felicidade é maior que o de infelicidade, senão não vale a pena”, conclui Suely. Valorizar a própria vida e procurar atividades independentes do parceiro pode ser um bom começo.

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