Cassilândia, Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018

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09/02/2018 16:40

Ciências humanas ou ciências exatas nas escolas

(*) Sérgio Mauro

Giovanni Pascoli (1855-1912), poeta e professor universitário, como tantos outros literatos e intelectuais italianos do seu tempo, isto é, final do século XIX e primeiras décadas do século XX, nutriu um relacionamento ambíguo com os aspectos científicos que cada vez mais conquistavam espaço na sociedade europeia da época. Na verdade, Pascoli, assim como Carducci e, em parte, D’Annunzio, não acreditavam no progresso científico-tecnológico como “libertador” e solução definitiva para os problemas humanos.

Coerentemente com a sua visão “pietista” ou “piedosa” em relação à condição humana, ele manifestava em suas poesias, sobretudo em Myricae, uma grande curiosidade incomum pelos elementos naturais, sobretudo para um poeta com formação eminentemente humanista.

Apesar do fascínio pelos aspectos cósmicos, evidente, por exemplo, na poesia Alla cometa Halley, defendia o papel preponderante das ciências humanas na educação básica das escolas italianas, em polêmica aberta com os que defendiam a “modernização” do sistema escolar com aumento da carga horária das disciplinas ligadas às ciências naturais.

No entanto, Arturo Graf (1848-1913), poeta e professor da Universidade de Turim, contemporâneo de Pascoli e com formação nitidamente positivista, era francamente favorável à introdução de mais disciplinas científicas nas escolas. Graf não negava a importância da literatura e das disciplinas de humanas nas escolas, mas acreditava que deveriam sofrer uma “atualização”, dentro de uma perspectiva eminentemente prática, devendo ficar, por este motivo, subordinadas às disciplinas científicas.

Na verdade, assim como Graf, apesar de negar a necessidade de modernização das escolas, Pascoli também acreditava em uma forma de adaptação da poesia à nova realidade científico-tecnológica dos primeiros anos do século XX. No entanto, para ele a cultura científica não poderia prescindir de uma ética baseada na cultura humanista, assim como a poesia não poderia ser nem servil nem pouco crítica com relação ao universo científico. Nos seus escritos, sobretudo os ensaios publicados em L’Era Nuova, nota-se claramente a grande consciência que o poeta “romagnolo” tinha da necessidade de uma ética associada à ciência e da necessidade de criar uma nova poesia habilitada a dar respostas pontuais aos novos tempos:

Ainda com relação L’Era Nuova, isto é, o volume que reúne a prosa de Pascoli, com vários tipos de ensaios e reflexões, pode-se constatar o quanto as reflexões sobre a ciência do novo século atormentavam o poeta a ponto de imaginar uma espécie de dura repreensão que uma ciência personificada poderia fazer à poesia. Observe-se, a título de exemplo, a seguinte passagem do livro:

La scienza può dire alla poesia: ‘Io ho lavorato; dal mio lavoro non è nato tutto il bene che doveva, ed è nato che del male che non doveva, perché tu non hai cooperato con me, Io ho dato il grano; ma tu non ne hai fatto il pane, Io ho pòrto il grappolo; ma tu non ne hai spremuto il vino. Io ho fornita la verità; ma tu non ne hai nutrite le anime. Io non posso far tutto io sola (PASCOLI, 1952, p. 111). (trad. minha.: “A ciência pode dizer à poesia: Eu trabalhei; do meu trabalho nasceu todo o bem que devia nascer, e também certo mal que não devia, porque você não cooperou comigo. Eu dei o trigo, mas com ele você não fez o pão. Eu colhi o cacho de uvas, mas você não as espremeu para fazer o vinho. Eu forneci a verdade, mas com ela você não alimentou as almas. Eu não posso fazer tudo sozinha”).

Pascoli, o poeta “fanciullino” (“menininho”), que demonstrava piedade pela condição humana, pelos mais fracos e socialmente oprimidos, conseguiu também, ainda que frequentemente de maneira simplista, enfrentar uma das principais questões do seu tempo, isto é, à relacionada às conquistas da ciência e da tecnologia e o modo como atuavam na sociedade da época. Mantendo a coerência, porém, com a formação e os princípios humanistas recebidos, dentro da tradição da poesia italiana que começa com Dante, ele não só estabelece nos seus versos um constante diálogo que vai de Dante a Leopardi, demonstrando a necessidade de constantemente retornar aos clássicos, inclusive para explicar as violentas transformações sofridas pela sociedade no início do século.

Em torno da polarização das ideias entre Graf e Pascoli circulavam também as de Carducci e as do contraditório D’Annunzio. A radicalização da defesa do latim e do grego nas escolas, por exemplo, cujo estudo Graf considerava “desnecessário” ou, ao menos, sujeito a uma atualização e adequação aos novos tempos, levou Pascoli a escrever um livro inteiro de poesias em latim, como a demonstrar a vitalidade e a atualidade de uma língua considerada “morta” por muitos intelectuais da época.

Evidentemente, o embate entre Pascoli e Graf não chegou a uma conclusão definitiva na época. Não hesitaria em afirmar que continua atual, apesar das inúmeras reformas dos programas de ensino das escolas elementares e médias, tanto na Itália como no Brasil e em outros países do mundo. Isto talvez se deva ao fato de que não há um consenso nos meios literários e acadêmicos sobre o que realmente se deve exigir das escolas, sobretudo das que formam crianças e adolescentes. Graf acreditava que a escola deveria “preparar para a vida”, enquanto Pascoli considerava que todas as respostas, em todos os tempos, para todo tipo de questionamento envolvendo seres humanos, poderiam ser encontradas nos clássicos. Os trágicos eventos históricos relativos aos dois conflitos mundiais talvez tenham dado razão ao “poeta-fanciullino”, mas, ao mesmo tempo, é inegável que, para o bem ou para o mal, nos tornamos em grande parte dependentes do que o progresso científico-tecnológico nos proporcionou.

O papel que a escola, em todos os níveis e em todos os países do mundo, desempenhará no futuro é ainda uma incógnita, mas o que podemos deduzir da citada polêmica entre os dois poetas italianos é que a sensatez estará sempre do lado de quem defende o ser humano e os estudos que analisam a condição humana como finalidade essencial da educação escolar, sem que para isto seja necessário ignorar a importância da investigação dos fenômenos naturais e do domínio que os humanos podem exercer sobre eles.

(*) Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

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