Cassilândia, Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017

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01/11/2007 09:59

Cheia e seca no pantanal: importância do manejo

Embrapa

CHEIA E SECA NO PANTANAL: IMPORTÂNCIA DO MANEJO ADAPTATIVO DAS FAZENDAS

Por: Sandra Aparecida Santos, Balbina Maria Araújo Soriano, José Aníbal Comastri Filho, Urbano Gomes Pinto de Abreu.

O Pantanal apresenta clima tropical com duas estações definidas: chuva e seca. A estação seca refere-se ao período com baixos valores de precipitação que ocorre em todos os anos. Já, a estiagem representa a ausência total de chuvas, independente da estação do ano, fato que está ocorrendo atualmente na região do Pantanal. A estação da seca pode ser mais ou menos intensa, dependente da distribuição/intensidade das chuvas que é variável dentro e entre anos e sub-regiões do Pantanal.
Por ser uma planície sazonalmente inundável, o Pantanal se caracteriza pelo ciclo de seca e cheia (pulso de inundação). As plantas e os animais são adaptados às suas enchentes e secas anuais. Irregularidades como as cheias e secas plurianuais extremas representam estresse adicional para os organismos que habitam a região. A mortalidade natural das populações durante tais períodos é muito elevada. As secas pronunciadas provocam mortalidade elevada nos estoques de animais aquáticos e pressionam os animais exóticos e silvestres a se concentrarem nas proximidades de poças de água e canais restantes na busca de alimentos e água para dessedentação. Durante esta fase, as queimadas inadequadas e incêndios na região acentuam ainda mais o estresse dos animais.
De maneira geral, o período de seca no Pantanal favorece o uso de diversas áreas de pastagens que são inundadas sazonalmente. Muitos produtores se beneficiam do abaixamento das águas, fazendo o manejo integrado destas áreas. Este manejo pode ser feito na mesma propriedade ou em duas propriedades: uma geralmente na parte alta e outra na parte baixa. Porém, os planos de manejo não são únicos no Pantanal e cada produtor enfrenta uma realidade diferenciada em função de diversos fatores, entre os quais: localização, infra-estrutura, manejo e distribuição de chuvas.
Dependendo da localização da fazenda, esta pode sofrer inundação causada por transbordamento de rios e/ou excesso de chuvas. Esta localização também vai refletir nas comunidades vegetais existentes (tipos de pastagens disponíveis), como também no acesso as cidades. A infra-estrutura, por sua vez, envolve tamanho e número de propriedades, cercas, aguadas, entre outros o que interfere diretamente no seu plano de manejo. Com relação ao manejo do rebanho, a principal tomada de decisão do fazendeiro refere-se à taxa de lotação, que está diretamente relacionada com a distribuição/intensidade da precipitação, pois as chuvas afetam a produtividade anual das pastagens e nenhum sistema de pastejo será sustentável quando a taxa de lotação excede o suplemento de forrageiras. No Pantanal, a lotação não deve ser fixa, e quando não for possível, torná-la variável entre os anos, o ideal é que seja mantida uma taxa de lotação leve.
Neste ano hidrológico de 2006/2007, ocorreu uma concentração de chuvas nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, o que ocasionou cheia nas partes mais baixas de várias fazendas. Este fato que não ocorria há muitos anos reduziu as áreas disponíveis de pastejo para os animais, restando apenas as partes mais elevadas livres de inundação, porém, com presença de forrageiras de média a baixa qualidade e áreas florestadas com baixa disponibilidade de forrageiras. Nestas situações, a taxa de lotação diminui consideravelmente e as fazendas que tinham estabelecido a taxa de lotação em função das pastagens disponíveis nos anos anteriores secos, vão ter sérios problemas de redução na produtividade e dependendo do caso, morte de animais devido a desnutrição (foto).
Nestes casos, há várias estratégias de manejo e tomadas de decisão que podem ser realizadas. Uma solução imediata seria retirar/vender parte do gado que excede à capacidade de suporte da propriedade. Porém, o ideal seria preparar-se para estas ocasiões, vedando algumas áreas de pastagens livres de inundação juntamente com o fornecimento de suplemento a base de nitrogênio não protéico (fonte de proteína); vender animais de descarte, realizar desmame precoce, entre outras “boas práticas”. Se for mantida uma alta taxa de lotação, os animais perderão peso durante a cheia e mesmo com o abaixamento das águas, não haverá forrageiras em quantidade suficientes para atender as suas exigências, agravando ainda mais a perda de condição corporal, principalmente de vacas de cria que dificilmente, nesta condição, apresentaram cio fértil. Dependendo da intensidade deste superpastejo, as pastagens podem tornar-se degradadas e mesmo com vedação posterior, estas levarão anos para se recuperar. Enfim, haverá perda da sustentabilidade das pastagens. Vale salientar que a diversidade de espécies forrageiras nativas numa pastagem é essencial, especialmente porque as diversas espécies apresentam crescimento nas diferentes estações do ano.
Como nem sempre é possível prever secas e inundações extremas, a definição de estratégias e tomadas de decisões pró-ativas para estas situações farão a diferença para o sucesso do empreendimento rural.


Sandra Aparecida Santos (sasantos@cpap.embrapa.br), Balbina Maria Araújo Soriano (balbina@cpap.embrapa.br), José Aníbal Comastri Filho (comastri@cpap.embrapa.br) e Urbano Gomes Pinto de Abreu (urbano@cpap.embrapa.br) são pesquisadores da Embrapa Pantanal.

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